O Santos, que sábado ganhou do São Paulo e foi às finais do Paulistão, viajou dezesseis horas para chegar a Querétaro, distante mais de duzentos quilômetros da Cidade do México, não sem antes levar um susto danado: o avião, ao tentar descer na capital mexicana, por causa de forte chuva, teve de arremeter e fazer uma parada técnica em Acapulco.
Somem-se a esses contratempos a ausência de Elano e o placar apertado do jogo na Vila (1 a 0) e já podemos dimensionar de antemão o tamanho da encrenca. Aliás, a lesão muscular de Elano já era mais ou menos esperada, assim como possíveis outras baixas provocadas pelo estresse a que está submetido o Peixe neste período em que luta pelo Paulistão e pela sequência na libertadores.
Por tudo isso, valendo-se do empate por qualquer placar, não me causaria nenhuma surpresa se Muricy entrasse em campo com seus já tradicionais três zagueiros. E, mais: não o recriminaria por isso, apesar da minha aversão por esse sistema, na esperança de que seja apenas uma alternativa diante das circunstâncias.
O CLÁSSICO DOS CLÁSSICOS
Em cena, nesta terça-feira, mais um Real-Barça, o terceiro da série de quatro dos clássicos dos clássicos, porque a rivalidade, como todos sabemos, não se restringe ao campo do jogo. Mas, este é o que vale ouro: a vaga para as finais da Liga dos Campeões, o maior torneio do mundo.

José Mourinho, técnico do Real Madrid e um dos maiores personagens do clássico espanhol (EFE)
Se o Barça, que no Santiago Bernabeu meteu 2 a 0 no Real, simplesmente empatar ou perder por 1 a 0, estará lá. Fosse o Barça de Guardiola o Real de Mourinho dos jogos recentes, poderíamos imaginá-lo retrancado, cheio de volantes e zagueiros, pra cumprir o regulamento.
Mas, não é. O Barça segue à risca o dístico dos dois grandes de Espanha: “No hay que ganar, hay que desfrutar”, Ou seja: o importante não é ganhar, mas desfrutar de um belo futebol.
E o Barça, nas últimas temporadas, tem ganhado quase tudo produzindo belos espetáculos. Nem sabe fazer diferente, se quisesse. Pior: não tem, em seu elenco prodigioso, jogadores de defesa (volantes ou zagueiros) capazes de montar uma retranca feroz. Perdeu o francês Abidal, em fase esplêndida, numa maca de cirurgia, e seus dois laterais esquerdos, os brasileiros Maxwell e Adriano, machucados, o que obrigou o central Puyol a deixar a cama da enfermaria para quebrar um galho por ali.
Tanto, que o volante Mascherano tem se revezado na quara-zaga com outro volante, Busquets.
De seu lado, o Real, que tem um precioso elenco, nos últimos confrontos com o Barça, tem preferido jogar como um rato diante de um leão, no dizer de Di Stefano, o maior ícone da história merengue.
Bem, de qualquer jeito, Mourinho terá de mudar o braço da viola, pois o zagueiro Pepe, travestido de volante, não poderá jogar, expulso que foi no jogo anterior.
E, se resolver bater ficha, escalando um time compatível com a qualidade de seu elenco, bem que pode tirar a diferença, em pleno Camp Nou. Ou levar outra goleada de cinco, como no primeiro turno do Espanhol. Mas, no mínimo, não será execrado pelo torcida merengue.
JUIZADA
Paulo César Oliveira, o juiz que apitou o clássico entre Palmeiras e Corinthians, até prova em contrário, é um sujeito honestíssimo. Pode ser vítima das fraquezas humanas, como qualquer um de nós. Erro de avaliação, sopro de alguma paixão reprimida, enfim, toda a gama de sentimentos humanos.
A questão não é essa. Mesmo porque sua atuação no jogo foi impecável, com exceção daquela expulsão de Danilo, que achei excessiva, mas que se respalda na lei: carrinho, por frente, ou por trás, com força desproporcional, vermelho! Assim como cartão vermelho mereceria ser dado, no caso, para Liedson, que entrou com o pé por cima, certamente num gesto de defesa, mas, igualmente reprovável.
Contudo, o que quero dissertar é sobre a questão que vira-e-mexe, nessas ocasiões voltam à tona; a profissionalização dos árbitros.
Há muito tempo defendo isso. Mas, sempre que o faço, lembro o saudoso Álvaro Paes Leme, jornalistas e professor da Escola de Árbitros da FPF.
Quando colocado diante dessa questão, Paes Leme, com sua voz tonitruante, rebatia que, para garantia da honestidade da arbitragem, sempre seria melhor o juiz ter uma atividade básica, que lhe permitisse resistir às tentações do momento. E citava, como exemplo, Arnaldo César Coelho, bem sucedido profissional na área do mercado financeiro.
Um cara como esse estaria mais blindado a quaisquer ofertas eventuais deste u daquele clube.
É a tese, por exemplo, que prevalece na Fifa, contra a profissionalização dos juízes de futebol.
E, cá entre nós, não é sem fundamento. A tese da profissionalização dos árbitros, baseia-se no fato de que o preparo físico dos jogadores atingiu níveis tão prodigiosos que exigiria dos árbitros algo próximo, só atingível se ele dedicasse sua vida a esse ofício.
O princípio tem sentido. Mas, comparar um juiz a um jogador começa a me parecer inadequado. O jogador, em dez, quinze anos, de carreira tem uma infinidade de oportunidades para fazer seu pé de meia, Aqui e no exterior. E o juiz?
Imagine que um jovem tenha vocação e habilidade para ser juiz de futebol. E que ele consiga um espaço nobre aos 20/25 anos de idade. Terá, no máximo, mais vinte anos de carreira, antes de ser jubilado. Digamos que cinco desses profissionais tenham condições, por suas excelências técnicas e retidão de caráter, de acumular uma fortuna suficiente para uma aposentadoria decente, aos quarenta e poucos anos de idade.
E os demais? Aqueles tantos que atuam por esse Brasil afora?
Se não têm um ofício normal, que lhes dê a devida segurança no futuro, por certo, serão presas fáceis do suborno.
Jogador de futebol pode ir pra cá, pra lá, no Brasil, no Exterior, e fazer seu pé de meia. Juiz, não. No máximo pode rodar de um estado a outro, nem sempre por salários milionários.
Vale refletir a respeito.