Natais, felizes e amargos
Tinha eu exatos seis anos quando me deslumbrei com aquela maravilha mecânica pela primeira vez: um caixote de madeira, dobrável, com alças de couro nas extremidades, representantando um verde campo de futebol, com todas as riscas das regras do jogo real. Enfiados em paus que atravessam o campo na horizontal, bonequinhos em madeira, na formação clássica, anterior ao advento do WM – 2-3-5: goleiro, dois beques centrais, três na linha média e cinc0o atacantes.
Parei extasiado diante do brinquedo, até então inédito, num dos andares das Casas Pirani, uma das primeiras lojas de departamento de São Paulo, ao lado do Mappin, Mesbla e poucas outras do centro da cidade. A Pirani ficava num prédio de seis andares, na avenida Celso Garcia, erguida pelo meu avô materno, José Sanz Duro, comunista ferrenho, mas que não jogava dinheiro fora. Ao contrário: em vez de Sanz Duro, era conhecido como Pão Duro no velho Brás dos imigrantes italianos, espanhóis e judeus.
Os bonecos, nessa primeira vista, estavam pintados com os uniformes de Vasco e Flamengo, gravados às costas os nomes dos respectivos jogadores. Lembro-me apenas que o meia-direita do Flamengo era Gonzales, uruguaio de boa cepa, mulato, que, mais tarde, veio para o Palmeiras.
Isso, numa época em que a rivalidade Rio-SP atingia o ápice.
Contudo, o mais importante é que eu poderia reproduzir, com minhas próprias mãos, tendo com o objeto uma bolinha de pingue-pongue, todos aqueles lances que só me chagavam aos ouvidos, pelas narrações dos jogos de futebol através do rádio.
E que minha cabecinha oscila entre crer ou descrer da existência de Papai Noel
A revelação veio na véspera do Natal, quando surpreendi meu pai retirando do porta-mala de seu Ford Clube Cupê, cinza, 1946, na véspera do Natal, a engenhoca mágica.
No mesmo instante em que o encanto de Papai Noel se desfez, fez-se o encanto de eu mesmo poder reproduzir aqueles jogos que vagavam na minha imaginação. Passava dias e noites manipulando o jogo, que, aqui, passou a se chamar de pebolim (no Rio, totó), e que nós batizamos de pimbolim. Sim, porque era pim..bo na bola, e bolim, quando ela invadia a rede.
A tragédia deu-se quando meu irmão Cyro, mais velho, deparou-se com o estádio atravessado na sala de visitas, tempos depois. Irritado porque eu resistia em tirar do seu caminho aquele trambolho, simplesmente meteu o pé sobre o estádio de madeira e destruiu as duas linhas médias, formadas por Bauer, Rui e Noronha, do lado Tricolor, e Zezé Procópio, Og Moreira e Gengo, pelo Verdão.
Seis craques craques eternos cujas sobrevividas tentei, em vão, resgatar com muito esparadrapo, a cola Superbom daquele tempo.
Mas, meu Natal negro não acabaria aí, não.
Morava ao lado, casas geminadas, o tio Heitor, casado com uma das mulheres mais lindas que conheci: alva, olhos azuis, sorriso de Madona, cabelos castanhos claros, esguia e amorável, nos gestos e nas resignações. Tia Angelina, minha madrinha, doce como mel.
Pois, tio Heitor tinha sido lutador de boxe na juventude – e até servira, mais tarde, como segurança para meu irmão Cyro, morto na véspera de sua formatura como médico em Curitiba, nos anos 30, pela explosão de fábrica de explosivos em frente ao hotel em que se hospedava, nos discursos que este fazia contra o domínio inglês sobre a China.
Bem, enfim, o presente dado com carinho por tia Angelina ao marido era outro brinquedo mágico: um ringue de boxe, com dois marionetes, braços e pernas atados por elásticos, representando a luta da época, entre Joe Louis e Billy Cohn. Um, negro; outro branco. O confronto da década de 40.
Pois, tanto implorei à tia Angelina, que ela me emprestou o brinquedo, com extrema relutância. Foi sair por uma porta, e, antes de chegar à seguinte, tropecei, e o ringue, Louis e Cohn foram levados a nocaute para sempre.
Assim são os Natais, felizes e amargos, como o resto de nossas vidas.
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Autor: Alberto Helena jr. Tags: Flamengo, Natal, Palmeiras, Papai Noel, São Paulo, Vasco
