Fico perplexo ao constatar que a teoria da conspiração, hoje em dia, passou a ser tese corriqueira. Desconfio mesmo que a maioria dos torcedores, aqui e ali, adota essa explicação nos casos mais estapafúrdios.
Claro, não sou besta de achar que nunca houve marmelada em futebol. Mas, não na proporção e abrangência com que sonham os adeptos da teoria da conspiração, multiplicados, diga-se, depois do advento da Internet, onde qualquer anônimo pode postar um delírio qualquer que se espalha rapidamente feito chuva radioativa.
Aqui, um juiz é subornado, ali, um goleiro ou um beque, mais adiante são os cartolas que se arreglam, isso sem falar em formas mais sutis de se tentar alterar o resultado de um jogo.
Mas, a idéia de que se possa juntar o time todo, mais os reservas, no vestiário e pedir-lhes que percam um jogo já passa para o campo do absurdo.
Sim, é verdade, há casos em que o acerto entre cartolas de dois clubes pode ser catalogado como suborno, como aconteceu anos atrás quando o Guarani, para salvar o Palmeiras do descenso no Paulistão, escalou dois jogadores não inscritos – Dante e Flamarion. O Guarani perdeu os pontos no tribunal, claro, e o Palmeiras safou-se da queda.
Sou de um tempo em que não havia esse eufemismo de mala branca. Era tudo mala preta, fosse para subornar alguém, fosse para estimular este ou aquele time que não tivesse motivação especial em determinado jogo. Mala preta porque escusa, imoral, ainda que, no caso do bicho extra, não seja ainda considerada ilegal.
Esse, porém, é um campo minado, num tempo de ética tão difusa.
Mesmo porque não sei funciona muito bem, desde que se desconhece seus limites.
Por exemplo: Fluminense e Goiás, que obtiveram resultados ruins para dois clubes que disputam privilégios – o São Paulo, o título; o Flamengo, vaga na Libertadores.
Ora, o desempenho de Flu e Goiás não diferem nem um pouco daquele que eles vinham apresentando nas últimas rodadas. O Goiás teve um segundo turno exemplar, enquanto o Flu renasceu sob os bigodes filosofais de Renê Simões. São dois times com um nível respeitável de bons jogadores, que não andavam bem das pernas ou da cuca, mas que há tempos vêm se recuperando. Logo, com mala branca ou preta, o comportamento dos dois no último domingo foi compatível com essa reação.
Digamos, num exercício de imaginação, que Palmeiras e Cruzeiro, que disputam com o Flamengo vagas na Libertadores, tenham descarregado uma fortuna na porta dos fundos da concentração do Goiás. E daí?
Daí que o Cruzeiro foi ao Beira-Rio e perdeu dos reservas do Inter, como, aliás, tem acontecido com freqüência, quando a Raposa sai da Toca. E o Palmeiras não foi além de um empate de zero a zero com o Vitória, que, por sua vez, deveria, segundo essa hipótese, ter recebido um baú dourado, cheio de patacões azuis e rubro-negros.
Moral da história amoral: Que las hay, las hay, mas não na proporção que muitos imaginam.