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02/11/2009 - 16:05

NEM NA CALCULADORA, NEM NAS ESTRELAS

Veja mais charges no blog do Milton Trajano

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Os matemáticos fazem e refazem seus cálculos a cada rodada; os astrólogos buscam nos céus uma conjunção de estrelas que lhes aponte para o ungido, aquele destinado a ser campeão; os experts da mídia analisam a tabela, jogo por jogo, e, no fim, só se contradizem, porque os fatos subvertem a lógica mais elementar.

O psicólogo de plantão diria que esse Brasileirão tem os mais fortes traços esquizóides desde que os pontos corridos foram reinstalados nos nossos campos, alternando-se profundas depressões com luminosas euforias.

E o torcedor torce, enquanto exuma fantasmas nos gestos dos juizes contra seus respectivos times, enxergando verdadeiras conspirações por trás do ato individual e humano de cada um, em circunstâncias sempre diversas.

O certo é que o futebol, esse brinquedo dos deuses levado às últimas consequências pelos homens, apesar de toda tecnologia como suporte, teorias e cousa e lousa e maripousa, no fundo, muitas vezes, se resume num drible inesperado, numa cabeçada certeira, num chute fatal, numa defesa espetacular do goleiro, na falha deste ou daquele beque, no pênalti marcado ou não pelo juiz, na sinalização infeliz de um impedimento pelo bandeirinha, enfim, essa soma de detalhes aleatórios ou não que fazem o sal do jogo.

Claro que uma equipe composta por jogadores de técnica superior, bem preparada física, tática e psicologicamente, terá sempre mais possibilidade de vencer outra, inferior nesses quesitos.

Ainda mais se incorporar a esses valores tradição, torcida imensa, gerenciamento administrativo adequado, grana etc.

Apesar disso, a zebrinha sempre estará espiando uma brecha, atrás da meta, para partir em desabalada carreira campo adentro.

A vantagem do sistema de disputa por pontos corridos é a de que, raramente, esse bicho entra em cena na hora de um time levantar a taça. Quase sempre, o melhor, na média do campeonato, vence.

O diabo, na atual competição nacional, é que a diferença técnica entre os primeiros e os últimos é muito pequena, quase insignificante. Dá-se, então, que qualquer previsão está, de saída, prejudicada pela imponderabilidade presente em qualquer confronto, independentemente se seja a disputa entre os candidatos ao título, ou destes contra os ameaçados de rebaixamento, em casa ou fora.

Tivéssemos por aí um Santos de Pelé, um Cruzeiro de Tostão, um Inter de Falcão, um  Flamengo de Zico, um Botafogo de Garrincha, Didi e Nilton Santos, um Palmeiras de Ademir da Guia, enfim, um desses timaços da história, não há dúvida de que dispararia na ponta.

Mas, não temos. São todos mais ou menos do mesmo nível.

Logo, o negócio é continuar esquentando as calculadoras e perscrutando as estrelas para tentarmos achar um sinal do escolhido.

Feliz ou infelizmente, essa é a lógica deste Brasileirão, tão pobre tecnicamente, mas tão intenso em expectativas.

Autor: Alberto Helena jr. - Categoria(s): Campeonato Brasileiro Tags: , , , , ,
29/01/2009 - 16:58

A PARADINHA

Obina acaba de chutar na trave um pênalti contra o Bangu. O lance foi eivado de irregularidades: o goleiro, antes da cobrança, salto um metro à frente, quatro jogadores do Bangu invadiram a área e tal e cousa e lousa e maripousa.

Mas, não é sobre isso que quero falar. Quero falar do conceito da cobrança, a famigerada paradinha. Obina executou a tal paradinha e bateu no canto na direção do qual salto uo goleiro. Portanto, bateu mal, embora o goleiro não a alcançasse.

Sim, porque o sentido da paradinha é permitir ao batedor esperar a escolha do canto pelo goleiro para cobrar o pênalti exatamente no lado oposto. Se fez a paradinha e bateu no mesmo canto escolhido pelo goleiro, errou. Era como se não cobrasse com paradinha nenhuma.

A propósito, outro dia me ligou um companheiro da Caros Amigos para colher alguns subsidios sobre Didi, o Príncipe de Rancho de Carnaval, como o definiu magnificamente mestre Nelson Rodrigues.

Os amigos mais jovens, por certo, não captam essa imagem. Nos primórdios do samba, antes mesmo do avdvento das escolas de samba, os foliões iam às ruas, no Tríduo do Carnaval, em blocos avelhacados e ranchos. Os ranchos obdeciam um ritmo mais candenciado de marcha, com direito, além da percussão e das cordas, de instrumentos de sopro – clarinetes, flautas e até saxes.

O canto, os movimentos, as fantasias, tudo, enfim, exigia uma elegância impecável, sintetizada pela figura do príncipe,de peruca e tudo.

Mas, voltando à paradinha, que Pelé sacramentou e difundiu mundo afora. lembro vivamente dos treinamentos que a Seleção Brasileira, às vésperas da Copa do Mundo de 58, protagonizava nos balneários brasileiros – Araxá, sobretudo.

Esses treinamentos eram transmitidos pela TV Record, e, num deles, depois do coletivo, nas cobranças de pênati, vi Didi partir pra bola, dar um tempo malandro, antes de disparar no canto contrário ao do goleiro.

Pelé e os demais cobradores, em seguida, passaram a repetir a cobrança, num campo que divide a curiosidade da disputa pessoal.

Coube a Pelé imortalizar a jogada. Mas, o inventor foi Didi.

Autor: Alberto Helena jr. - Categoria(s): Campeonatos Estaduais, Ex-jogadores Tags: , , , , ,
13/11/2008 - 16:29

O BOTAFOGO E O DESTINO

O presidente do Botafogo, Bebeto de Freitas, diz que está desanimando diante dos problemas financeiros de seu clube.

Bebeto, ex-craque e técnico vitorioso no vôlei, é um sujeito íntegro, apaixonado pelo Botafogo como poucos, mas tem demonstrado uma passionalidade que mais deprime do que exalta.

Bebeto de Freitas
Como todo botafoguense, Bebeto de Freitas “sempre espera o pior”

O PC do V, meu querido Paulo César Vasconcelos, que conhece muito bem as entranhas da alma alvinegra, garante que botafoguense é assim mesmo – um torturado, sempre esperando o pior, como se o traço negro do destino fosse mais forte do que o alvo em General Severiano.

O Botafogo, a exemplo do Santos de Pelé, foi um perdulário nos momentos de glória extrema, aqueles proporcionados por Garrincha, Nilton Santos, Didi e a geração seguinte, de Jairzinho, Paulo César etc.  Ou melhor: imprevidente. deixou-se deslizar pelo deslumbramento das históricas exibições daqueles times memoráveis, e não cuidou de encher o pé de meia para os tempos futuros, quando a maré reflui. E sempre ela reflui, meu caro.

Da mesma forma que, logo depois de Pelé, o Santos perdeu o Parque Balneário, o Botafgo perdeu General Severiano, que recuperaria mais tarde, mas a que custo!

O Santos, de uma forma ou outra, conseguiu, ao menos preservar a Vila, e, mais recentemente, arranjou um jeito de criar seu próprio CT e outros bichos. Mas, o Bota, embora tenha recebido de mão beijada o Engenhão, até agora não soube como bem explorar esse benefício, tampouco controlar seus gastos.

Há coisas que só acontecem com o Botafopgo, reza a surrada máxima. Mas, alguém já pensou seriamente sobre as razões dessas insólitas incidências do destino sobre General Severiano? 

 

 

Autor: Alberto Helena jr. - Categoria(s): Campeonato Brasileiro Tags: , , , , , , , , , ,
03/11/2008 - 15:40

ESCALAR E ARRISCAR

Dunga anunciou a lista dos convocados para o último jogo do Brasil no ano, um amistoso com Portugal. E lá estão, como novidades, a volta de Marcelo, do Real, à lateral-esquerda, e de Miranda, beque do São Paulo.

Marcelo foi um dos poucos que se salvaram da campanha olímpica, e joga numa posição carente desde o fim do ciclo Roberto Carlos. Não tem sido titular do Real, nas últimas rodadas, substituído pelo argentino Heinze, mas é jovem, bom de bola e merece ser melhor observado na Seleção.

E Miranda já deveria ter sido chamado há muito tempo, pois, trata-se de um zagueiro sólido, bem dotado tecnicamente, que faz poucas faltas e joga como recomendava a Enciclopédia do Futebol, mestre Nilton Santos – de pé.

Mas, tudo isso – o acerto ou desacerto nas escolhas dos 22 selecionáveis – passa a ser de certa forma irrelevante, a partir do instante em que o técnico escala o time titular e dá-lhe este ou aquele formato, infundido-lhe este ou aquele espírito tático.

Ele pode até escalar um time desabrido no papel, com jogadores de vocação ofensiva e tal e cousa e lousa e maripousa. Mas, se determina que a zaga não deve adiantar sua marcação além de três metros da grande área, se orienta seu meio-campo a estar com, pelo menos três aquém da linha da bola etc., o jogo certamente não fluirá com a agressividade sugerida pelo talhe técnico dos jogadores que estão em campo.

Nos tempos de um Zizinho, um Didi, um Gérson, para citar apenas três grandes maestros do meio-de-campo que uniam à técnica exemplar um poder de liderança ímpar, eles mesmos tratavam de remediar em campo o malfeito, e técnico nenhum no mundo os peitaria por isso.

Traduzindo: a imensa maioria dos jogadores atuais passa a sensação de que não tem iniciativa para mudar o estilo e o ritmo de uma equipe. Entra em campo, com a receita embaixo do braço, e tenta cumprir à risca o que lhe foi determinado. Em suma, fiz a minha parte, como o professor mandou, o resto é com eles.

Perceba o amigo a incoerência disso. Em nome do espírito de equipe, do grupo, do tal futebol solidário de resultados, estimula-se, por vias indiretas, o mais alto grau de individualismo, justamente no seu sentido mais negativo, aquele que nega a criatividade e a capacidade de interatividade da equipe, sob um comando real em campo, não o virtual, fora do campo. Apenas defende seu pirão.

Como resultado, temos esse futebol burocrático, insosso, chato, inconseqüente, apresentado de hábito pela nossa Seleção, o que acaba provocando o desinteresse do torcedor pelo time.

Esse desinteresse, na verdade, não é porque os jogadores vivem lá fora, nadando em dinheiro, e por isso perderam o amor pela camisa, o hino pátrio, o prazer de jogar bola e tantas outras baboseiras do tipo tão recorrentes na mídia e na opinião pública hoje em dia.

Isso contribui, sim, para um certo individualismo, mas de outro porte. O jogador de futebol, hoje, é uma empresa, cercada de tantos aparatos (empresários, assessores de imprensa, advogados, acólitos etc.) que tende a se isolar numa bolha de proteção. Mas, quando entra em campo, é outra história. Quer ganhar, fazer jogadas deslumbrantes, marcar gols históricos, volta, enfim, a ser menino da periferia, pobre e sonhador.

Mas, aí, baixa a tal da responsabilidade. Não pode errar, não pode contrariar as instruções do professor, não pode isso, não pode aquilo. Simplesmente, não pode mais do que pode.

Há, sim, os que arriscam quebrar o script. Um Kaká, de repente, arranca com a bola nos pés; se sai o gol, é o maior, mas se perde a bola no último drible, é um individualista que só pensa em fazer seu nome. Robinho sai por aí pedalando. Se acerta a jogada final, é gênio; se erra, um firuleiro inócuo. Mas, são poucos, raríssimos, os desse time. A maioria prefere não errar. E a melhor maneira de não errar é não arriscar, como se futebol não fosse um jogo, portanto, intrinsicamente, um risco permanente.

Tudo para que o professor, na entrevista coletiva após o jogo, exiba a cartela de resultados. Olhaqui: ganhamos mais do que perdemos. Como se o futebol brasileiro, com uma só perna, não ganhasse mais do que perdesse, ao longo de mais de século de existência.

Autor: Alberto Helena jr. - Categoria(s): Seleção Brasileira Tags: , , , , , , , , , , ,
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