O GALO DE OURO 50
Já se passou meio século e a lembrança continua viva na memória. Pelo menos, da turma da minha geração, que viu Eder Jofre em ação desde quando se iniciou na Forja dos Campeões, torneio de boxe promovido pela Gazeta Esportiva.
Eder, pequenino e magrinho, por essa época chegou a abandonar o pugilismo, por não sentir gosto de sangue. Isto é: não sentir prazer em bater com seus punhos em outras pessoas, fossem ou não atletas da modalidade.
Curtia mais desenhar, profissão em que chegou a se iniciar, e bater sua bolinha como ponta-esquerda incisivo do time de várzea do Peruche, onde nasceu e cresceu, ao som dos tamborins da primeira grande (em tamanho) escola de samba de Sampa.
Mas, o boxe estava de tal forma entranhado em seu DNA que era impossível virar as costas para os ringues. Afinal, ele era filho de Kid Jofre, o principal técnico de boxe do Brasil, que o pegou pelo colarinho e senteciou: “Vai lá, salame!”
Argentino de nascimento, Kid provinha de uma família circense de ciganos saídos do ventre do antigo Império Austro-Húngaro, que, depois de algumas gerações na Espanha, desembarcaram em Buenos Aires. Ali, como peso mosca de relativo sucesso, Kid aprendeu o ofício não só de escapar dos punhos adversários como da mão de ferro da repressão aos esquerdistas como ele.
Kid, então, evadiu-se para São Paulo, onde acabou se instalando no prédio Santa Helena, ali na Praça da Sé, onde funcionava um luxuoso cinema na época e os ateliês dos artistas plásticos que compunham o chamado Grupo Santa Helena – Volpi, Clóvis Graciano, Pennachi e companheiros, quase todos de esquerda, quando não comunistas de carteirinha.
Deu-se então a estranha simbiose entre a arte de pintar e a denominada nobre arte, o boxe.
Paralelamente, uma família de calabreses veio para o Brasil, fixou-se no interior paulista antes de se mudar para São Paulo, onde os quatro irmão Zumbano fizeram história muito parecido com o clássico do cinema italiano – Rocco e seus irmãos.
Waldemar era o cérebro, o guia da trupe e guardião das histórias da família; Higino, o estrategista; Tonico, o coice de mula, boêmio e briguento, que protagonizou a mais célebre luta de rua com o então mais afamado bandido da praça – Quinzinho -, e Ralph, o esteta do boxe, que nas Olimpíadas de 48 recebeu o título de Luvas de Ouro, embora não nos trouxesse merecida medalha. Ricardo, que conheci tocando o chaveiro da família no Quadrilátero da Barão, quase esquina com a Sete de Abril, era menino nessa época.
Época em que os Zumbano, todo fim de semana, saíam por esse interiorzão afora, com quatro cordas e um caixote de madeira na bagagem. Onde chegavam, instalavam as cordas nas árvores da praça da matriz, Waldemar subia no caixote e conclamava a cidade a participar da grande noitada de boxe, desafiando quem quisesse duelar com os irmãos.
De quebra, exaltava a luta contra o imperialismo na sua mais perfeita tradução – o capitalismo selvagem, claro -, adornando tudo isso com algumas frases de Marx ou a ele atribuídas.
Waldemar, aliás, por causa disso, era frequentemente recolhido ao xadrez que não distinguia presos políticos dos marginais comuns. Caía a sopa no mel, pois Waldemar aproveitava essas estadas para aliciar seus parceiros de cela tanto para a o Partidão quanto para o boxe.
Enfim, encurtando o papo, num determinado ponto dessa história, Kid Jofre e Angelina Zumbano se conheceram, casaram e deles surgiu o nosso Eder, o Galo de Ouro, título, aliás, da biografia do campeão escrita pelo meu chapinha Orlando Duarte.
Eder, com poucas lutas como profissional, já disputava o título sul-americano com o ladino e esquivo Eernesto Miranda, um argentino de porte longilíneo, rápido, de jogo de pernas vertiginoso, tecnicamente quase perfeito, daqueles lutadores que batem e saem feito um raio.
Foram duas lutas empatadas, uma no Ginásio do Pacaembu, outra no Luna Park de Buenos Aires. A negra, disputada se não me falha a memória já no Ginásio do Ibirapuera, Eder sabia que tinha de vencer ou vencer. Mas, como pegar aquela gazela saltitante, que estava sempre fora do seu alcance?
Eis que, num determinado momento, os dois no centro do tablado, Eder abre a guarda para receber um direto de Miranda, famoso também por não ter pegada forte, no rosto. Eder bambeou e foi retrocedendo ás cordas, como se estivesse grogue com o golpe recebido.
Miranda, ao vê-lo assim, ainda vacilou, desconfiado, antes de dar o bote final. É quando Eder, sempre desperto, desde o soco recebido, desfere uma daquelas esquerdas potentes e manda o gringo à lona, sagrando-se campeão sul-americano da categoria dos galos.
Daí em diante a carreira de Eder decolou, e, depois de bater em sucessão dois filipinos de renome – Leo Espinosa e Danny Kid, este uma das paradas mais duras de sua carreira – acabou encontrando uma brecha para a disputa do título mundial, com o abandono do campeão Joe Becerra, abatido pelo fato de ter matado um adversário em cima do ringue.
Era uma espécie de eliminatória entre Eder e dois mexicanos de estirpe: Joe Medel e Eloy Sanchez, ambas disputadas nos EUA.
Medel foi carne de pescoço. Chegou mesmo a derrubar nosso campeão, antes de ser jogado na lona definitivamente. Com Sanchez, a coisa foi mais maneira. Outro nocaute, o título, conservado por anos, até a dupla perda para o japonês Harada, ou, como se dizia na época, para a balança, pois Eder, que nunca foi de treinar muito, começou a desafiar o próprio peso, o que lhe retirava a energia necessária.
Anos depois, já na década de 70, Eder voltou aos ringues para ganhar o título mundial dos penas, no Ibirapuera, numa tremenda confusão com os empresários que resultou no adeus definitivo do maior campeão de boxe brasileiro, considerado pelos experts americanos como um dos dez melhores lutadores de boxe em toda a história e categorias, além de ter um lugar no Hall da Fama como o maior galo de todos os tempos.
Jofreanas
Se no início de sua carreira, Eder até pensou em abandonar o boxe por não querer machucar um semelhante, em duas ocasiões de sua carreira foi cruel. Na primeira vez diante do colombiano Bernardo Caraballo, que o desacatara e levou imerecidamente a medalha de ouro nas Olimpíadas disputada por Eder.
Quando ambos já profissionais, o confronto se deu aqui. E Eder me confessou, anos atrás, que evitou o nocaute o quanto pôde, para castigar o colombiano o tempo necessário para calar sua boca.
Outro caso foi o do galês John Caldwell, campeão europeu, quando Eder já defendia seu título mundial, no Ibirapuera. O gringo desembarcou em São Paulo cantando de galo, dizendo isso e aquilo, até que cruzou no ringue com Eder. Aí foi um massacre lento, progressivo e dolorido. Eder levou até onde pôde o nocaute inevitável.
Kid Jofre costmava dizer que um verdadeiro campeão não tinha alma. Tionha um cabide de pé no lugar da alma. Isto é: o verdadeiro campeão, mesmo nocauteado, não caía, como se mantido ereto por um cabide invisível.
Pois foi o que me convenceu que Eder era um verdadeiro campeão, quando, diante do argentino Castro (talvez, Raúl, apesar da semelhança com o nome do irmão de Fidel), ele sofreu um golpe fatal. Mas, olhos vidrados, Eder permaneceu em pé. E, no assalto seguinte, demoliu o adversário. Vi essa luta no gargarejo.
Ao conquistar o título mundial dos penas, nos sombrios anos 70, sob a mais trevosa ditadura militar, o presidente Medici resolveu lhe ofertar uma medalha de honra, oficialmente, Pois, dona Angelina, sua mãe, simplesmente proibiu Eder de receber a tal honraria. E Eder cumpriu ao pé da letra o desejo da mãe, apesar de todas as possíveis e não realizadas eventuais retaliações da ditadura.
Leio na Internet uma pergunta absurda: quem foi melhor – Eder ou Popó? Absurda porque não pode haver nenhum outro pugilista melhor do que Eder. Simplesmente, porque Eder foi o mais completo pugilista brasileiro. Tinha uma técnica impecável, seja na defesa, seja no ataque.
Dominava, como raros na história do boxe mundial, a capacidade de evitar golpes, fosse pela esquiva de cabeça, fosse pelo jogo de pernas, fosse pela guarda perfeita. Tanto, que até hoje, com mais de 70 anos não revela marcas de sua longa e gloriosa carreira.
Poucas foram suas quedas, acho que duas em sua carreira. Além disso, soltava seus golpes, de esquerda, a mais potente, ou de direita, rigorosamente dentro das regras da arte. Seus diretos eram retos, impecáveis; seus jabs rápidos e precisos: seus cruzados mantinham os cotovelos na posição exata para obter o melhor efeito; seus hooks, no fígado ou no baço, eram perfeitos, assim como os uppercuts, que vinham de baixo em direção ao queixo do adversário como se desenhados por compassos.
Talvez, essa exatidão na aplicação dos golpes conferisse aos punhos de Eder a sensação de que batia com uma força superior a duas categorias acima da sua. De qualquer forma, era a técnica elevada à quinta potência.
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Autor: Alberto Helena jr. Tags: Boxe, Eder Jofre, Forja dos CAmpeões, Gazeta Esportiva