O BRASIL QUE EU GOSTARIA
Ronaldinho vai à Copa? E Neymar, merece essa oportunidade já, ou melhor seria esperar a próxima? São perguntas recorrentes que me fazem amigos e leitores por onde passo.
Vendo jogos nas arquibancadas, pela TV, ouvindo rádio, lendo jornais, acompanhando o futebol, por prazer ou por ofício, nos últimos sessenta anos, de uma coisa estou absolutamente certo: nunca nenhum jogador está definitivamente pronto para uma Copa do Mundo, seja novato, seja veterano calejado e ilustre, esteja nos trinques ou não ás vésperas da convocação final. A Copa do Mundo é um torneio singular, de tal magnitude, rápido e rasteiro, onde o craque se revela na sua plenitude já em plena disputa.
Pego Raí, como exemplo: durante quatro anos antes do Mundial dos EUA, era o tipo acabado do craque, líder, sujeito inteligente, articulado, ordeiro, caráter ilibado, atleta perfeito, dedicado, cumpridor de seus deveres e tudo o mais que se possa imaginar para traçar o perfil do craque ideal. Campeão do mundo pelo São Paulo, testado até o limite de suas reações em jogos críticos em que sempre foi decisivo e tal e cousa e lousa e maripousa.
Escalado por Parreira como titular absoluto, com a faixa de capitão, já se imaginava Raí levantando a taça como nobre descendente de Bellini, Mauro Ramos de Oliveira e Carlos Alberto Torres, todos figuras de fina estampa como os cavaleiros medievais D’El Rey de Espanha e Alhures. Pois, bastou a bola rolar na e, inexplicavelmente, o futebol de Raí definhou feito mágica. E logo acabou sendo substituído por Mazinho, hábil e técnico lateral e volante, mas nem de longe um Raí daqueles tempos.
O que aconteceu? Disseram que Parreira havia escalado Raí fora de sua real posição. Não é verdade. Jogou onde sempre jogara no Botafogo de Ribeirão, na Ponte, no São Paulo, no PSG e na própria Seleção Brasileira até então. Tentei, durante a competição, extrair de Raí o segredo dessa enigmática queda de produção. Em vão. Muito provavelmente, nem ele saiba, passados tantos anos. Digamos que aconteceu naquele exato momento, mesmo porque Raí continuou jogando nos clubes o mesmo que jogava antes.
Citei Raí porque seu caso foge aos chavões habituais: ah, o cara mascarou, ou o bicho é um perdido, sai na noite a semana inteira; mercenário, só pensa em dinheiro; sabe jogar bola, mas não tem alma de campeão; foi prejudicado pelo esquema burro do técnico; era muito jovem; era muito velho, e tudo o mais.
Já Garrincha infringia todas essas normas, a vida toda, sem exceção: não sossegava o pito, tanto que deixou um herdeiro na Suécia, tão escarrado, até nas pernas tortas, que não há o que negar; manguaçava legal e adorava mergulhar nas noites cariocas sem fim. Apesar de todas as histórias deliciosas inventadas pelo cronista esportivo Sandro Moreyra, beirava a imbecilidade; nunca foi um atleta, na exatidão do termo, mas nos deu uma Copa (62), onde fez de tudo e muito mais e foi decisivo na outra, ao lado de Pelé (58).
Ah, mas Garrincha era gênio. Antes da Copa, não: era um driblador irresponsável, uma figura folclórica, que só foi à Copa porque o irrepreensível Julinho Botelho abdicou de possível convocação por achar, eticamente, que seria injusto ele, jogando na Fiorentina, onde é mito até hoje, tomar o lugar de um jogador que atuava no Brasil na época. Coisas daqueles tempos, quer meus jovens amigos creiam ou não. Depois das Copas, sim, foi aclamado como gênio, intuitivo ou não, mas gênio.
São inúmeros os exemplos parecidos, ao longo da gloriosa história do futebol brasileiro. Para o sim ou para o não. O que quero dizer é que nenhum de nós, nem daqui a cem anos, saberá o que Ronaldinho Gaúcho e Neymar poderiam ter feito nessa Copa da África, supondo-se que nenhum dos dois venha a ser convocado por Dunga, o que parece mais provável, dado o pensamento esquemático e empírico do treinador brasileiro, que se pode traduzir numa frase: não se mexe no que deu certo.
E o que deu certo? Uma série recorde de resultados positivos, desde as conquistas das Copas América e da Confederações e da nobre classificação nas Eliminatórias, sem falar nas vitórias expressivas sobre Itália, Argentina e Portugal, três forças incontestáveis do mundo do futebol. Contra números não há argumentos, asseveram os pragmáticos. Há, sim, pois futebol não é basquete nem beisebol, que vivem de estatísticas. Futebol é algo mais, por isso seu encantamento mundial. E, no futebol, a escola brasileira, então, transcende em muito as estatísticas, embora estas continuem a seu favor.
E este é o verdadeiro milagre brasileiro: a capacidade de unir a ciência à arte, de aliar eficiência à criatividade. Nem só uma, nem só outra. Ambas, interligadas como gêmeas siamesas. Se o amigo me perguntasse como reproduzir isso na prática, segundo minha visão do futebol, diria que faria a seguinte chamada:
Goleiros – Júlio César, Marcos e Rogério Ceni, pois não iria arriscar nesse setor básico de uma equipe. Todos são experientes, estão em plena forma, e os mais antigos – Marcos e Rogério – são líderes positivos que não incomodariam numa eventual reserva. Ao contrário.
Laterais – Maicon, Daniel, André Santos e Gilberto, que pode ser utilizado, de repeente no meio de campo.
Zagueiros – Lúcio, Juan, Tiago Silva e Luisão, os que estão aí.
Volantes – Hernanes e Felipe Melo, dois que marcam e jogam de cabeça de erguida.
Meias-direitas – Kaká e Neymar.
Meias-esquerdas, armadores – Cleiton Xavier (que, também, se necessário, pode funcionar como volante) e Ganso, o menino do Santos que sabe tanto marcar quanto armar.
Atacantes – Robinho, Nilmar, Luís Fabiano, Adriano, Pato e Ronaldinho.
Tá loco!, exclamarão os pragmáticos de plantão. Sim, estou louco pra ver o Brasil jogar com a cara do Brasil, uma vez ao menos nos últimos anos, antes de a Barca aportar no meu jardim, embora saiba de sua impossibilidade.
Estou louco pra ver essa moçada, que se criou vendo esse arremedo de futebol de resultados, descobrindo que há um encanto extra nessa vida de otário (afinal, o salário já não chega para mim, como no samba antológico), repetitiva, ensimesmada, grave, solene, cinza, que talvez explique essa violência presente nos estádios e adjacências, pois cada jogo, no fim, é uma decepção, quando não uma indignação.
E, se vista essa convocação sob o prisma do pragmático de plantão, teremos dois volantes de ofício (Hernanes e Felipe Melo), que podem jogar juntos, numa circunstância especial, e até mais dois: Cleiton Xavier e Ganso, não nos esquecendo de que a Copa se resume a sete jogos apenas, como diria Noel, mais notas não posso inventar no samba popular. Não há, pois, o que temer, defensivamente, mas muito a louvar, ofensivamente.
Como escalaria o time titular? Em princípio: Júlio César; Maicon, Lúcio, Juan e André Santos; Hernanes, Kaká e Cleiton Xavier; Robinho, Luís Fabiano e Ronaldinho. No jogo seguinte, Rogério ou Marcos; Daniel Alves, Luisão, Thiago Silva e Gilberto; Felipe Mello, Neymar e Ganso; Pato, Adriano e Nilmar.
Depois, misturaria tudo, e sairia daí um gênio da lâmpada, não tenho a menor dúvida.
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Autor: Alberto Helena jr. Tags: Copa do Mundo, Seleção Brasileira