DEPOIS DA FESTA

Delegação brasileira presente em Copenhague festeja a escolha do Rio de Janeiro
O Rio está em festa, os políticos celebram o feito, enquanto vão computando de cabeça os votos a favor que cairão nas urnas nas próximas eleições, e todos os aproveitadores de plantão esfregam as mãos na expectativa dos fabulosos ganhos extras que se insinuam na mesa olímpica.
Mas, confessemos, o brasileiro de norte a sul, de leste a oeste, se sente – um tiquinho ao menos – mais orgulhoso. Afinal, rompemos uma barreira secular, acolhendo pela primeira na história da América do Sul, uma Olimpiada, o maior evento esportivo, ao lado da Copa do Mundo, que também patrocinaremos.
Talvez algumas mãos tenham sido devidamente molhadas, nesse escrutínio tão íntimo da escolha da sede da Olimpíada de 2016. Não sabemos, nem saberemos jamais, quem sabe. Mas, talvez, não, e tudo tenha corrido numa lisura impecável.
O certo é que a escolha não recaiu sobre o Rio por causa de seus excelsos equipamentos esportivos, tampouco pela segurança absoluta que reina nas ruas da Cidade Maravilhosa, ou pela magnífica rede viária, aeroviária ou rodoviária que cobre a urbe carioca e tal e cousa e lousa e maripousa.
Dizem que o projeto apresentado ao COI está irreprimível, e que, até lá, todos os problemas atuais estarão resolvidos. Até acho possível, pois nossas mazelas (e não só do Rio) advêm, antes de mais nada, da incúria, da falta de empenho, do despreparo da imensa maioria dos nossos governantes. Isso, desde os tempos coloniais, todos sabemos.
Desconfio, porém, que o toque de convencimento do colégio eleitoral do COI, na verdade, foi um gesto intangível, algo que se dissemina pelo ar, criando uma imagem tão favorável ao Brasil no resto do mundo, antes de tudo pelos efeitos da política econômica tupiniquim em meio à crise que assolou (e ainda assola) o planeta.
O desprezado e desprezível Brasil, exportador contumaz de travestis e prostitutas, abrigo de marginais internacionais, país dominado pelo narcotráfico, berço de imensas favelas, epicentro da mais abjeta divisão de riquezas, composto por essa gente mulata irresponsável, que só se interessa por samba e futebol, reino de desenfreada corrupção policial, judiciária e dos políticos em geral (Executivo e Legislativo), por certo, não mereceria nem mesmo um sorriso de ironia dos jurados do COI diante de tantas promessas.
Nem mesmo o Brasil de César Lattes, Niemeyer, Drummond, Machado, Pixinguinha e Noel Rosa, Villa-Lobos, Pelé, Glauber, Portinari, Eder Jofre e outros tantos gênios da raça tocaria a sensibilidade daquela turma.
O que conta, numa sociedade de resultados como a que se espalha pelo mundo todo, sobretudo depois da queda do Muro de Berlim, é mesmo o resultado. E o Brasil, com todas as suas gingas e meneios, com todos os problemas estruturais e atávicos, consegui driblar a crise, na medida do possível e do inimaginável. A ponto de merecer encômios em quase todas as grandes publicações do mundo.

Pelé e Lula festejam a vitória
Acrescente-se aí o carisma indiscutível do presidente Lula, que, com todos os seus defeitos e limitações, encanta não só o eleitorado nacional mas, também, essa gente estrangeira, e teremos, imagino, uma explicação mais próxima do que aconteceu no interior da escolha.
Resta, agora, ficar de olho no nosso bolso, que, inevitavelmente, será tungado, e tentar seguir passo a passo seu roteiro.
Sei bem que o brasileiro, em geral, não é ainda um cidadão com plena mobilidade como tal. Mesmo porque não basta a fiscalização rígida. É preciso que o Judiciário, na comprovação de maracutaias, seja menos lerdo e leniente na aplicação de duras penas aos eventuais infratores.
E que os poderes públicos, as organizações civis, a sociedade como um todo, se empenham na tarefa de viabilizar esse evento, que escapa a uma simples competição esportiva.
A Educação está no centro desse esforço. É preciso que haja neste país, como gosta de dizer o presidente, um imenso mutirão em favor da Educação e da Pesquisa. A Educação para formar atletas, mas, principalmente, cidadãos esclarecidos. Atletas, para que não passemos vergonha no campo esportivo; cidadãos, para que a vigilância sobre os gastos públicos seja eficaz.
Enfim, que o Brasil, como um todo, dê um salto no sentido de transformar-se num país respeitado, antes de mais nada, pelo seu valor intrínseco: o caráter de sua gente, povo, governantes, esportistas e empresários.
Autor: Alberto Helena jr. - Categoria(s): Olimpíada Tags: Carlos Arthur Nuzman, Lula, Olimpíada, Rio 2016