FUTEBOL DOGMÁTICO
O futebol, como a vida que ele representa nas quatro linhas do gramado, é cheio de dogmas, clichês e preconceitos.
Um deles, que ata o futebol brasileiro há pelo menos duas décadas, é a dos dois volantes de ofício, quando não três ou quatro, de acordo com a visão do professor de plantão e as circunstâncias do seu time na competição.
E não adianta você antepor a esse conceito (ou melhor: preconceito) outro, mais arejado e moderno (ou eterno). O bicho não quer saber. Olha você com aquele ar de quem sabe das coisas diante de um neófito, um romântico, um poeta que nunca jogou bola e desconhece os mais fundos mistérios do futebol.
Se você citar como exemplo o Barça, que joga com apenas um volante ou até nenhum, o professor afivela no nariz o virtual pincenez da sabedoria sobre os mais ocultos segredos da bola, e rebate de pronto: “Ah, mas o Barça não vale. É uma exceção, pela sua estrutura e tal e cousa e lousa e maripousa”.
Tá bom, e o Santos do primeiro semestre do ano passado, que ganhou tudo, encheu de gols o adversário e deu o maior espetáculo que o brasileiro pôde ver ao vivo nas últimas décadas?
Ah, mas aquilo também foi uma exceção. Claro que foi uma exceção, pois se a regra é ditada pelos professores apavorados para manter o seu plantão nas equipes que dirigem, só haverá exceções em contrário.
E, por que eles não transformam a exceção em regra, quando elas passaram por essa transformação nos principais clubes da Europa?
Porque morrem de medo de perder e ser dispensados dos times que dirigem, numa organização volátil e imediatista como a que conduz o futebol brasileiro.
E, sobretudo, porque cultivam ignorância palmar sobre a história do futebol, de ontem e de hoje.
Luxemburgo, por quem nutro especial carinho e admiração como treinador de futebol, ainda outro dia, no Bem, Amigos, disparou o seguinte lugar-comum: aqui, de repente, você pega pela frente um cabrochinho lá de um time inexpressivo do mato brasileiro que, com sua habilidade típica, desmonta seu esquema; na Europa, não.
Ora, ora, isso era no tempo em que se amarrava cachorro com lingüiça, como já disse certa vez, no sentido contrário, Felipão. Hoje, a Europa é um mosaico de jogadores de todas as etnias, estilos, técnicas e habilidadess. Lá convivem negros, mulatos, asiáticos, sul-americanos, africanos arábicos e da Mãe Negra, eslavos, balcânicos, o que o amigo possa imaginar.
Há jogadores automatizados como há jogadores de extrema habilidade e inventiva, muito mais do que aqui, onde nossos técnicos optam por uma só maneira de jogar e amputam, em geral, a habilidade e a criatividade em nome da segurança.
Aliás, esse cabrochinho cheio de manhas e dengos já está por lá desde menino, há muito tempo.
Outra, do meu querido Luxa, que, digo de passagem, tem sido o mais ofensivo dos nossos treinadores, falando sobre a Seleção: “Não temos laterais, laterais, daqueles que sabem marcar primeiro e apoiar depois, que façam a cobertura por dentro, quando necessário…”
Está certo o Luxa quando se refere aos laterais daqui, criados como alas, pela imposição do maldito sistema com três zagueiros que começa a ser abandonado, graças a Deus!
Mas, os da Seleção, meu? Daniel Alves joga naquele Barça sem peias ou teias. E já cansou de ser eleito o melhor da posição na Europa. Marcelo, agora reconvocado por Mano, idem com batatas do outro lado, no Real.
E até o nosso André Santos, massacrado pela imprensa por causa de uma lambança contra a Alemanha, acaba de ser contratado pelo Arsenal.
Resumindo: a tese dos professores é a de que não podemos arriscar um milímetro do convencionado porque não há tempo para preparar adequadamente uma equipe para tão fundamental mudança.
Mas, a verdade é que, apesar do péssimo calendário brasileiro, que escamoteia dos técnicos o tempo necessário para a preparação de seus times, o que falta mesmo é coragem para mudar esse cenário tático. Avançar a linha defensiva, compactando-a com um meio de campo onde prevaleçam os meias habilidosos, que, por sua vez, atuem próximos dos atacantes não é nenhum cavalo de batalha. Exige apenas bom senso e um pouco de coragem.
Mesmo porque nossos professores, que tanto preservam seus empregos, vivem saltando daqui pra lá, sob o signo da incompetência sempre temporária. Ser demitido por covardia, em vez de ousadia, convenhamos, é muito mais vergonhoso.
Notas relacionadas:
Autor: Alberto Helena jr. Tags: Barcelona, dogma, Santos, Volantes


