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Arquivo da Categoria História

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009 História | 14:04

Natais, felizes e amargos

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Tinha eu exatos seis anos quando me deslumbrei com aquela maravilha mecânica pela primeira vez: um caixote de madeira, dobrável, com alças de couro nas extremidades, representantando um verde campo de futebol, com todas as riscas das regras do jogo real. Enfiados em paus que atravessam o campo na horizontal, bonequinhos em madeira, na formação clássica, anterior ao advento do WM – 2-3-5: goleiro, dois beques centrais, três na linha média e cinc0o atacantes.

Parei extasiado diante do brinquedo, até então inédito, num dos andares das Casas Pirani, uma das primeiras lojas de departamento de São Paulo, ao lado do Mappin, Mesbla e poucas outras do centro da cidade. A Pirani ficava num prédio de seis andares, na avenida Celso Garcia, erguida pelo meu avô materno, José Sanz Duro, comunista ferrenho, mas que não jogava dinheiro fora. Ao contrário: em vez de Sanz Duro, era conhecido como Pão Duro no velho Brás dos imigrantes italianos, espanhóis e judeus.

Os bonecos, nessa primeira vista, estavam pintados com os uniformes de Vasco e Flamengo, gravados às costas os nomes dos respectivos jogadores. Lembro-me apenas que o meia-direita do Flamengo era Gonzales, uruguaio de boa cepa, mulato, que, mais tarde, veio para o Palmeiras.

Isso, numa época em que a rivalidade Rio-SP atingia o ápice.

Contudo, o mais importante é que eu poderia reproduzir, com minhas próprias mãos, tendo com o objeto uma bolinha de pingue-pongue, todos aqueles lances que só me chagavam aos ouvidos, pelas narrações dos jogos de futebol através do rádio.

E que minha cabecinha oscila entre crer ou descrer da existência de Papai Noel

A revelação veio na véspera do Natal, quando surpreendi meu pai retirando do porta-mala de seu Ford Clube Cupê, cinza, 1946, na véspera do Natal, a engenhoca mágica.

No mesmo instante em que o encanto de Papai Noel se desfez, fez-se o encanto de eu mesmo poder reproduzir aqueles jogos que vagavam na minha imaginação. Passava dias e noites manipulando o jogo, que, aqui, passou a se chamar de pebolim (no Rio, totó), e que nós batizamos de pimbolim. Sim, porque era pim..bo na bola, e bolim, quando ela invadia a rede.

A tragédia deu-se quando meu irmão Cyro, mais velho, deparou-se com o estádio atravessado na sala de visitas, tempos depois. Irritado porque eu resistia em tirar do seu caminho aquele trambolho, simplesmente meteu o pé sobre o estádio de madeira e destruiu as duas linhas médias, formadas por Bauer, Rui e Noronha, do lado Tricolor, e Zezé Procópio, Og Moreira e Gengo, pelo Verdão.

Seis craques craques eternos cujas sobrevividas tentei, em vão, resgatar com muito esparadrapo, a cola Superbom daquele tempo.

Mas, meu Natal negro não acabaria aí, não.

Morava ao lado, casas geminadas, o tio Heitor, casado com uma das mulheres mais lindas que conheci: alva, olhos azuis, sorriso de Madona, cabelos castanhos claros, esguia e amorável, nos gestos e nas resignações. Tia Angelina, minha madrinha, doce como mel.

Pois, tio Heitor tinha sido lutador de boxe na juventude – e até servira, mais tarde, como segurança para meu irmão Cyro, morto na véspera de sua formatura como médico em Curitiba, nos anos 30, pela explosão de fábrica de explosivos em frente ao hotel em que se hospedava, nos discursos que este fazia contra o domínio inglês sobre a China.

Bem, enfim, o presente dado com carinho por tia Angelina ao marido era outro brinquedo mágico: um ringue de boxe, com dois marionetes,  braços e pernas atados por elásticos, representando a luta da época, entre Joe Louis e Billy Cohn. Um, negro; outro branco. O confronto da década de 40.

Pois, tanto implorei à tia Angelina, que ela me emprestou o brinquedo, com extrema relutância. Foi sair por uma porta, e, antes de chegar à seguinte, tropecei, e o ringue, Louis e Cohn foram levados  a nocaute para sempre.

Assim são os Natais, felizes e amargos, como o resto de nossas vidas.

Notas relacionadas:

  1. TIRANDO DA LUSA O QUE LHE RESTA
Autor: Alberto Helena jr. Tags: , , , , ,

sábado, 4 de abril de 2009 Clubes brasileiros, História | 17:55

CEM ANOS DE COLORADO

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O Internacional celebra seus 100 anos de vida gloriosa neste sábado. Há muito o que falar desse clube, que já, no nome e na camisa, reverencia dois símbolos universais simpáticos às grandes massas do mundo inteiro por todas as conotações que abriga.

Mas, essa louvação toda deixo, por ignorância e modéstia, a quem mais conhece intimamente a vida do clube – meus queridos Veríssimo e o Professor.

Só digo o que me dita a memória. E assim digo que aquele time colorado bicampeão brasileiro de 75/76 foi uma das mais perfeitas equipes de futebol que vi em ação nos últimos sessenta anos.

Manga, Cláudio, Figueroa, Hermínio, Marinho Perez, Vacaria, Falcão, Caçapava, Batista, Jair, Escurinho, Carpeggiani, Borjão, Valdomiro, Flávio, Dario Maravilha, Lula, sei lá quantos mais participaram desse elenco fabuloso, sob o comando de Rubens Minelli, não apenas cumpriram duas campanhas seguidas exemplares, como mudaram a cara do futebol brasileiro, para o bem e para o mal.

Digo isso porque foi o time que semeou o conceito de dois volantes no futebol brasileiro. Com uma pequena e fundamental diferença do que veio depois: o segundo volante chamava-se Falcão, a soma de todas as virtudes do futebol de todas as épocas – marcava, armava e finalizava, com uma elegância no porte e nos gestos incomparável.

Praticavam um futebol altamente eficiente, mas, sobretudo, belo e ofensivo. Antes e mais nada, inteligente.

Mas, a história do Inter não se resume a essa fase esplendorosa e única, não. Até onde alcança a minha memória virtual e visual, o Inter teve outros times fabulosos, como o Expresso do final dos anos 40. E jogadores inesquecíveis, como Adãozinho, Odorico, Nena, Larry, Bodinho, Bráulio etc. E, depois, Dunga, Nilmar, Alex, Pato e todos esses Taisons que vêm surgindo por aí. 

Enfim, nessas idas e vindas da memória, talvez valha a pena prestar uma singela homenagem ao Inter, escalando aqui uma seleção dos que vi em ação com a camisa colorada ao longo das últimas seis décadas. Lá vai: entre Manga e Taffarel, meu coração balança; Paulinho de Almeida, Figueroa, Salvador e Oreco; Falcão, Carpeggiani, Bráulio e Chinezinho; Tesourinha e Claudiomiro.

Não é um time fechado, mesmo porque a memória é traiçoeira e posso ter deixado de lado alguém ainda mais ilustre. É apenas uma pequena lembrancinha de presente ao centenário do Inter, a quem abraço de corpo e alma.

Notas relacionadas:

  1. A GRANDE SURPRESA
Autor: Alberto Helena jr. Tags:

domingo, 21 de dezembro de 2008 Futebol internacional, História, Sem categoria | 16:09

OS NOSSOS CAMPEÕES

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Há muitos anos, fui jantar num sofisticado  restaurante  francês de marca mundial – o Maxim’s. O amigo o Canarinho, Realinho, me levou à cozinha, e lá estava um cearense  dourado, comandando tudo. Era o chef. Severino, se me  lembro.

Brasileiro é assim: está em todo canto, assumindo os modos dos estrangeiros, mas botando uma pitada de nosso tempero.

Certa vez,  passeando pelas ruas geladas de uma Hamburgo chicoteada pelos ventos do Mar do Norte, ouvi  alguém me  chamando. Quando me voltei, dei-me com um negrão de barbas, coberto de peles e jóias, tendo ao lado uma loira deslumbrante.

Demorei um tanto para reconhecer a peça. Era o Gaguinho, ritmista do Lavapés, que há muitos anos havia sumido do nosso mundo. Tinha ido para a Europa com um desses conjuntos de samba, e por lá ficara, segundo ele, tratado a pão-de-ló pelas loiras e belas germânicas.

Falo de coisas acontecidas há trinta anos.

Mas, voltando aos nossos tempos, temos dois campeões do mundo, ainda que com a bandeira de Sua Majestade, a Rainha da Inglaterra.

Um, com a taça na mão, o menino Rafael, cria de Xerém, gêmeo de Fábio, que começa a abrir a seu espaço no Manchester, com a aposentadoria iminente de Gary Neville e a inaproriedade de Brown, um zagueiro, na posição. Rafael joga muito bem. Marca bem, apóia melhor ainda. É jogador para ser devidamente observado pelo técnico da Seleção Brasileira, para dizer o míno.

Anderson, que já tem lugar fixo na Seleção, é aquele canhoto que, além de combativo, sabe jogar. Tanto, que Rooney, seu parceiro lá da frente, já declarou que ele deve tentar mais os lançamentos em profundidade, lance raro no futebol atual. Pois, Anderson, na decisão do Mundial, meteu uma bola de trinta metros para Rooney, no primeiro tempo, de fazer inveja a Gérson, Jair, Didi, Zizinho e aos grandes mestres nessa arte.

O que quero dizer é que o Brasil também é campeão do mundo de clubes pela participação de dois garotos de futuro inimaginável.

Notas relacionadas:

  1. O BOLA DE OURO
  2. ASSIM, NÃO DÁ
  3. A MAGIA DOS DIABOS VERMELHOS
Autor: Alberto Helena jr. Tags: , , ,

Futebol internacional, História, Sem categoria | 15:00

A MAGIA DOS DIABOS VERMELHOS

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O gol de Rooney, aos 27 minutos do segundo tempo sobre a LDU, campeã sul-americana, na decisão da Copa do Mundo de Clubes, exemplifica bem a posição singular dos Diabos Vermelhos neste cenário futebolístico da primeira década do século 21.

Rooney começou a trabalhar a bola lá na sua lateral-esquerda, aquém da risca do meio de campo. Serviu a Carrick, que passou para Anderson, que enviou a bola a Rooney, já na ponta-esquerda. De Rooney, para Carrick, que mandou para Cristiano Ronaldo na meia-esquerda, já à entrada da área. Cristiano, com o gênio que a Providência lhe concedeu, diante de dois marcadores, passou o pé direito sobre a bola duas vezes antes de tocar de canhota um passe leve e exato para Rooney, da esquerda, de pé direito, bater cruzado no canto oposto ao do goleiro. A propósito, mais uma espetacular apresentação de Rooney, que não entendo fora da lista dos cinco melhores da Fifa, na eleição do fim-de-ano.

Foi o gol do Mundial, o gol histórico, obtido quando o Manchester estava com um jogador a menos, fruto da expulsão de Vidic, jutsa, diga-se, logo no comecinho do segundo tempo.

Mas, apesar dessa desvantagem, o Manchester de Sir Ferguson, jamais abdicou daquela postura ofensiva que tem marcado o seu time nos últimos anos. E a troca de bola sucessiva, longa, embora rápida, que antecedeu a finalização, é a marca dos grandes times em todas as épocas.

Foi como se o destino quisesse limitar essa conquista histórica a um único gol, pois o Manchester poderia ter enfiado três ou quatro ainda no primeiro tempo, quando teve pleno domínio do jogo e criou, por baixo, meia dúzia de oportunidades claras.

Por fim, mesmo vencendo por 1 a 0, com um jogador a menos em campo, o Manchester jamais deixou de atacar um adversário que jogava o tal futebol pragmático, basicamente defensivo, do início ao fim, empatando ou perdendo. Tanto, que, quando o juiz apitou o fim do jogo, a bola rondava a área dos equatorianos, nos pés mágicos de Cristiano Ronaldo, campeão da Inglaterra, campeão da Liga dos Campeões da Europa, campeão do mundo, e o melhor jogador do planeta, certamente eleito pela Fifa nos próximos dias. 

Notas relacionadas:

  1. UM CLÁSSICO NAS REGRAS DA ARTE
  2. EMOÇÃO NA ILHA
  3. E MEXERAM COM OS DIABOS…
Autor: Alberto Helena jr. Tags: , , ,

sexta-feira, 7 de novembro de 2008 Ex-jogadores, História | 19:15

TIRANDO DA LUSA O QUE LHE RESTA

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Não bastassem todos aqueles títulos roubados da Lusa pelos juizes nos anos 50, quando tinha um timaço incomparável e chegava a ceder sete jogadores para a Seleção Brasileira, querem agora levar o que restou de troféus no Canindé, pela bagatela de 150 mil reais, dívida que o clube teria com um desses tantos anônimos e improfícuos empresários da bola.

Inclusive os três campeonatos paulista conquistados em campo pela Portuguesa, em 35, 36 e 73, este, dividido no banheiro do estádio com o Santos pelo então presidente da FPF, José Ermírio de Moraes, por conta das contas erradas do juiz Armando Marques, na cobrança de pênaltis decisiva.

Como se vê, tudo na Lusa é sofrido, até as favas contadas, que, de uma hora pra outra, deixam de sê-las.

Mesmo aqueles títulos de 35/36 não lhe pertencem por inteiro, desde que aquela foi uma época de cisão no futebol paulista, entre a LPF (Liga Paulista de Futebol) e a Apea (Associação Paulista e Esportes Amadores), durante o processo de implantação do profissionalismo na província. Então, houve dois campeonatos paulistas disputados concomitanmente.

Mas, a conquista de dois Rio-São Paulo (o Brasileirão da época), no início dos anos 50, é absolutamente irretorquível. A Lusa era, na época de fastígio de Corinthians, Palmeiras, Vasco e Flamengo,  disparado, o melhor time do Brasil. Época em que cruzou os mares e foi buscar a Fita-Azul por duas vezes seguidas na Europa e Oriente, duas extraordinárias campanhas invictas no Exterior.

 A Lusa de Muca, Cabeção, Djalma Santos, Zé Maria, Marinho Perez, Ditão, Zé Roberto, Brandãozinho, Noronha, Julinho, Pinga, Servílio, Simão, Dener, Ocimar, Ipojucã, Raul Klein, Pontoni, Fausto, a Maravilha Negra, Eneas e tantos outros craques inesquecíveis, não mereceia isso.

Autor: Alberto Helena jr. Tags: , , , , , , , , , ,

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