TIMÃO POSSÍVEL
Não, não foi uma exibição de gala do Timão, longe disso. Foi apenas um desempenho acima do sofrível, capaz de levar o time a uma vitória necessária sobre o Cerro Porteño, no Pacaembu, por 2 a 1.
Mesmo porque não é de se esperar do atual Corinthians nada semelhante às perfomances dos tempos do Paulistão e da Copa do Brasil passados. Pois, a formação é outra e seu perfil distinto daquele.
Ganhará muito, sem dúvida, quando (e se) Ronaldo afinar um pouco o talhe e, consequentemente, acelerar seu jogo. Pouca coisa, mas o suficiente para integrar com maior fluência e constância o jogo coletivo do resto dos companheiros.
Fez o gol de abertura, é verdade, colhendo o fruto da boa jogada de Moacir pela direita, e só. O que, no jogo dos resultados não é pouco, diga-se.
Depois, Chicão, de falta, completou o placar alvinegro, e o Timão teve de se virar para evitar o empate no finzinho, em seguida ao tento de Julio dos Santos, quando tomou uma pressão descabida em partida que teve a seus pés durante toda a segunda etapa.
Recuo à frente
Quando vemos o técnico Dorival Júnior, à beira do campo, trocando beques e volantes por meias e atacantes, já com o Santos vencendo por quatro, cinco, a zero, resta-nos a impressão de que se trata de um insaciável, cruel algoz que só se compraz com a goleada sem limites.
Pois o nosso sóbrio e grave Dorival Júnior, outro dia, explicou que não é nada disso. Jogo definido no placar, ele se utiliza desse truque para obrigar seus meias – Ganso, Marquinhos etc. – a afiar sua participação mais efetiva na marcação.
E o que pode parecer à primeira vista um recuo tático, na verdade é um avanço. Com meias de habilidade e senso mais ligados na marcação, o time sempre será mais ofensivo quando tiver a bola a seus pés. Esse é o objetivo final, portanto, o mais louvável.
Há tempos, meu chapinha e parceiro de colunas no Diário de S. Paulo, Cleber Machado, além de narrador oficial da Globo, costuma lembrar a respeito observação feita por mim anos atrás: é mais fácil fazer Djalminha marcar do que Galeano a armar.
Resumindo: destruir é mais fácil do que construir como a vida nos ensina em qualquer atividade humana. Logo, para um craque de habilidade e estilo, cidadão que sabe controlar a pelota, o caprichoso objeto do jogo, tirá-la do adversário (ou, pelo menos, fechar seus espaços) é coisa de se tirar de letra.
Agora, o volantão duro de cintura e de gaguejante colóquio com a bola, criar, armar jogadas para os companheiros, ah, isso é tortura chinesa!
Sou de um tempo em que havia apenas um volante, dois meias e três atacantes. Exatamente como jogam há algum tempo os maiores times do mundo, hoje em dia, com pequenas variações: Barcelona, Arsenal, Manchester United, Bayern de Munique, para citar quatro dos favoritos ao título europeu.
Times que, nesse formato, vêm ganhando o diabo a quatro, embora possam perder a Liga dos Campeões, que isso é do jogo.
E por quê? Porque seus treinadores vêm treinando seus meias a marcar ou fechar espaços como o faziam no passado Didi e Zizinho. Gérson e Ademir da Guia, para ficar com uma quadra de ases do setor, por exemplo, por aqui.
Do mesmo jeitinho que Dorival Júnior pretende fazer com seus Gansos e Marquinhos.
E esse é o maior avanço que o futebol brasileiro poderia dar nos últimos anos. Que os deuses dos estádios o protejam.
Notas relacionadas:
Autor: Alberto Helena jr. Tags: Cerro Porteño, Chicão, Corinthians, Djalminha, Dorival Júnior, Galeano, Ganso, Julio dos Santos, Libertadores, Marquinhos, Moacir, Ronaldo