Levou aquele tempinho habitual – uns dez, doze minutos – para o Barça azeitar a máquina de tic-tac, o motocontínuo tão buscado como a pedra filosofal. A partir daí, foi o de sempre. Com uma ressalva: embora por quatro ou cinco vezes o Barça conseguisse vazar a retranca do Milan, não meteu a bichinha lá dentro, mais por erros de finalização do que por intervenções mágicas do goleiro.
Sim, claro, o Milan também teve aos pés de Robinho e de Ibra, no primeiro tempo, as chances de abrir o placar, em vão. Robinho deu um chutão por cima, e Ibra tocou nas mãos de Valdés.
Enfim, nem Ibra, nem Messi, nem Robinho, que saiu machucado logo no início da etapa final, pois o nome desta rodada das quartas de final da Liga dos Campeões acabou mesmo sendo o holandês Robben, figura central na vitória por 2 a 0 do Bayern sobre o Olimpique, em Marselha; fez um golaço, em tabela com Muller, e deu o passe para o Super Mário abrir a contagem.
Joga muito o carequinha, quando consegue entrar em campo, diga-se.
MAIS UMA LUZ QUE SE APAGA
Apagou-se outra das poucas luzes que ainda tentam espantar as trevas deste mundão chamado Brasil.
Millôr Fernandes era, digamos, um Molière caboclo dos nossos tempos, que vergastou durante mais de meio século, com seu humor tão fino como perfurante, todas as autoridades e instituições que passaram diante de seu olhar arguto pousado sobre o cotidiano do brasileiro.
Tendo o desenho por base, Millôr pintou e bordou em várias áreas da inteligência humana, desde a dramaturgia à música (pouca gente lembra que foi autor de O Homem, inscrita num dos festivais da TV Record). Escreveu livros, traduziu Shakespeare, Sófocles, Bernard Shaw, Molière, produziu peças teatrais de grande repercussão em sua época, como Liberdade, Liberdade, em plena ditadura. Mas, foi, sobretudo jornalista, que, com suas colunas desde o saudoso Pif-Paf de O Cruzeiro, encantou, divertiu e fez pensar três gerações de brasileiros.
Não sei de outro dessa dimensão.
TRÁGICA IRONIA
Trágica ironia essa, a de o palco de tamanha selvageria entre gangues do futebol levar o nome do meu saudoso amigo, o repórter policial Inajar de Souza, que tanto lutou em sua breve vida contra a violência ou a inação da polícia no combate à criminalidade.
Sujeito simples, atilado repórter, boa gente, sempre bem humorado, destemido, prestativo, Inajar nos deixou ainda muito jovem nos tempos áureos do Jornal da Tarde. Onde estiver agora, por certo, perdeu de vez o humor.
TIMÃO, VERDÃO E WESLEY
Corinthians e Palmeiras voltam a campo nesta quarta-feira, ainda sob os ecos do clássico de domingo.
O Corinthians, embalado pela vitória sobre o rival, de virada, e sempre de olho na Libertadores, recebe no Pacaembu o XV de Piracicaba, que vem mal das pernas nesse seu retorno à divisão de elite do futebol paulista.
E o recebe com o time bem alterado, pelo habitual revezamento promovido por Tite. Estréia o goleiro Cássio, ex-PSV da Holanda, volta Alessandro à lateral-direita, Douglas começa jogando no meio de campo, e, a dupla de ataque será formada por Emerson e Elton. É de se ver.
Já o Palmeiras vai a Jundiaí, pegar o Paulista, que ainda briga por uma vaga entre os oito finalistas do certame, com as dores da derrota recente amenizadas pelas esperanças no seu novo contratado: Wesley, já habilitado a jogar inclusive essa partida.
E Wesley, embora não seja um cartaz luzente, tem tudo pra ser a pedra de toque que está faltando para o Verdão dar aquele salto de qualidade definitivo.
Versátil, pois tanto pode jogar com igual desenvoltura como segundo volante, como meia e até na lateral-direita, Wesley é um jogador taticamente obediente que, no entanto, tem bola e personalidade para criar seus próprios solos.
Claro que não será assim de estalo, já que há um tempo certo de readaptação ao nosso futebol e de harmonia com seus novos companheiros, no ritmo ainda quebrado pela longa ausência dos campos.
É esperar pra ver.
FECHANDO E PRENDENDO
Depois da porta arrombada, a polícia sai à cata dos malfeitores, fecha as sedes das tais torcidas organizadas, prende este, prende aquele, enquanto o presidente da FPF proíbe a entrada da Gaviões e da Mancha nos estádios e o governador faz um discurso metodicamente exaltado, condenando a barbárie desses sádicos assassinos.
Ôba! Então, a turma resolveu se coçar, afinal!
Calma, minha gente, muita calma nessa hora, pois estou nessa estrada tempo o suficiente para celebrar qualquer coisa só depois do fato consumado. No caso, só depois que os criminosos da vez forem julgados e condenados a penas compatíveis com o horror de seus atos.
Quer dizer: sei lá quando. E, pior, se.
ADRIANO NO NINHO
Faz bem o Flamengo em manter um pé atrás nessa história da volta do Imperador Adriano ao velho ninho.
Apesar de todas as suas comoventes declarações de amor ao clube onde nasceu, Adriano só passará a receber seus soldos depois da plena recuperação de nova cirurgia a que terá de ser submetido para corrigir a cicatrização da anterior, fruto de sua falta de responsabilidade durante o processo de recuperação no Corinthians.
VERDADEIRA FINAL
Esse jogo pelas quartas de final da Liga dos Campeões bem que poderia ser a decisão do torneio, pois Milan e Barça têm bola de sobra pra tanto, embora Real e Bayern também.
O Barça tem sido, disparado, o melhor time do mundo nos últimos três anos, e o Milan, a caminho do bi italiano, finalmente, depois de um longo período de estiagem, resgatou parte daquele velho carisma nas mãos de Allegri e nos pés de Ibrahimovic e Robinho, principalmente, já que Boateng, Pato, Cassano, Seedorf, Nesta etc. são um tanto sazonais, seja por lesões recorrentes, seja por questões ainda mais graves.
Mas, se o Milan celebra a volta de Robinho, afastado por contusão, chora a perda de Thiago Silva, esteio da defesa milanista e hoje em dia considerado o melhor zagueiro do mundo, lesionado num jogo pelo campeonato nacional do qual deveria ter sido poupado segundo a mídia esportiva italiana.
Já o Barça encara esse jogo no San Siro como decisivo para seguir adiante na Liga. Pelo menos, é o que diz Guardiola ao Períódico de Catalunya, já cotado até para ser presidente do clube catalão quando completar seu ciclo como treinador de futebol. Dependendo do resultado desse jogo, o da volta poderia acabar sendo irrelevante.
Por isso, não descartemos desde já um empatezinho maneiro como aquele do jogo de ida na primeira fase do torneio.
REAL E CHELSEA
Bem que esta bola de cristal previu que o Real não encontraria moleza em Nicosia; mas, que, fazendo o primeiro, poderia até golear. Não goleou, mas quase. Foi um placar clássico – 3 a 0 -, construído só depois das entradas de Kaká e Marcelo, já pra lá da metade do segundo tempo.
Kaká e Marcelo fizeram uma dobradinha ali pela esquerda, e dessa forma abriram a porteira do APOEL. No primeiro, Marcelo serviu Kaká que cruzou na medida para Benzema finalizar de cabeça. No segundo, Marcelo alcançou a bola na linha de fundo e tocou para Kaká marcar. E Benzema, que havia perdido gol feito no primeiro tempo, fechou o placar, já no finzinho.
Já aquele passarinho na minha janela piou um palpite desafinado, quando sugeriu que o Benfica poderia vencer o outro jogo da Liga desta terça-feira. Deu Chelsea, com gol de Kalou, em passe exato de Fernando Torres, que, aos poucos, vai recuperando sua autoconfiança.
Mas, o Benfica, apesar de não ter jogado lá essas coisas, merecia sorte melhor, sobretudo naquele disparo de Cardozo que David Luiz salvou em cima da risca.
Assim, o caminho para as semifinais está mais suave para o Chelsea. Já o Real só não chegará lá se houver um cataclismo.