18/03/2009 - 20:17
Há um fórum rolando em Brasília sobre o futebol, com base no projeto de lei encaminhado pelo Executivo ao Legislativo brasileiros. E duas questões se destacam: as medidas previstas para reduzir ou acabar com a violência nos estádios e adjacências e como tratar essa disseminação de jogadores com dupla nacionalidade, que, na impossibilidade técnica (ou por vantagens financeiras) de servir à seleção de seu país, vestem com rigor a daquele que o abrigou.
Não tenho o domínio dos termos da lei anti-violência, mesmo porque só vale analisá-la a fundo depois de sua regulamentação. Isto é: como ela será aplicada.
Mas, de pronto, lastimo profundamente que séculos de conquistas da humanidade no sentido de dar ao cidadão o direito inalienável à privacidade, em ser um rosto incógnito na multidão, sejam derrubados numa penada, em nome da segurança pública.
Pela absoluta incapacidade (ou desinteresse) do Estado em assegurar o sagrado direito do brasileiro de ir e vir, a seu bel prazer, em perfeita segurança, viramos todos protagonistas de um sinistro Big Brother. Em cada esquina, há um olho mecânico a registrar nossos passos. Se vamos aos estádios, lá está aquela luzinha vermelha assestada sobre cada um dos nossos movimentos. Se tentamos chegar em casa, a qualquer hora, lá está a câmera sombria colhendo nossa imagem na portaria do condomínio, seguindo-nos implacável pelos corredores, pelo elevador. Só falta flagrar-nos no trono indevassável do banheiro.
Será que somos 200 milhões de marginais, delinquentes, irresponsáveis, incapazes de conduzir nossas vidas de acordo com as normas legais e morais vigentes? Claro que não! Se não, viveríamos num verdadeiro pandemônio, pois não haveria câmeras nem policiais suficientes para conter todos os ímpetos soltos ao mesmo tempo.
Somos, sim, ignorantes, politicamente alienados, monoglotas que mal sabem falar e escrever o próprio idioma, somos incautos, ingênuos, imprevidentes, como, aliás, a maioria dos povos do mundo, uns mais outros menos. Mas, não somos delinquentes por natureza, que diabo!
A imensa maioria do povo brasileiro trabalha de sol a sol, cumpre suas obrigações, e, apesar da parca assistência que o Estado lhe concede, anda nos trilhos, não se revolta, não sai por aí em passeata ou com fuzis nas mãos para mudar tudo.
O que há é um bando de arruaceiros, facilmente detectável pelos unformes de suas facções que ostentam claramente, promotores de toda a violência que rodeia e penetra nos estádios de futebol. Bastaria uma ação drástica do Poder Público sobre esses grupos, e, zás!, toda e qualquer violência no futebol se restringiria a um empurra-empurra entre este ou aquele torcedor mais exaltados, que a turma do deixa-disso serenaria.
Cadastramento de torcedor, sim, mas só para as torcidas uniformizadas, foco de todas as confusões. Aliás, se não fosse assim, se o torcedor comum, que representa maioria nos estádios, promoveria verdadeiras carnificinas nas arquibancadas, o que nunca aconteceu.
Agora, submeter o torcedor comum, aquele que vai ao estádio só para ver o jogo, e, em seguida, voltar pra casa, esse não pode ser submetido a mais uma engrenagem da burocracia que assola este país desde os tempos de Colônia.
Ah, sim, e dizer que a tal carteirinha do torcedor é de graça? De graça, pra quem, cara-pálida? Todos nós, contribuintes, até mesmo os que nunca frequentaram um estádio, os que não gostam do futebol, os que odeiam o futebol, os que gostam mas nem tanto, pagaremos pelo material, profissionais e os custos desse expediente.
Sem falar na humilhação a que todos estaremos submetidos. Mas, isso não conta para essa gente. Talvez, nem para nós, narcotizados já pela crescente e crônica violência urbana.
PS: Sobre a questão da naturalização, trataremos em outro tópico.
Autor: Alberto Helena jr. - Categoria(s): Jornalismo
Tags: Brasília, Executivo, Legislativo, Rio de Janeiro, violência
05/02/2009 - 18:30
Certo dia, lá pelo início dos anos 60, o saudoso Aristides Lobo, já setentão, neto do grande tribuno que lhe legou o nome ilustre, e jornalista incomparável, chamou-me a um canto da redação da Folha, e aconselhou-me: “Menino, você escreve bem. Mas, não use demais a ironia, que o povo não entende”.
Foi um dos sábios conselhos dos mais velhos que não consegui seguir nesta vida ingrata e tão cruel, traído pela própria natureza. Pois, a ironia é o sal do texto, segundo nos ensinaram mestres como Machado, Eça e uns poucos ungidos no ofício de escrever.
Talvez, tenha exagerado na dose – desconfio que não, pois fui extremamente precavido nesse quesito. Mas, o questionamento ao comentário de meu bom vizinho Regis nem de longe passou pela artimanha de desconstruí-lo por esse truque.
Foi apenas uma maneira de tratá-lo num tom ameno e divertido.
Mas, como ensinava o velho Lobo, o pessoal não entende muito bem esse artifício. E isso está expresso em alguns dos comentários dos bloguistas deste pedaço.
Reespeito e admiro o trabalho literário de Regis Bonvicino, seja na Poesia como na Crítica. Mas, isso não me impede de discordar desse seu texto específico, onde meu bom vizinho não concede sequer o proverbial álibi do com as devidas exceções de praxe. Bastava esse pequeno e trivial expediente para evitar o desdobramento da questão.
Não, não vesti a carapuça, como querem alguns bloguistas, porque tenho a carapaça da minha consciência. Tampouco me animou a idéia corporativista de defender a minha categoria profissional. Sou, basicamente, jornalista, não cronista esportivo, especificamente.
No fundo, no fundo, bem lá no fundinho da minha alma, nem mesmo isso, embora tenha passado este tempo todo vivendo de meu trabalho nessa profissão (e exclusivamente dela). Na verdade, olho em volta e vejo que sou um dos poucos da minha geração que não mudou de rumo.
Diria, numa confissão atroz, que gostaria mesmo de ser poeta como Bonvicino, mas, faltam-me talento, inspiração e ímpeto para tanto.
Pronto, falei e disse!
Portanto, não saí em defesa de uma classe, pois, na minha cabeça, não pertenço a nenhuma. Aliás, por vocação e formação, não sou sócio de clube, associação ou sindicato, nem pertenço a turminhas, igrejinhas, sequer frequento as reuniões de meu condomínio. Aliás, conheço dois ou três dos meus vizinhos, se tanto. Não por misantropia, apenas porque sou assim, que diabo!, isolado na minha caverna de pedra de Ibiúna.
E o pudor? É tanto que bastava um amigo de muitas noitadas virar meu chefe e já me retraía. Quando boêmio, jantava quase todas as noites no Giovanni Bruno e o italiano sabia que, se um cartola sentasse à minha mesa, por mais que ele insistisse, a conta era minha.
Cansei de denunciar desmandos de cartolas, e nunca sofri nenhum constrangimento ou censura por quem eventualmente chefiasse minha área. Quanto às minhas participações no Bem, Amigos, que alguns bloguistas insistem em citar pejorativamente, o equívoco é brutal, um desses preconceitos que falam mais alto, que falam primeiro, como no samba do mestre Ataulpho.
Já disse e repito que não sou funcionário nem da Globo, nem da Sportv. E que Galvão Bueno não é chefe de ninguém, a não ser em seus negócios particulares, dos quais nem passo perto. E, se entre nós, há alguma dívida, é a de que, segundo o próprio Galvão apregoa publicamente, eu tenha eventualmente indicado seu nome como provável narrador da nascente TV Guanabara, hoje Bandeirantes do Rio, ao diretor Cláudio Petraglia, diretor da Band na época, coisa de trinta anos atrás.
Nesse tempo, nem mesmo tínhamos – Galvão e eu – a mais remota ligação pessoal. Indiquei-o porque via nele um talento capaz de, tecnicamente, cumprir sua tarefa. A partir daí, sua ascensão foi fruto exclusivo de seu trabalho, gostem ou não.
Por fim, o que recebo pelas mnihas participações mensais no Bem, Amigos não chega a perfazer um décimo dos meus estipêndios. Metade do que pago aos meus caseiros. Muito menos do que o suficiente para vender minha consciência.
Não tenho, nunca tive emprego público, embora recebesse, ao longo da vida, propostas tentadoras. Nunca pertenci a partido político (acho mesmo que jornalista, como padre e sargento, não deveriam ter direito a voto, quanto mais compartilhar a atividade política com o exercício do jornalismo, como, no caso, minha doce e competente Soninha e tantos outros antes dela), e concordo com muitos bloguistas, dentre eles, o Onbudsman do IG, Mario Vitor, de que há mais pontos concordantes entre o texto de Bonvicino e o meu.
O jornalismo brasileiro, a meu ver, sofreu uma queda abissal nos últimos, digamos, vinte anos. Em geral, não apenas o esportivo. Com uma diferença: a tal imprensa esportiva tem sido muito mais ativa na denúncia das mazelas do futebol do que as demais seções.
Confesso, por exemplo, que não me lembro de crítico literário denunciar macetes e tramóias das editoras; tampouco de um crítico de cinema revelar as relações eventualmente espúrias entre a Máfia (italiana ou russa) e Hollywwod. E o conspícuo relacionamento entre os eventos culturais e as instituições governamentais?
Imagine o amigo os trambiques que existem na área da economia mundial e compare com o número de denúncias a respeito. E a política? Não bastam os mensalões da vida?
Calcule se todos os cronistas dessas áreas, inclusive o futebol, não fizessem outra coisa na vida a não ser especular sobre transações safadas.
Ninguém falaria sobre o livro revelador de Fulano de Tal, o filme deslumbrante de Beltrano, a mostra pictórica de Sicrano e assim por diante.
Como dizia o clássico filme Em Cada Coração há um Pecado, que virou samba antológico cujo desfecho é: por isso, entre nós dois está tudo acabado.
Autor: Alberto Helena jr. - Categoria(s): Jornalismo
Tags: régis bonvicino