O DIVINO E O GANSO
Disse o poeta que tinha o fogo em suas mãos. Imagino que Garcia Lorca, se escapasse dos assassinos de Franco, trinta anos depois, ao vê-lo em campo, diria que Ademir da Guia tinha o ar, a água e a terra a seus pés.
Seu futebol era líquido, fluente, que escorria como um regato cristalino, não confrontando mas desviando-se dos obstáculos, sinuoso, ininterrupto, sempre renovado no seu repetido e manso fluxo.
Era ar, porque etéreo, como se não tocasse o chão nas suas passadas largas e lânguidas, ereto, cabeça erguida, como quem apenas vislumbra o horizonte, nada mais, esquadrinhando a terra sobre a qual tinha domínio absoluto: onde estivesse, por ele, a bola teria de passar inevitavelmente.
Resumindo, o Divino passava a sensação de controlar como nenhum outro o espaço e o tempo. Falso lento, submetia o jogo ao seu ritmo, à sua intuição, ao seu poder feito de silêncio e magia.
Falo de Ademir da Guia, o Divino, apelido herdado de seu legendário pai, Domingos, para falar de Ganso, pois este é o mês que abre o ano e a perspectiva de termos o craque peixeiro de volta aos campos. Entre outras coisas, porque um lembra o outro.
Ademir era destro, Ganso é canhoto. Mas, ambos guardam entre si a mesma postura. Esguios, cerebrais, falsos lentos, donos de um senso de organização raríssimo e de uma elegância no trato com a bola sem par.
Ganso, ao contrário de Ademir, que praticamente nunca teve sequer uma distensão muscular em seus quase vinte anos de carreira, muito jovem ainda já foi vítima de sérias lesões. Eis por que me agonia a espera de sua volta. Mas, ao contrário de Ademir, Ganso me parece um sujeito mais determinado, mais centrado no seu destino, o que lhe pode conferir uma força extra para recuperar o tempo perdido.
Rezo por isso, mesmo sendo ateu.
Até o minuto final
Uma das tantas coisas que me encantam no Campeonato Inglês é que, lá, prevalece sempre a lei do saudoso Chacrinha: o jogo só acaba quando termina.
Pegue o amigo como exemplo esse empate por 3 a 3 do Chelsea com o Aston Villa. No primeiro tempo, 1 a 1, gols de pênaltis para cada lado. No segundo, logo aos 2 minutos, o Aston passa à frente, arrecua os arfos como recomendava o folclórico técnico caipira, e passa a sofrer um sufoco que só poderia resultar na virada por 3 a 2, já nos acréscimos. Pois não é que Clark, de cabeça, empata de novo a partida, o que coloca a cabeça do técnico italiano do Chelsea, Carlo Ancelotti, no cadafalso?
O fato é que este campeonato começa a tomar contornos inesperados: ou os grandes já não são tão grandes, ou os pequenos deram um salto de qualidade que transformou a disputa mais acirrada do que de hábito.
Sim, claro, Manchester United, que bateu o West Bromwich, na casa do inimigo por 2 a 1, a duras penas, segue líder. O Arsenal meteu 3 a 0, com certa folga, no Birmingham, e o Manchester City, que começa a ganhar um espaço, finalmente, entre os grandes, ficando em terceiro e segundo lugares, respectivamente.
Isso sem falar nas surpresas das rodadas anteriores, acumuladas pelas neves implacáveis da véspera do Natal.
Pelo visto, será um ano realmente novo para inglês ver.
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Autor: Alberto Helena jr. Tags: Ademir da Guia, Aston Villa, Campeonato Inglês, Chelsea, Ganso, Garcia Lorca, Inglaterra, Palmeiras, Santos