OS FILHOS PRÓDIGOS
Essa história do filho pródigo que à casa torna, no futebol, é tão antiga quanto à bíblica.
Já lá pelos anos 20 e 30, uma legião de brasileiros, quase todos oriundi (descendentes de italianos) partiram para a Bota, tiveram êxito – alguns serviram à Seleção Italiana -, e, depois voltaram, com saudades da feijoada, da batucada, essas coisas.
Só para lembrar: Filó, De Maria, Ministrinho, os irmãos Fantoni, Gambarotta, sei lá quantos mais.
O caso mais patético foi o do mineiro Niginho, que, ao voltar da Itália, foi convocado como reserva de Leônidas da Silva para a disputa da Copa do Mundo de 38, na França. Sucedeu que Leônidas se machucou às vésperas do jogo pelas semifinais com a Itália. E, quando o técnico Ademar Pimenta resolveu escalar Niginho, só então ficou sabendo que o jogador estava vetado pela Fifa por não ter rescindido seu contrato oficialmente com o clube italiano que detinha seu passe, creio que a Lazio.
Resultado: o meia-direita Romeu Pelliciari foi deslocado para o comando do ataque, no lugar de Leônidas, e Luizinho – Luiz Mesquita de Oliveira -entrou na meia, embora fosse ponta-direita de origem e vocação.
O Brasil perdeu e toda a ira nacional recaiu sobre Leônidas, acusado de ter se vendido ao ouro de Mussolini, o ditador italiano na época.
Já nos anos 50, depois da Guerra, vários brasileiros partiram para a Europa. Dentre eles, Julinho, o Júlio Botelho. Em 55, foi para a Fiorentina, que não ganhava um campeonato desde que Da Vinci e Michelangelo faziam suas diabruras.
Rodada decisiva do campeonato italiano, a Fiorentina vai a Bolonha, e está tomando de 2 a 0, lá pelos 35 minutos do segundo tempo. Pois, Julinho recebe, parte para cima dos adversários, dribla meio time e reduz. Para 2 a 1. Bola no centro, Julinho recupera, tabela, e rede! Nova saída, bola pra Julinho, que se livra de um, de dois, e fuzila. Fiorentina, campeã, pela última vez em sua história.
Julinho foi carregado nos ombros dos torcedores de Bolonha a Florença, onde até hoje preserva-se uma placa de bronze ao lado da mesa que ele frequentava na cidade das flores, em que se inscreve: “Aqui, comeu Julio Botelho, o Sr. Tristeza”.
Sr. Tristeza porque, como se diz, ele deixou a Penha, bairro da zona Leste de São Paulo, mas a Penha nunca o deixou. Por isso, apesar do imenso sucesso na Itália, Julinho voltou em 1959, para o Palmeiras e para protagonizar outro episódio épico.
Jogo Brasil e Inglaterra, Maracanã lotado à espera de ver os dribles demoníacos do Anjo das Pernas Tortas, Garrincha. Pois, quem entrou com a camisa 7 em campo foi Julinho para receber a vaia mais sonora do templo do futebol.
Pra resumir: fez um e deu outro para Henrique, centroavante do Fla, marcar os 2 a 0 finais. O Maracanã, em pé, depois da vaia histórica, aplaudiu Julinho em pé.
Se listar aqui todos os que foram, fizeram fama e fortuna, e voltaram para ainda mais enriquecer nosso futebol, ocuparia todos os bytes da paciência do internauta. Assim, como os que foram, falharam e voltaram para se reerguer aqui.
Não há regras nem receitas. Há apenas o balanço das circunstâncias, que o amigo pode chamar de destino.
Liedson, já
Consolo para a Fiel, se isso ainda for possível depois da tragédia recente: Liedson chega e pode entrar já no time que dará outra feição ao ataque corintiano.
Acabei de vê-lo em ação, pelo Sporting, contra o Naval, no empate por 3 a 3. Liedson não só fez dois dos três gols de sua equipe como revelou estar, fisicamente, nos trinques. Basta dizer que, um minuto antes de marcar o terceiro gol, aos 44 minutos do segundo tempo, deu um pique de quarenta metros e quase chega para fazer.
Na verdade, a Fiel terá um impacto com a presença de Liedson no lugar de Ronaldo Fenômeno. Sem ter a mesma técnica e habilidade de Ronaldo, Liedson é sua antítese: magrinho, leve, rápido e oportunista, por certo, será mais eficaz do que o craque histórico.
E, não valesse essa observação pontual, bastava constatar as tantas homenagens que lhe prestou a torcida do Sporting, com retratos e dísticos de agradecimento ao artilheiro que partia.
Liedson deixou sua marca em Portugal, e, certamente, remarcará sua lembrança lisonjeira do breve tempo em que usou a camisa alvinegra.
Notas relacionadas:
Autor: Alberto Helena jr. Tags: Corinthians, Fiorentina, Garrincha, Itália, Julinho, Leônidas da Silva, Liedson, Portugal, Ronaldo