UM RIO-SÃO PAULO DE MERCADO
Lá pelos entornos da década de 30, como gosta de dizer meu querido Lança, instalou-se o profissionalismo no futebol brasileiro. O Fluminense, clube mais rico do país, entre outras coisas porque dono do estádio mais importante do Brasil – as Laranjeiras -, baixou em São Paulo e fez um rapa geral. Levou praticamente toda a Seleção Paulista da época.
A investida foi tão poderosa que a diretoria do Palestra Itália (hoje, Palmeiras) resolveu esconder seus jogadores numa chácara em Atibaia (à época, o fim do mundo), cercando-os de jagunços armados instruídos a botar pra correr os possíveis emissários cariocas.
Inútil medida, pois Romeu, Gabardo, Sandro, Tim, Hércules, Orozimbo, quase toda a elite do futebol paulista, se transferiram para as Laranjeiras. Era o poder da grana, que fala mais alto, que fala primeiro, como no samba do saudoso e genial Ataulpho.
Quase um século depois, dá-se o troco. Os clubes paulistas, neste período de contratações, foram ao Rio e fizeram a festa. Quase dá para escalar uma seleção de cariocas ilustres que, duas semanas, trocaram a Cidade Maravilhosa pela Paulicéia Desvairada. Vejamos: Wagner Diniz, Renato Silva, Triguinho, Júnior César, Arouca, Lúcio Flávio, Washington, Jorge Henrique, seu lá quantos mais.
Dos paulistas, o mais guloso foi o São Paulo, que trouxe do Botafogo o zagueiro Renato Silva, do Botafogo, o lateral-direito Wagner Diniz, e do Fluminense, numa feira, Washington, Júnior César e Arouca, que só deve se apresentar em abril, caso não haja negociação entre os dois Tricolores para abreviar esse prazo.
O que isso quer dizer? Que a grana segue sendo, como sempre, o valor que fala mais alto e que fala primeiro?
É muito provável. Mas, no caso do Flu, me parece que há uma predisposição para desmontar de vez aquele timaço que tantas esperanças deu aos tricolores e que acabou a temporada simplesmente escapando do rebaixamento.
Quem sabe, no âmago do inconsciente tricolor, pulse a lembrança do Timinho, uma equipe modesta mas briosa, que, sob o comando do saudoso Zezé Moreira, conquistou títulos impossíveis.
Há clubes que viram reféns desta ou daquela tradição. O Flu, por exemplo, foi uma equipe estrelada nos anos 30. Nos 50, um time competitivo, apenas, embora lá estivesse um dos maiores craques da história do nosso futebol – Didi. Foi vencedor nos dois períodos, como o foi nos anos 70, com Flávio, e, mais tarde, com o casal 10 – Assis e Washington.
Vivo me perguntando por que será que a massa dos torcedores (não só a do Flu) e a mídia esportiva em geral preferem ressaltar e cultuar justamente aquela última imagem, a do time guerreiro, o out-side, o que sai do limbo para levantar a taça?
Suponho por que sejamos todos – a imensa maioria dos brasileiros – uns perdedores de véspera. Nunca vai dar certo. Quando dá, êia!, eis o prodígio que sobrevive a tudo e a todos.
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Autor: Alberto Helena jr. Tags: Arouca, Assis, Fluminense, Júnior César, Laranjeiras, Palestra Itália, Palmeiras, Renato Silva, Rio de Janeiro, São Paulo, Wagner DinizWashington