iG
iBest BrTurbo

Publicidade

Publicidade

23/03/2009 - 16:06

OS MONSTROS E A SELEÇÃO

Sou de um tempo em que a Seleção Brasileira não ganhava nada – era um Sul-Americano aqui; outro ali, em meio século de futebol implantado em terras tapuias – se tanto. De resto, éramos fregueses contumazes de argentinos e uruguaios e carregávamos na alma o peso sombrio do Maracanazo, em 50.

E mesmo assim, o país se enrolava na bandeira da CBD (antiga CBF) a cada convocação do time nacional. E aguardava tenso pelo jogo que se aproximava, fosse um mero amistoso, fosse jogo de torneios continentais, fosse jogo de Copa do Mundo.

Vale observar que não era simplesmente por puro fanatismo nacionalista, essas fascistóides exibições de pretensas superioridades, não. Era, sobretudo, pelo prazer de ver reunidos num mesmo time os craques maiores que se espalhavam pelos clubes brasileiros, apesar de todas as desavenças geradas pelo regionalismo, o Rio-São Paulo eterno que dividia a opinião pública quanto à escolha desses jogadores. 

Hoje, às vésperas de duas partidas importantíssimas, pelas Eliminatórias da Copa, há uma forte corrente contrária à Seleção, passando de boa parte da mídia para o torcedor – e vice-versa -, que despreza nosso time porque a elite dos jogadores brasileiros está além de nossas fronteiras.

Dizem que, ao cruzar o grande mar, o sujeito perde a alma verde-amarela, sugada, provavelmente, por um daqueles mitológicos monstros marinhos que tanto atrasaram a chegada de Colombo ao Novo Mundo. É mesmo?

Então, podemos dizer que Ronaldo Fenômeno e Rivaldo devem ser elevados à categoria de heróis míticos, verdadeiros Ulisses do século 21, pois fizeram a fatídica travessia e mesmo assim nos deram um título mundial, o quinto de nossa história, em terras do Japão.

Há os que sugerem, como receita para combater o mal da desalma dos nossos craques exportados, que a Seleção só abrigue, doravante, os que aqui estão. Haja seleções… Sim, porque basta o jogador ser chamado hoje para a Seleção que, no dia seguinte, já estará arrumando suas malas, espiando o outro lado do mar grande. Mesmo porque as sereias cantam sua sedução é aqui mesmo, em terra firme, emitindo sons muito semelhantes ao do tilintar de moedas.

Claro que a Seleção Brasileira não tem sido, nos últimos tempos, um exemplo de brio e técnica, embora levante mais Copas Américas do que no passado distante, e vença mais do que perde, nos últimos cinquenta anos de sua história. Claro que o negócio futebol, em que o jogador é a grande moeda de troca, ganhou vulto inconcebível nesta era, o que semeia dúvidas no coração e nas mentes do torcedor e de boa parte da mídia quanto aos reais motivos de possíveis deserções e maus desempenhos dos mais célebres dentre os convocados.

Toda dúvida, aliás, é sempre bem-vinda, no futebol ou na vida. Mas, quando se transforma em verdade absoluta, clichê, lugar-comum para explicar o inexplicável, vira fanatismo, o pior de todos os males de que sofre a raça humana. E a Internet, esse maravilhoso instrumento de comunicação entre as pessoas de todos os recantos do mundo, tem contribuido muito para disseminar essas dúvidas, obras sinistras dos monstros virtuais que substituem aqueles dos mares antigos.

De repente, um anônimo qualquer inventa uma conspiração aqui, uma desventura ali, e, pronto!, a patuléia engole e passa a expelir essa excrescência como a mais pura das verdades.

E o pior é que até mesmo prestigiosos membros da crônica esportiva embarcam nessa onda e são devorados por esses mesmos monstros.

A moda, agora, é dizer-se que Kaká é mais um desses zumbis sem alma, que vagam por entre o luxo e a riqueza, sem destino. Ou melhor: que se negam a cumprir seu destino patriótico, recusando-se a servir à Seleção.

Ora, o rapaz, que recusou outro dia proposta mirabolante do futebol inglês só para ficar no Milan, há um bom tempo não joga pelo seu clube, vítima de séria lesão. Voltou, semana passada, jogou vinte minutos e saiu mancando de campo, no exato momento em que o Milan precisa desesperadamente de seus préstimos.

O craque está machucado, gente! Por que é tão impossível acreditar nesse simples e trivial fato do futebol, inventando suposto desinteresse de Kaká em jogar pela Seleção Brasileira?

E veja o amigo que Kaká nem pediu dispensa, apenas tempo para ver se consegue se recuperar até os jogos pelas Eliminatórias. Por conta de tamanha pressão, nunca saberemos ao certo, caso Kaká jogue, se o estará fazendo no sacrifício ou numa boa.

Mesmo porque, se ele disser que foi no sacrifício, responderão que não passa de um fingido, que apenas está valorizando sua volta e desculpando-se de eventual mau desempenho. Se disser que havia se recuperado plenamente, a turma, então, plantará nos lábios aquele sorriso cínico e sentenciará: “Estão vendo? Não tinha nada, apenas queria tirar o corpo fora da Seleção”.

Pois é, e os monstros estão bem mansos e solidários lá no fundo do oceano primevo, onde o ser humano começou sua própria gestação. 

Autor: Alberto Helena jr. - Categoria(s): Seleção Brasileira Tags: , , , , ,
Voltar ao topo