Os dois últimos jogos que vi do Inter, confesso, me deixaram com a pulga atrás da orelha.
A vitória sobre o time reserva do Corinthians, na abertura do Brasileirão, valeu pelo golaço de Nilmar. Mas, o time não desenvolveu aquele jogo agudo e veloz que apresentara ao longo dos primeiros meses deste ano, fosse no Gauchão, fosse na Copa do Brasil.
E o empate por 0 a 0 com o Flamengo, embora possa ser considerado positivo, pois lhe dá a vantagem do mando de campo no jogo decisivo pela Copa do Brasil, foi um achado, já que o Rubro-Negro dominou todas as ações e o espírito do jogo.
Depois da partida, Guiñazu disse que o Colorado precisa aprender a jogar fora de casa. Não sei exatamente qual a proposta tática do Inter. Mas, com três volantes de marcação que sabem também jogar (Sandro, Magrão e Guiñazu), mais um beque de origem na lateral-direita (Bolívar), dois zagueiros firmes e um ataque lépido, hábil e contundente (Nilmar e Taison), armado por um meia de qualidade (D’Alessandro), ese Inter tem tudo pra jogar fora de casa de acordo com a receita mais ortodoxa: fechar-se atrás e sair em rápidos contragolpes.
Minha dúvida é sobre a infalibilidade dessa receita. Vezes sem conta ela desanda mesmo é para a inócua retranca, o que acaba por isolar a armação e o ataque, justamente os dois pontos mais fortes do inter.
Quem sabe um pingo a mais de ousadia não resolva o problema? Por exemplo, aliviar a carga da armação exclusiva de D’Alessandro, colocando ao seu lado, digamos, o ágil Andrezinho, no lugar de um dos três volantes, o que haveria de conferir mais equilíbrio entre os três setores da equipe.
É só uma reflexão, não uma solução exata.
MÉDIOS E MEIAS
Esse tem sido um tema recorrente, neste momento em que o nosso futebol começa a se desatar dos sistemas mais defensivos em busca da modernidade que campeia nos grandes centros da Europa, num movimento de espiral histórica, em que se resgata o antigo e eterno num novo patamar da preparação física.
A história é um tanto comprida. Mas, vou tentar resumir ao máximo. Antes, no sistema clássico – o 2-3-5 -, você tinha dois beques (o stopper, aquele que saía para dar combate, e o back, o que ficava na espera); três médios (dois marcavam os pontas adversários e o centromédio era o eixo da equipe, o que distribuía o jogo para os meias de ligação, cuja função era levar a bola aos três atacantes – dois pontas e um centroavante).
Com o advento do WM, de autoria do inglês Herbert Chapman, no Arsenal da virada dos anos 20 para os 30, fruto da mudança da linha de impedimento, formalizou-se a linha de três zagueiros (dois laterais, marcadores de pontas, e um central), com dois médios apoiadores e dois meias-de-ligação, no meio de campo, formando o tal quadrado mágico. Mágico, porque Chapman, professor de geometria por ofício, previa a transformação desse quadrado em retângulo, triângulo ou losango, dependendo da movimentação dos médios e dos meias.
É o sistema básico que serviu para todas as variações que a ele se seguiriam. A começar pela fixação do quarto-zagueiro (assim chamado porque foi o último zagueiro a ser incorporado aos novos esquemas): um dos dois médios apoiadoresrecuou para a linha de zaga, ao lado do central.
E, por quê? Porque já nos anos 50, houvera uma mudança no posicionamento dos dois meias: um deles, passou a ser o meia-armador, mais recuado; o outro, o meia ponta-de-lança, mais avançado. Para marcar este quarto atacante, um dos médios foi recuado para a zaga, a quarta-zaga.
Bem, a partir daí o médio-apoiador passou a ser chamado de médio-volante, que, no decorrer do tempo, reduziu-se ao termo volante, aquele que vai e vem, vai ao ataque e volta para defender.
Eis que esse cara, já na virada dos anos 60/70, fixa-se como cabeça de área, uma espécie de vigia dos dois zagueiros de área, o que, no processo, transformou um dos meias em volante, hoje chamado de segundo volante. Recuou-se o meia-ponta-de-lança para a armação, e um dos pontas passou a auxiliá-lo nessa tarefa, reduzindo o ataque a dois avantes apenas.
Não satisfeitos, os pragmáticos de plantão transfiguraram o meia-armador em terceiro volante, num caminho tortuoso, sempre pra trás. O jogo enfeiou, fixou-se o conceito do futebol de resultados, essas coisas todas, até que se iniciasse esse movimento de volta, pois o futebol deixara de ser um espetáculo e passara a ser uma competição de força, insossa e desagradável. Na verdade, a velhíssima retranca, ferrolho, cattenacio, recurso usado há séculos pelos times pequenos contra os grandes. Apequenaram-se todos, em suma.
Esse refluir em direção ao ataque (ou melhor, ao equilíbrio na distruição de funções dos jogadores em campo, de acordo com suas características natas), no Brasil, esbarrou na escassez de meias, que outrora era nosso apanágio. Sim, porque esse pessoal foi submetido a um verdadeiro massacre, sobretudo nas categorias de base, em nome do resultado, nos últimos quinze anos, por baixo.
E, também, pela relutância dos treinadores que se formaram nesse período, em apostar em meias de habilidade, já que seu foco era basicamente defensivo.
Luxemburgo foi sempre uma exceção, e por isso soma em sua carreira tantas glórias e conquistas, embora, nesta quadra de sua vida, esteja dando um passo atrás, com a insistência em recorrer ao sistema de três zagueiros, essa sucata que só resiste ainda no Brasil, dentre os grandes centros futebolísticos do mundo.
Assim como foi Parreira, em vários momentos de sua brilhante carreira, e está sendo Mano Menezes no Corinthians atual.
Mas, se faltam meias, os volantes, pelo menos, evoluíram. Estão deixando de ser meros cabeças-de-área para recuperarem a vocação e o talento dos antigos volantes. Sabem sair para o jogo, em apoio ao ataque. Não é pouco, porém, não é tudo. Afinal, uma coisa é saber apoiar; outra, muito diferente, é saber armar.
Aliás, esta é a grande diferença que poucos técnicos, mídia em geral e torcida percebe. Acham que um volante habilidoso pode se transformar em meia, apenas porque joga mais avançado, no espaço destinado ao meia. Um Hernanes, um Magrão, sei lá quantos mais volantes de qualidade, sempre serão volantes, não meias. O contrário, porém, é muito possível; um meia virar volante, como Lorico, Carlos Miguel, em tempos passados, ou um Elias, um Cleiton Xavier, um Diego Souza, nos tempos atuais.
E valho-me sempre do exemplo cássico de Dino Sani, El Pelao, campeão do mundo em 58. Dino jogava na meia-de-armação, do Palmeiras ao São Paulo, passando pelo extinto Comercial da Capital e pelo XV de Jaú, sempre uma promessa que não se realizava. Altamente técnico, passe exato, centro de gravidade invejável – quase nunca era derrubado -, batia na bola como poucos e tinha uma leitura do jogo, como se diz hoje, excepcional. Mas, jogando como meia, não conseguia fazer o jogo fluir.
Quando o húngaro Bella Guttman chegou ao Tricolor, juntamente com Zizinho, o maior de todos os meias-armadores de nossa história, Dino foi recuado para a posição de volante. Pornto, deu-se o sortilégio: de repente, Dino ganhou status de mestre, foi para a Suécia como titular, e, depois, encantou os torcedores do Milan, do Boca e do Corinthians por anos a fio.
- É que eu não tinha cintura e drible para jogar como meia, recebendo a bola de costas para o adversário. – disse-me anos atrás Dino para explicar essa mágica alquimia em seu futebol.
Resumo da ópera: médio é médio, meia é meia, ontem, hoje e amanhã.