ABELÃO, O BÃO
Abel Braga acaba de assumir o Fluminense, depois de longa e persistente espera. E estreia dirigindo seu time contra o Corinthians, no Pacaembu, neste domingo.
Antes de mais nada, quero dizer que Abelão é um sujeito bão, como se diz nos interiores do Brasil. Apesar daquele corpanzil todo, que à primeira vista sugere um tipo rude e tosco, Abelão não consegue esconder uma alma leve e sensível.
Por exemplo, o amigo pode imaginá-lo diante de um piano executando Chopin com lágrimas nos olhos? Pois, Abelão é assim. Como zagueirão do Flu, do Vasco, da Seleção, ao mesmo tempo em que não escondia a marreta no calção, era capaz de tratar a bola no pé com os cuidados com que seus dedos percorrem o teclado branco e preto do piano.
Exuberante, às vezes, fala demais. Mas, melhor exceder-se na espontaneidade do que espreitar-se na dissimulação.
Técnico vitorioso, campeão do mundo pelo Inter, entre tantas outras conquistas menores não pode ser timbrado como um estrategista emérito, um desses treinadores que inventaram moda no futebol brasileiro, tipo Flávio Costa, com sua célebre Diagonal, ou Zezé Moreira, com sua universal Marcação por Zona.
Mas, gosta de embicar seus times de forma mais ofensiva do que a habitual nos últimos tempos do futebol brasileiro.
No Fluminense, por certo, com o elenco de que dispõe, poderá deitar e rolar nessa praia.
É o que espero.
JADSON E O CLICHÊ
Vira e mexe, o bloguista amigo posta um comentário do tipo: “Pô, você viu outro jogo…” , e lá vem malho no blogueiro.
Às vezes, o amigo viu melhor o jogo do que este velho cronista, caçando imagens de várias partidas ao mesmo tempo. Mas, em geral, vi mesmo outro jogo, aquele visto pelo olhar mais frio do analista, não do torcedor, que torce e distorce naturalmente os fatos.
Claro, traio-me também pela emoção, que futebol não é jogo de xadrez, embora guarde algumas remotas semelhanças. Mas, posso assegurar que isso é coisa rara.
Tenho a convicção, porém, de que busco fugir do clichê, do preestabelecido, do estigma, como o diabo da cruz. Ao contrário de muitos companheiros que a eles se entregam de alma lavada.
Nada mais me causa repulsa do que aquela história de dizer que Fulano é isso. Fulano, Beltrano, Sicrano, não são isso ou aquilo. Foram, isso ou aquilo, nesta ou naquela partida, neste ou naquele momento, nesta ou naquela temporada. Mesmo porque as pessoas não são as mesmas do primeiro vagido ao último suspiro.
Estou dando voltas para chegar à atuação de Jadson no jogo contra a Romênia.
Vale dizer que a chamada desse jogador pela primeira vez por Mano, causou-me certa estranheza. Nem sequer me lembrava de sua atuação aqui no Brasil, pelo Atlético PR, se não me engano.
Além do mais, o bicho jogava lá no Shaktar da Ucrãnia, escondidinho da tv e dos noticiários. Eis, porém, que, sob seu comando, o Shaktar chega ás quartas de final
da Liga dos Campeões, feito inédito na história desse time.
Nos poucos minutos em que esteve em campo, na estreia pela Seleção, Jadson nada acrescentou, acentuando a ideia de que se tratava de um equívoco de Mano.
Mas, contra a Romênia, jogou de cabo a rabo, e jogou bem. Nada excepcional, para entrar nos anais da CBF ou ganhar definitivamente o coração do torcedor. Mas, jogou bem. Melhor do que Elano, na partida contra a Holanda. Deu ritmo ao meio-campo, distribuiu passes rápidos e precisos, participou decisivamente do gol brasileiro, deu duas ou três enfiadas espertas, e, sim, errou este ou aquele drible, este ou aquele serviço, normal.
No dia seguinte, ligo o rádio, abro os jornais, a Internet, e é aquela enxurrada de críticas em cima de Jadson. É isso, é aquilo. Não tem cabedal para vestir a camisa 10 que já foi de Pelé e outras tontices mais.
Claro que Jadson não tem talento para vestir a camisa de Pelé. Ninguém tem, nem terá até o juízo final. Sem falar nessa crônica desinformação sobre a tal Camisa 10, que tanto foi de Pelé e Zico, dois meias ofensivos, como foi de Ademir da Guia e é de Ganso, dois meias armadores.
No máximo, será reserva de Ganso, se este se recuperar plenamente.
A propósito, sem fugir do tema, Gérson era 8 no Botafogo e foi 10 no São Paulo. Mesma transferência de Zizinho, que era 8 no Flamengo, 9 no Bangu e 10 no São Paulo. Isso se deve á herança do sistema Diagonal de Flávio Costa, que, em alguns clubes, o 10 era o armador e, em outras, era o ponta-de-lança. Mas, vá enfiar isso na cabeça dessa moçada, que nem sabe o que é Diagonal, quem foi Flávio Costa ou, sequer, quando o número foi impresso nas camisas dos clubes e por quê.
Mas, que diabo! No jogo contra a Romênia, Jadson cumpriu seu papel melhor do que a maioria dos que têm ocupado esse espaço desde a contusão de Ganso. Custa dizer isso, em vez de ficar repisando velhos clichês?
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Autor: Alberto Helena jr. Tags: Abel Braga, Flávio Costa, Fluminense, Jadson, Romênia, Zezé Moreira
