JÁ SAÍA QUANDO CHEGOU
A bem da verdade, quem acompanha os passos do futebol sabe que Celso Roth já estava demitido quando foi contratado. Era só uma questão de tempo, não de resultados, que, nesse quesito, Roth cumpriu sua parte, apesar do vexame no Mundial de Clubes.
Depois de tantas reviravoltas na vida de Celso Roth, já me convenci que seu problema pouco tem a ver com a maneira como exerce seu ofício e muito mais com um traço básico de sua personalidade: a falta de carisma, atributo essencial para qualquer líder.
No futebol, o grande líder é sempre o treinador, aquele que, além de armar, treinar e escalar o time, infunde confiança não apenas no grupo de jogadores, mas, também,na torcida.
Roth é tão bom treinador de futebol quanto tantos outros que por aí estão, melhor até que muitos afamados. Mas, não dá liga com a torcida. Não só a torcida colorada, mas as de todos os times que dirige.
Seu jeitão de ser e de falar em público, a cada injustiça de que é vítima, se adensa ainda mais, o que piora progressivamente essa sutil relação com a mídia e a opinião pública.
Que fazer?
Quanto a Roth não sei. É seguir adiante, até que um estrondoso sucesso mude o curso de sua carreira.
Quanto ao Inter, deu um salto no escuro, na esperança de que seja amparado por Falcão, maior ídolo de sua história e que há alguns anos atua como comentarista da Globo.
Falcão, o mais completo volante da história do futebol brasileiro, tinha tudo para se transformar num treinador especial, capaz de sair da mesmice que tomou conta dos nossos campos a partir dos anos 90, sobretudo.
Mas, sei lá por que cargas d’água, não vingou, nem na Seleção Brasileira, onde iniciou a renovação que culminaria no time campeão de 94 com Parreira, nem no próprio Inter, em 93.
Virou o comentarista principal da mais poderosa emissora de tv do país, e parecia destinado a ficar nessa pelo resto da vida. Sucede que Falcão, um vencedor por natureza, até hoje não engoliu a breve experiência sem êxito como técnico.
Vejamos no que vai dar isso tudo. Só adianto uma coisa: torço muito para que saia o acerto entre Inter e Falcão, e que, nessa função renovada, o Bola-Bola marque sua trajetória futura com a classe e o sucesso que obteve como craque.
BUROCRACIA À INGLESA
Vivo exaltando o show de bola, cores e emoção em que se transformou o Campeonato Inglês nos últimos anos. Mas, confesso: este foi um sábado decepcionante.
Tanto o líder Manchester United quanto milionário Chelsea jogaram um futebol burocrático, no limite mínimo necessário para assegurar vitórias sobre Fulham e Wigan, por 2 a 0 e 1 a 0, respectivamente.
O Chelsea com força total, apesar de dominar o jogo, ainda criou algumas chances, além do gol de Malouda, mas não encantou. E os Diabos Vermelhos, desfigurados por várias alterações, fez 2 a 0, com Berbatov e Valencia para cair na vala comum o resto da partida.
A diferença entre esses dois grandes do Reino Unido é que, enquanto o Chelsea luta por uma vaga na Liga dos Campeões, o Manchester se mantém como uma rocha inexpugnável na liderança que, ao cabo, poderá transformá-lo no maior vencedor do campeonato da ilha de todos os tempos, superando o Liverpool, com dezenove títulos.
REALINHO
Conheci Realinho lá pelos finais dos anos 50, durante uma greve dos estudantes secundários. Ele, filho do socialista Elpídio Reali, ex-delegado de polícia e político de integridade e coerência já então raras, era dirigente da UPES, União Paulista dos Estudantes Secundários. E parecia que o palanque seria seu destino.
Eis, porém, que Realinho reaparece na telinha como um dos primeiros repórteres de campo da tv brasileira. Esperto, boa pinta, simpático feito o demo, tricolor de fé, marcou sua passagem pelos campos de futebol com o 7 da Record às costas, antes de saltar para a reportagem política.
Durante anos, cruzamos pelas redações e botequins da vida, até que a sombra da ditadura militar passou a acompanhar seus passos. Antes que o alcançasse, Realinho, já casado e pai, juntou a trouxa, a família e se mandou para Paris.
Lembro que, no dia de sua partida, cruzei com Realinho na Praça D. José Gaspar, quando lhe dei carona até a casa de seu sogro, no Morumbi. À noite, o Canarinho voou para longe das trevas que se abateram sobre nós por mais uma década.
Em Paris, Realinho comeu o pão que o diabo amassou até se estabelecer como correspondente da Jovem Pan e do Estadão, transformando sua casa no verdadeiro consulado brasileiro em terras de França.
Amante dos bons vinhos e da mais refinada culinária, sempre que aportávamos em Paris, ele nos conduzia pelos descaminhos do pecado da gula. Papo inteligente, rápido, riso generoso, testemunha divertida e perspicaz de seu tempo, um jantar com Realinho valia a viagem.
Foi-se o nosso Canarinho neste sábado, depois de longa enfermidade, aos 71 anos de idade.
Até logo mais, companheiro, que precisamos botar esse papo em dia.
A SOMBRA DE MESSI
O jogo já estava no ralo. Três minutos de acréscimo, com o Barça, de virada, vencendo o Almeria por 2 a 1, quando uma bola despachada lá de trás, pingou na frente do beque Marcelo Silva, de frente para seu gol. Ah, mas pra que o beque, na corrida, deu aquela espiada sobre o ombro direito?
E o que ele viu? Viu Messi chegando na corrida. Pronto! Bateu o desespero, e a bola, caprichosa, toca o chão e alça-se o suficiente para escapar ao domínio do zagueiro já em pânico. Mas, não de Messi, que a controla com aquela esquerdinha mágica, e, na saída do goleiro Diego Alves, toca pras redes, com a frieza de um relojoeiro suíço dando o seu último retoque numa obra-prima da marcação do tempo.
Fosse qualquer outro adversário, certamente o beque teria controlado o lance, sem maiores dificuldades. Era Messi, porém, E é aí que a sombra do craque se avoluma o suficiente para assustar qualquer mortal.
Outra coisa que encanta nesse garoto: sua disposição de jogar, em qualquer lugar, a qualquer hora, contra quem for, com o mesmo empenho, do início ao fim, e com aquela alegria de menino discreto, embora cheio de firulas no trato com a bola, com que contagia a torcida, não importa de que camisa.
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Autor: Alberto Helena jr. Tags: Campeonato Inglês, celso Roth, Falcão, INTER, Messi
