E DEU A LÓGICA

E não é que deu a lógica neste tão ilógico Brasileirão, que ficou pingando nos pés de quatro times até a rodada final, sem que nenhum deles ousasse o chute fatal antes da hora?
O Inter goleou em casa o Santo André, e, por um breve momento teve a taça em suas mãos; o São Paulo meteu um chocolate no rebaixado Sport, no Morumbi, e o Flamengo, ufa!, virou o jogo contra o Grêmio, num Maracanã ao mesmo tempo tenso e delirante, e se sagrou campeão brasileiro, com todos os méritos.
Mas, que sufoco! Pois o Grêmio, que passou o campeonato todo sem ganhar fora, a não ser uma singela vez, desembarcou no Maracanã sob todas as suspeitas. Vinha com um time misto e o recado de sua torcida: não vencer para evitar que a faixa de campeão caísse no peito do eterno rival Inter.
Em campo, porém, o mistão do Grêmio lutou, correu, e, aos 21 minutos, o menino Robeson abriu o placar, provocando um frio na espinha não apenas da torcida rubro-negra, mas, sobretudo, na tricolor gaúcha.
Ouso dizer que nunca um gol do Grêmio foi tão amaldiçoado pela própria torcida que está onde o Grêmio estiver, menos ao lado do Inter.
O alívio, no entanto, viria nove minutos depois, com o zagueiro David fuzilando bola aparada por Adriano na área: 1 a 1.
Mas, foi só no segundo tempo que o Flamengo iria espantar a tensão e assumir a pose de verdadeiro campeão. Pet, o melhor jogador do campeonato e figura central da grande virada flamenguista no torneio, até então apagado, entrou em jogo, e seu time passou a atacar como é de sua vocação e estilo.
Resultado: aos 24 minutos, Pet cobra córner da esquerda, que Angelim, outro herói dessa jornada histórica, desvia de cabeça para as redes gremistas.
De resto, era tocar a bola, evitar qualquer surpresa e partir para o imenso abraço à nação rubro-negra em festa.
Mengo, tu é o maió!
Lá nos gloriosos tempos de Joel, Rúbens, Evaristo, Dida e Zagallo,havia um humorista de rádio e TV, se não me falha a memória, o saudoso Brandão Filho (ou seria o Lilico?), que entrava em cena sempre soltando o bordão: “Mengo, tu é o maió!”.
Talvez, nem fosse, já que, naquela época, havia esquadrões espalhados por esses brasis afora, mas era um timaço de fazer frente ao mítico Flamengo de Zico, Andrade e cia.
Hoje, nem tanto. Há um claro equilíbrio entre os principais clubes brasileiros, o que se reflete na classificação final do Brasileirão mais disputado da história: Flamengo campeão, com, apenas dois pontos à frente de Inter e São Paulo, com o Cruzeiro tomando a vaga da Libertadores do Palmeiras, que liderou por dezenove rodadas para terminar de maneira tão melancólica, ao perder por 2 a 1 para o Botafogo, que, por sua vez, safou-se do rebaixamento no último suspiro.
Mas, o Flamengo foi aquele que conseguiu conjugar a seus pés, por mais tempo e na hora H, aquele futebol que nos remete à tão desprezada Escola Brasileira, agora representada ao pé da letra por um sérvio de toques refinados e extrema inteligência já beirando os 40 anos de idade – Petkovic.
É pra fazer nossos pragmáticos de plantão, nosso alquimistas de botequim, como dizia o eterno Thomaz Mazzoni, ou químicos de fancaria, nas palavras de Mário Moraes, o rei dos comentaristas esportivos radiofônicos, pensarem um pouco sobre o valor inestimável da simplicidade.
O QUE DEU ERRADO?
O Palmeiras foi o clube que teve o maior respaldo financeiro para montar seu time este ano. Trouxe alguns jogadores de alto nível, como Cleiton Xavier, Armero e Wagner Love, por exemplo, e outros de qualidade técnica discutível.
Trocou de técnico no meio do caminho, ambos o que de melhor havia na praça – Luxemburgo, o treinador mais vencedor do país, e Muricy, que vinha de sequência impressionante (vice, com o Inter, e tricampeão, pelo São Paulo).
Mas, só conseguiu apresentar um futebol de primeira, somando longa série invicta, sob o comando do novato Jorginho, auxiliar tampão. Foi quando o Palmeiras soube explorar o que tinha de melhor, ganhou e jogou bonito, um futebol de bola trabalhada e voltado sempre em direção à meta adversária, algo mais ou menos parecido com o que aconteceu com Andrade no Flamengo.
Ponteou a competição por dezenove rodadas e foi o líder que conseguiu emplacar a maior vantagem de pontos lá na frente, cinco, pra ser mais preciso, já na reta final do torneio. O que deu errado, afinal? Nunca é uma coisa só. Mas, às vezes, é apenas o destino.
Já o São Paulo, a exemplo do Palmeiras, teve a taça na mão, e largou nas duas últimas rodadas, para, no fim, assegurar pelo menos um lugar na Libertadores. Já no Tricolor, a coisa é mais pontual: precisa se livrar de vez desse grilhão dos três zagueiros e contratar um meia de técnica, habilidade e inteligência, para pensar seu jogo tão frenético e repetitivo.
Por fim, o Inter, aclamado com razão o melhor elenco do Brasil, no início do ano, chegou a exibir um jogo empolgante a ponto de se qualificar como o principal candidato ao título brasileiro.
Mas, depois, refluiu, e oscilou tanto que sua chegada fulminante à última rodada, durante a qual por alguns minutos foi campeão, surpreendeu a todos. Surpresa maior porque Mário Sérgio, tão cioso dos sistemas defensivos de suas equipes, largou o bridão e deixou o Inter correr solto na grama do Beira-Rio para desespero do Santo André, que levou de quatro.
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Autor: Alberto Helena jr. Tags: Flamengo, Grêmio, hexa, INTER, Palmeiras