AS EXPERIÊNCIAS DE MANO
A informação que nos chega dos EUA é a de que, num treino em campo reduzido, nove contra nove, Mano Menezes escalou o trio Hulk, Pato e Neymar, juntos, com Casemiro fazendo as funções de beque.
Não sei até onde essas experiências serão levadas a efeito no amistoso desta quarta-feira contra os norte-americanos. Mas, ainda é tempo de Mano testar em campo as ideias que porventura rondam sua cabeça.
A aparentemente mais estapafúrdia seria essa de escalar eventualmente Casemiro na zaga. Mas, a sugestão passa a ser mais válida se lembrarmos que Casemiro foi um dos esteios da Seleção Sub-20 campeã do mundo atuando várias vezes na função de líbero, lá atrás. Acrescente-se a isso o fato de que, pelas regras olímpicas, só poderemos inscrever dezoito jogadores para a competição, o que, certamente, obrigará Mano a se precaver em caso de improvisações necessárias nesta ou naquela partida.
Quanto ao trio atacante, não creio que Pato comece jogando no lugar de Damião. Mas, é preciso testá-lo pra valer nesses jogos preparatórios. Assim como Hulk, destaque da vitória sobre a Dinamarca, vai ganhando sua vaga na Seleção. Todavia, não nesta olímpica, a não ser como o terceiro jogador acima da idade permitida pela disputa. Desconfio, contudo, que Mano deverá guardar esse lugar para setores mais vulneráveis do time, como o gol e as laterais.
Mesmo porque, se levado para Londres, Hulk deveria ser titular, o que obstaria a evolução de Lucas, deslocada para a esquerda, contra a Dinamarca, posição em que o craque tricolor revelou-se desconfortável e improdutivo.
Certo mesmo é que Neymar volte ao time, e que Oscar terá a tarefa de lhe meter as bolas exatas no lugar de Ganso, o parceiro de sempre.
Assim como é certo que o Brasil não terá moleza diante dos EUA, time que, historicamente, só foi vencido por nós, bem e com facilidade, na estreia de Mano, Neymar e Ganso, lembram?
Entre outras coisas, porque os americanos vêm de uma vitória expressiva sobre a Escócia, por 5 a 1, com o veterano Donovan, autor de três gols, nos trinques.
Tudo bem: a Escócia, a exemplo da Dinamarca, não é lá essas coisas. Mas, se numa coisa os escoceses são bons, além do uísque e da gaita de fole, é justamente defender-se com unhas e dentes. Procure nos alfarrábios xadrezes que o amigo não encontrará facilmente outra goleada dessas sofrida pela Escócia ao longo de sua história.
OS NOSSOS GRINGOS
Falou-se um bocado da possibilidade de Guardiola assumir a Seleção Brasileira, numa eventual queda de Mano Menezes. E até o próprio técnico catalão, admirador confesso daquele nosso velho estilo de jogar bola tão desprezado por aqui nos últimos anos, sentiu a picada da mosca azul e andou espalhando por aí que, olhe!, é coisa pra se estudar.
O brasileiro em geral, como a maioria dos latinos, se entusiasma na mesma velocidade com que se decepciona, diante da sucessão de resultados. E o êxito de Guardiola no Barça foi fruto, sobretudo, da paciência, do tempo de trabalho em que ele passou burilando os garotos da base e os marmanjos de cima, dentro de um conceito de jogo estabelecido no clube há décadas.
Não sei se atingiria seus objetivos nesse vapt e vupt do nosso futebol, sobretudo na Seleção, que se junta hoje pra jogar amanhã, sob uma rede intrincada de interesses dos clubes, dos jogadores, da CBF, da tv, dos patrocinadores e outros bichos.
Mas, uma coisa é certa. Afora os tantos técnicos argentinos e uruguaios que moldaram taticamente nosso futebol feito basicamente de talentos individuais, nas décadas de 30, 40, 50 e 60, a passagem por aqui de dois húngaros, com a diferença de vinte anos, instilaram conceitos que criaram raízes e deram belos frutos.
O primeiro deles, o austro-húngaro Dori Kruschner, que, na segunda metade dos anos 30, trouxe o WM para o Brasil, em sua breve passagem pelo Flamengo. Até então, jogávamos na clássica formação de 2-3-5. Isto é: dois zagueiros de área – o back, que ficava na sobra, e o stopper, que partia pro combate -, a linha média de três e o ataque de cinco – dois extremas, dois meias e um centroavante.
O WM, criado no final dos anos 20 pelo britânico Herbert Chapman, por conta da mudança da lei do impedimento (antes, eram três, em vez dos dois atuais, entre o atacante e a linha de fundo), estabelecia três zagueiros (dois laterais e um central), dois médios apoiadores, dois meias de ligação e três atacantes (dois pontas e um centroavante).
Flávio Costa, que era auxiliar de Kruschner nessa época, com a saída do gringo, fez uma leve alteração no posicionamento dos médios e meias, chamou isso de Diagonal, e implantou esse sistema, mais tarde na Seleção Brasileira. Todo mundo foi atrás, até o advento do quarto-zagueiro, já pra lá da metade dos anos 50.
Foi mais ou menos na época em que outro húngaro ilustre, Bella Gutman, um dos integrantes da comissão técnica da Seleção Húngara de Puskas, Kocsis e cia., o Barça daqueles tempos, assumiu o São Paulo, campeão paulista de 57.
Gutman, que falava uma estranha mistura de espanhol com italiano, resumiu seu conceito à mais simples onomatopeia: Tá-Tá-Tá. Traduzindo: três passes, chute a gol. Isso era o que faltava ao nosso futebol, tão artístico, tão elaborado na troca de passes, nos dribles, nas invenções de jogadas pessoais – objetividade. Ir logo direto ao assunto, o gol inimigo.
Vicente Feola, à época superintendente do São Paulo e técnico intermitente do clube, entendeu a proposta e aplicou-a com esmero na Seleção que ele mesmo dirigiu na Suécia, culminando com a vinda do nosso primeiro caneco.
Quero dizer o seguinte: não é necessário que Guardiola, por exemplo, assuma a Seleção Brasileira hoje para mudar o curso do nosso futebol. Nestes tempos de globalização, os conceitos voam de lá pra cá, num átimo, e, mais cedo ou mais tarde, começam a germinar, independentemente da presença física de seus autores.
Basta o amigo rever as entrevistas dos nossos principais treinadores, pelo menos, desde o passeio do Barça no Santos, na decisão do Mundial de Clubes. Todos passaram a falar na necessidade de reter a posse de bola por mais tempo, de avançar a linha de marcação, de fazer isso ou aquilo como o Barça.
Ora, nós sabemos que, por uma combinação singular de fatores, o Barça é o que é, e nenhum outro time no mundo será capaz de imitá-lo literalmente.
Nem se trata disso. Trata-se apenas de reavivar o conceito do jogo trabalhado, passando da defesa pelo meio de campo antes de chegar ao gol adversário, em vez da chamada ligação direta, do medo extremo de atacar para não perder a segurança lá atrás, da supremacia da técnica sobre a força bruta, essas coisas elementares que fazem do futebol, ao mesmo tempo, uma competição e uma arte.
Algo que dê prazer de ser visto, com emoção, sim, mas também com a razão.
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Autor: Alberto Helena jr. Tags: Londres 2012, Mano Menezes


