História | Blog do Alberto Helena Jr.

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terça-feira, 24 de maio de 2011 Copa do Brasil, Futebol internacional, História, Libertadores | 19:03

PEIXE, PIRATAS, COPA DO BRASIL, GIGGS E ABDIAS

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Ainda sem Ganso e Alan Patrick, o Santos recebe o Cerro Porteño, no Pacaembu, pelas semifinais da Libertadores, com quatro volantes – Adriano, Arouca, Danilo e Elano, o que provoca nos puristas da Vila um revirar de olhos.

Estejam certos esses amigos que este blogueiro teria a mesma reação, caso houvesse de fato uma alternativa para o técnico, e se três dos escalados não fossem versáteis o bastante para compensar em parte a ausência de um meia autêntico.

Sucede que a única opção no elenco para essa posição é Felipe Anderson, de 17 anos, muito menino para um jogo tão decisivo. Ou, então, a presença de Keirrison lá na frente, entre Zé Love e Neymar. Mas, Keirrison tem sido tão abúlico nesta sua passagem pelo Santos, que, confesso, não ousaria colocá-lo de saída.

Ainda se Borges pudesse atuar… Mas, não pode. Acaba de desembarcar na Vila com os papéis vencidos para esta fase da competição.

Assim, Elano deverá atuar mais à frente, uma faca de dois legumes – como diria o saudoso Vicente Matheus, pois se estará mais perto da meta adversária para disparar aqueles chutes certeiros, não tem a ginga, velocidade e o drible inerentes à função.

Mesmo assim, desconfio que o Peixe pode fazer boa figura no Pacaembu e ganhar o jogo, que é o mais importante nesta quadra de sua vida. Nem que seja por um placar apertado, para jogar em Assunção pelo regulamento. Isso também faz parte.

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Muricy repetirá, contra o Cerro, time que terminou o último jogo contra o Once Caldas (AE)

O que não dá é exigir que o atual Peixe jogue aquele futebol desabrido, deslumbrante e ao mesmo tempo eficiente dos tempos de Robinho, Ganso, Neymar, André, Wesley e cia. bela, do primeiro semestre do ano passado. Esse já era, para a desgraça de todos que amam o verdadeiro futebol, em sua plenitude.

COPA DO BRASIL

Os quatro participantes das semifinais da Copa do Brasil pouparam-se no fim de semana para essa rodada decisiva de amanhã.

Mas, agora, Avaí, Vasco, Coritiba e Ceará vão com tudo, mesmo por que nos confrontos de ida os dois jogos acabaram empatados. Ruim para Vasco e Ceará, que perderam a vantagem de mando de campo. Mas, nada que não possa ser desfeito nos jogos da volta.

Afinal, o Vasco tem bala e ânimo para se classificar em Floripa, por exemplo, embora, pelo retrospecto sensacional do Coxa nesta temporada, a situação do Ceará seja mais complicada.

Todavia, é sempre bom lembrar que se trata de um jogo só, capital, e, nesses casos, são tantas as variáveis que fogem ao mero cotejo técnico, que qualquer coisa ainda pode acontecer.

BUCANEIROS E PIRATAS

O título desse filme de piratas poderia ser Os Corvos dos Campos, em vez de o clássico Gavião dos Mares. No lugar do bonitão Errol Flyn, o horrendo Thomas Mitchel de O Motim, disparando seus canhões contra um Anthony Quinn, disfarçado de vil latino.

Na verdade, não há mocinhos entre os piratas da Rainha e os bucaneiros latinos -  brasileiros,f ranceses e demais envolvidos nesse tiroteio em torno da Fifa.

O amigo pode mais ou menos dimensionar, pela grana que corre aqui no rés do chão, o vulto da gana que corre lá em cima, nos andares das grandes decisões do futebol.

Se um jogador de futebol, de porte médio, ganha coisa de 130 mil reais por mês num país como o nosso, de tantas carências, 100 milhões de dólares para um ex-presidente da Fifa e alguns membros do Comitê Executivo da mesma entidade, é uma bagatela, convenhamos.

Sepp Blatter garante que isso não ficará barato. Palavras ao vento, meu caro amigo. Pois, ele mesmo é acusado de outros tantos malfeitos.

Como já disse e repito, tenho dúvidas se a mais antiga profissão do mundo é aquela ou esta, a corrupção nos altos e baixos escalões onde impere a autoridade, qualquer que seja ela.

O CASO GIGGS

Logo agora, na reta final pela disputa em Wembley do título da Liga dos Campeões, estoura esse escândalo sexual envolvendo Giggs, esse jogador espetacular, talvez o maior ídolo da história do Manchester United e certamente o maior vencedor da vida dos Diabos Vermelhos.

Aliás, de que se acusa Ryan Giggs, o mais fiel diabo vermelho desde o legendário Bobby Charlton? De infidelidade. Não ao clube, mas à esposa, porque o craque teria saltado o muro da moralidade burguesa (ui, que velho isso!) em busca de breves prazeres ofertados pela exuberante modelo Immogen Thomas.

Pelo que se sabe, uma relação consensual entre dois adultos, vacinados e donos de seus narizes. Nenhum abuso, nenhum pagamento pelo ato escuso (?), nada que pudesse caracterizar crime no estrito senso da palavra, a não ser adultério, que, no mundo ocidental, não condena ninguém a apedrejamento, tampouco ao cárcere.

Giggs teve o cuidado, aos primeiros rumores sobre sua relação com a modelo, de ir aos tribunais, pedindo, antes de mais nada, sigilo, em nome de seus dezessete anos de casado e dos filhos do casal oficial. E o juiz o concedeu.

Pois, não é que os tablóides ingleses, aqueles que vivem como urubus em volta da carniça alheia, fizeram tanta pressão que a coisa foi levada ao Parlamento como censura à livre expressão da imprensa? E pode?

Censura à livre expressão da imprensa é quando um sujeito rico e poderoso comete uma série de falcatruas, lesivas à sociedade em geral, e se utiliza de sua fortuna para conseguir, nos tribunais ou fora deles, calar a boca da imprensa.

O mesmo preceito vale para governantes e poderosos em geral.

Outro dia mesmo, um sábio juiz da mais alta corte brasileira, diante da questão sobre o direito de casais gays se unirem perante a lei, fez a pergunta crucial: a quem isso prejudica? Quais terceiros serão prejudicados pela união de dois homossexuais de qualquer gênero? Obviamente, ninguém. Logo, segue o jogo, como diria seu par com apito correndo pelos gramados do futebol.

Neste caso, quem é lesado pelo relacionamento amoroso entre um jogador de futebol e uma modelo? Que falta fará ao público saber se fulano transou com beltrana, num ato de mútua vontade?

Resposta: só sofrerão lesões graves, algumas até irreparáveis pelo resto da vida, Giggs e sua família, mulher e filhos.

Liberdade de expressão e moralidade rastaquera são a água e o vinho. Vinho envenenado, diga-se.

ABDIAS, ADEUS

Foi-se, aos 97 anos de idade, um grande, imenso, brasileiro: o poeta, ator, dançarino, músico, político e ativista pelas causas da negritude neste país, Abdias do Nascimento.

Ele, no Rio, e Solano Trindade, tão esquecido, em São Paulo foram dois pilares na luta pela igualdade de direitos e contra o ranço do racismo que grassava (ainda grassa) neste país negro, branco, mulato, mameluco e cafuz.

Foi de sua lavra o projeto de lei que instituiu o Dia da Consciência Negra no Brasil, substituindo o flácido Treze de Maio, que mais remetia aos tempos da escravidão do que os da liberdade total que ainda está por vir, embora tenhamos avançado muito, graças justamente a figuras como Abdias e Solano, o fundador do Embu das Artes, que está em vias de oficializar essa designação.

Tive poucos contatos com Abdias, que, num certo tempo foi contestado por algumas vertentes do movimento negro brasileiro mais radical. E o que me chamava sempre a atenção era seu porte imperial, algo entre o babalorixá baiano e o rei do Congo, e suas certezas inabaláveis quanto à condução do movimento negro no Brasil.

Talvez, depois de Patrocínio, na esfera legal dos brancos, Abdias tenha sido o negro mais importante da história do Brasil. Um Brasil que não sabe um tico de sua história, e, por isso mesmo, está sempre propenso a repetir pecados como se estes fossem originais.

Notas relacionadas:

  1. DECISÕES NA COPA DO BRASIL
  2. LIBERTADORES, COPA BR E OBINA
  3. O PEIXE DESTE SÉCULO
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quarta-feira, 30 de março de 2011 História, Seleção Brasileira | 15:50

O FANTASMA DA ÁREA

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Cafu é um dos maiores recordistas da história, além de ter sido titular da lateral-direita da Seleção Brasileira por mais de dez anos. Basta dizer que é o único craque do planeta que disputou quatro finais de Copa do Mundo, levantando a Taça por duas vezes, na última, como capitão.

Daqui a cem anos, quando morrer de velhice e seu caixão coberto pela bandeira nacional estiver sendo levado à morada final, alguém sentenciará: “Lá vai Cafu, o lateral que não sabia cruzar”.

Pois assim é o futebol: cola-se no sujeito um rótulo, verdadeiro ou não, e o infeliz o carregará vida afora, sem perdão.

No caso de Cafu, a coisa toda começou com a obsessão do saudoso Mestre Telê pelo cruzamento exato, perfeito. Não só Cafu, mas Edevaldo e outros tantos laterais sob o comando de Telê, sofreram e se beneficiaram da persistência do treinador, que, para os mais desavisados, era um sinal de que o craque não conseguia acertar o lance.

Não era. Era, isso sim, a compulsiva busca da perfeição por parte de quem, como jogador, fora mestre nesse tipo de jogada.

Como acompanhei a carreira de Cafu desde seus tempos de juvenil no São Paulo, esse estigma pregado na testa do craque me levava às vezes á indignação.

Cera vez, li na imprensa italiana o que meus olhos me diziam a cada rodada: Cafu era o rei das assistências na Roma. Cerca de 60 por cento dos gols romanistas nasciam dos cruzamentos perfeitos de Cafu.

Bastava, porém, Cafu vestir a camisa canarinho e lá vinha a mesma cantilena: não sabe cruzar!

Numa dessas ocasiões, perguntei ao Cafu o que acontecia, afinal.

- Olhe lá dentro da área e você verá a diferença – respondeu-me o craque com aquele sorriso maroto do Jardim Irene.

Realmente, esse é um vezo do futebol brasileiro em geral nos últimos dez, quinze anos: com medo de levar contragolpes, nossos treinadores viciaram até os atacantes a ficar todo mundo aquém da linha da bola. Então, o lateral vai ao fundo, cruza e lá na área, um ou, no máximo, dois atacantes se aventuram a disputar essa bola contra quatro ou cinco defensores.

Sou do tempo em que o ataque dos cem gols do Corinthians formava uma verdadeiro leque na área inimiga quando Claudio preparava-se para cruzar da direita: Luisinho, no bico esquerdo da grande área, Baltazar, na marca do pênalti, Carbone um pouco além e Mário fechando pelo bico direito da pequena área, lá na extrema esquerda da linha alvinegra. Passasse a bola por um, por dois, não passaria do terceiro ou quarto.

Outro dia, Cafu esteve no Bem, Amigos, e, levantada essa bola pra ele, foi incisivo:

- Na Europa, é de lei ter, pelo menos, três atacantes na área, quando o lateral ou ala prepara o cruzamento. Isso é treinado e exigido por todos os t[ecnicos. Aqui, não. Ao contrário.

Pois é.

Notas relacionadas:

  1. GRAÇA E PREOCUPAÇÃO
  2. UM FESTIVO DIA DE CÃO
  3. É MAIS OU MENOS ISSO AÍ
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segunda-feira, 28 de março de 2011 Clubes brasileiros, História | 16:49

PARA SEMPRE

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Não só Rogério Ceni alcançou um recorde nunca obtido antes por qualquer goleiro do planeta, como, certamente, essa marca ficará congelada na história, inalcançável por qualquer outro goleiro do futuro.

Mesmo porque será preciso conjugar num mesmo ser todas as pequenas e grandes combinações que fizeram de Rogério um craque singular.

Se não fosse agarrar no gol, teria sido um jogador de linha de alta classe como revelam os que o viram dando seus primeiros chutes na infância e adolescência. Além do dom natural para o ofício da bola, Rogério cultiva uma determinação férrea de se esmerar em tudo o que faz. Dedica-se de corpo e alma ao seu trabalho, cuida-se, treina feito o cão, enfim, não dá trégua à própria natureza.

E colhe os frutos no campo. E que frutos!

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Charge de Milton Trajano sobre o feito do goleiro são-paulino

As más línguas dizem que, sim, trata-se de um excelente cobrador de faltas e pênaltis. Digo que é simplesmente soberbo nesse quesito. Pois, se cotejarmos o número de cobranças feitas com as convertidas em gol, não me surpreenderia se o índice de acerto superasse os dos maiores especialistas no assunto, como Zico, Zizinho, Didi, Jair Rosa Pinto, Nelinho, Eder, Pepe, sei lá quantos mais ao longo da nossa história.

Ah, mas pegando ali embaixo do travessão, Rogério não é isso tudo, implicará o implicante de plantão, que logo saca de seu saco de maldades o argumento de que ele jamais foi titular absoluto da meta brasileira, embora tivesse ido a duas Copas do Mundo.

Numa, amargou a reserva de Dida; noutra, a de São Marcos, dois goleiros excepcionais, que marcaram suas respectivas épocas e entraram para a galeria dos imortais.

É que, além dos paredões que tinha pela frente, Rogério não prima pela simpatia junto aos demais torcedores, ainda que ídolo já virando mito do São Paulo. E, até que o conheçam mais de perto, os treinadores costumam vê-lo, á primeira vista, como um desses líderes que podem desequilibrar o delicado ambiente da Seleção.

Felipão mesmo disse que ficou surpreso com o comportamento parceiro e inclusivo de Rogério, quando chamado para a Copa de 2002.

Mas, se o amigo pegar a trajetória de Rogério, na meta tricolor, verá que a salvou tantas vezes de derrotas em jogos essenciais quantos gols marcou em situações similares.

Ainda nesse clássico com o Corinthians, fez duas defesas de puro reflexo e técnica esmerada que poderiam ter mudado o curso da partida: uma, com a mão; outra, com o pé.

Assim, meu amigo, estender o tapete vermelho da história para Rogério Ceni não é um ato de bajulação, e, sim, do mais justo reconhecimento a um talento não apensa raro, mas único.

Notas relacionadas:

  1. ROGÉRIO, LIBERTADORES E LIGA
  2. RECEITA PARA OS PRAGMÁTICOS: PEIXE
  3. HUMILHANTE, NÃO HUMILDE
Autor: Alberto Helena jr. Tags: ,

domingo, 13 de fevereiro de 2011 História | 20:39

O ADEUS DE RONALDO

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Não vi Fried em ação, a não ser num flash de cinejornal dos anos 20, que o Fernando Faro exumou de algum baú perdido, talvez a própria Arca da Aliança, quem sabe. Afinal, ele pendurou as chuteiras seis anos antes de eu nascer.

Mas, ouvi maravilhas dos antigos, testemunhas vivas da longa e estupenda carreira daquele filho de alemão e negra bem brasileira, mulato claro de olhos verdes, que só fui conhecer de perto já velho mas ainda altivo em seu terno branco e óculos escuros.

Vi Leônidas no fim de carreira e nas vivas imagens em preto e branco de um documentário da RTF sobre a Copa de 38 na França. Vi e revi várias vezes, ao lado do saudoso Raul Duarte, que o trouxe em 42 para o São Paulo, como enviado de Paulo Machado de Carvalho, na sala de projeções da velha TV Record, na av. Miruna.

Elástico, célere, implacável, genial.

Vi, bem, Ademir de Menezes, suas arrancadas fulminantes, seu cabeceio exato e fatal. Assim como vi à exaustão Vavá, Pagão e Coutinho, três estilos distintos, na mesma arte superior de fazer gols sobre gols.

E que dizer de Careca? Praticamente o mesmo relato que faria de Romário.

Todos gênios incomparáveis no ofício de fazer gols, em síntese, a essência do jogo.

Ronaldo Fenômeno, amigo, está aí nesse time, certamente com marcas mais expressivas. Menos do que certamente teria sido caso não fosse vítima de tão graves lesões, de recuperações longas, a ponto de quase reduzir à metade sua presença nos campos do mundo.

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Marcas expressivas não faltaram na carreira de Ronaldo (foto: AE)

Nesta segunda-feira, depois de ter, já sob o peso da idade e das precárias condições físicas, dado ao Corinthians uma fortuna em empreendimentos fora dos campos, e uma Copa do Brasil e um Paulistão, dentro das quatro linhas, anuncia sua aposentadoria.

Já não era sem tempo? Só quem pode dar essa resposta é o próprio craque. É ele quem sabe onde lhe dói o calo.

A nós só resta aplaudirmos sua passagem pelos campos com as palmas eternas da saudade.

Notas relacionadas:

  1. TIRANDO DA LUSA O QUE LHE RESTA
  2. PACAEMBU SETENTÃO
Autor: Alberto Helena jr. Tags: , , , , , ,

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010 Campeonato Brasileiro, Futebol internacional, História, Sem categoria | 14:36

TORCER POR QUEM OU POR QUÊ?

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A cena se passa no inverno de 1918, em Boston, logo depois do fim da Grande Guerra. Lá está, como de hábito, o rústico Babe Ruth, a maior legenda do beisebol americano, num balcão de bar, enchendo a cara, e se lamentando pela Lei Seca que rondava o Congresso dos EUA.

Dele se aproximam dois homens: um, baixinho e marrento; outro, alto, esbelto e simpático. O baixinho, Eugene O’Neil, grande dramaturgo, pai de Oona, derradeiro amor de Charles Chaplin; o alto, John “Jack” Reed, jornalista e escritor, comunista, que ganhou celebridade ao cobrir para os jornais americanos as revoluções russa e mexicana, de Zapata e Pancho Villa. E que mereceu uma superprodução de Hollywood, estrelado por Warren Beatty, lá pelas décadas de 70 ou 80, já não lembro bem, intitulado Reed.

Travam um diálogo meio canhestro, que a certa altura começa a ficar incompreensível para o craque. É quando Babe pergunta a Reed se ele é fã do Red Sox.

“Não especialmente. Gosto de esporte, mas não me agrada a ideia de fidelidade a um time”.
“Então, por quem você torce quando vai assistir a um jogo?”
“Torcer?, perguntou o homem enquanto os drinques chegavam.
“Quem você aplaude?”, disse Ruth
O homem abriu um sorriso radioso: “Ora, o desempenho individual, senhor Ruth. A pureza de uma jogada, o espetáculo da demonstração atlética e de coordenação. O time é uma coisa maravilhosa como conceito, posso lhe garantir. Ele aponta para a fraternidade do homem e a união visando o mesmo objetivo. Mas, se você olhar por trás, vai ver que isso foi roubado por interesses corporativos, a fim de vender um ideal que é a antítese de tudo que este país alega representar”.

Extraí esse trecho do romance Naquele Dia, um painel – exata combinação de fatos históricos com ficção – da vida de Boston naquele instante em que o mundo estava prestes a sofrer suas mais profundas mudanças, traçado com esmero e talento por Dennis Lehane, autor, entre outros, do best-seller Sobre Meninos e Lobos.

O curioso é ver um comunista, pregador de uma sociedade igualitária, onde as individualidades deverão estar a serviço do coletivo, exaltar justamente essa individualidade, renunciando à ideia de torcer por um escudo, uma camisa, um símbolo coletivo, enfim.

Roubo esse diálogo porque ele exprime bem o que penso e sinto a respeito desse negócio de torcer para este ou aquele time, a ponto de tirar o senso das pessoas.

O futebol me encanta, mas não me arrebata, a não ser quando o craque assoma a cena e nos produz aquelas pequenas e maravilhosas invenções, ou eleva o coletivo à beira da perfeição, em passes exatos e vertiginosos.

Ora, como esses são momentos fugazes e voláteis, despontando aqui ou ali, neste ou naquele time, não me sinto confortável na camisa de força de um clube só, que irá me impedir de usufruir por completo esses raros momentos.

Sim, porque o torcedor, em geral, concentra toda a sua atenção, sua paixão, seu prazer, sua indignação só no seu clube de coração, perdendo o foco do que está à sua volta e o necessário distanciamento crítico para melhor apreciar o que há de bom e agradável do outro lado da arquibancada.

Digo essas obviedades por dois motivos.

Um, para repudiar aqueles que me acusam de contrariar a tese sobre a unificação dos títulos da Taça Brasil aos campeonatos nacionais só porque meu pretenso time passaria a segundo plano num eventual ranking de campeões brasileiros. Isso só pode partir como projeção da cabeça do torcedor mais fanático: esse cara é como eu, logo, se ele é contra o tal projeto e eu celebro os títulos recebidos pelo meu time, é porque ele lamenta a queda do seu.

Outro, para louvar mais uma vez o Barcelona, ainda sob os ecos do último show de bola do Barcelona neste fim de semana.

Tenho, confesso, fortes simpatias tanto pelo Barça quanto pelo Milan, dois times que, ao longo da história, cultivaram a beleza do jogo mais do que até o próprio resultado em si, embora, nesse processo, tenham vencido tudo.

Pois, ao fim do espetáculo proporcionado pelo Barça, uma perfeita combinação de individualidades criativas e técnicas a serviço de um conjunto exuberante, passei a acompanhar o Milan diante da Roma.

Foi de uma taça do mais fino espumante catalão a um copo de Coca-Cola quente. Simplesmente intragável esse Milan, que acabou perdendo por 1 a 0 da Roma. Era um outro jogo, outro esporte, outra concepção: um pega-pega desenfreado, nenhuma lucidez, nenhum lance capaz de emocionar ou ser relembrado.

Como torcer para o Milan, apesar de todo o seu passado glorioso, e até mesmo de suas possibilidades atuais, líder do campeonato e tal e cousa e lousa e maripousa? E como deixar de torcer para o Barça?

Entende?, como diria Pelé.

Notas relacionadas:

  1. BARÇA, MILAN E OS DIABOS
  2. KAKÁ E O DUCE
  3. DIABOS, QUEM BATE ESSE TIME?
Autor: Alberto Helena jr. Tags: , , , ,

quinta-feira, 25 de novembro de 2010 Copa Sul-Americana, História | 17:38

HÁ OUTRAS COISAS MAIS

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Não sei se já contei aqui essa historinha. Se contei, repito, pois a imagem daquele garotinho chorando compulsivamente nas arquibancadas do Pacaembu continua fresca na memória.

Devia ter a idade dele, coisa de sete ou oito anos, quando peguei cachumba ou catapora, já não me lembro bem. Lembro do fato de que, no imaginário da época, era doença que, se você não ficasse de quarentena, na cama, corria o risco da desgraçada descer para os testículos e acabar com a festa futura, coisa que meu velho esconjurava com todas as forças de sua alma itálica.

Então, fiquei lá deitado na cama, mais de mês, abatido por febres altíssimas que me faziam ver as pessoas andando às vezes em câmera lenta, às vezes em vertiginosos movimentos. Um horror, que deixava dona Irene, minha mãe, em pânico, achando que o filho, no mínimo, estava ficando maluco.

Numa certa tarde de domingo, despertei tranquilo e lúcido. Milagre! Todos comemoraram a minha lenta e dolorida recuperação. E, como prêmio, meu pai, que odiava o futebol por considerá-lo uma fábrica de fanáticos (para ele, o fanatismo em todas as suas manifestações era o pior do ser humano) deixou que ligasse o rádio de cabeceira para ouvir um jogo: XV de Piracicaba e São Paulo.

Tricolor doente, na época, logo sintonizei a Record, cujo locutor era Geraldo José de Almeida, são-paulino ainda mais fanático. Corria o ano de 1948 ou 1949, não sou capaz de precisar agora. Acho que 49.

Enfim, bola que vai e que vem, jogo empatado, no finalzinho, pênalti de Rui Campos, centromédio mítico do São Paulo. Geraldo José de Almeida, com aquele vozeirão envolvente e a paixão incontida, foi mais do que enfático: “Um roubo, um acinte, Rui matou a bola no peito em cima da risca e saiu jogando com a classe que lhe é habitual!”

De Maria bateu o pênalti, e gol do XV, o gol da vitória.

Simplesmente, entrei em transe, as lágrimas incontidas começaram a ganhar temperaturas extremas, o termômetro foi a 40 graus, a casa entrou em ebulição, e o pouco que lembro desses momentos foi meu pai, à beira da cama, me esculhambando e se execrando por me ter permitido ouvir o jogo do diabo.

Muitos anos depois, numa das boates da Boca do Lixo, topei com Rui Campos, já aposentado, já adulto, cruzei com Rui Campos, veteraníssimo, aposentado, elegante como sempre. Contei-lhe, então, a minha desventura de infância:
- Cara, você quase me matou!
Calmo, como quando controlava a bola no meio de campo, Rui ouviu tudo, foi às cavernas de sua memória e de lá extraiu a resposta exata:
- Lembro, sim, desse jogo. E lembro que peguei a bola em cima da risca, com as duas mãos. O goleiro – Berttolucci ou Mário – estava batido, e a bola ia entrar.

Quanto ao menino da tv, quem sabe o que lhe vai na alma e ficará na memória para sempre. Um gol perdido, um pênalti não marcado, um gol certo que o bandeirinha abortou, a bola que o beque não rebateu, isso, aquilo e aquilo outro.

Tudo faz parte do jogo, como as lágrimas se misturam a todos os sentimentos, de tristeza à alegria. O importante é que o menino não eleja o futebol como único escape para a vida sem emoções que eventualmente o destino lhe reserve.

Há outras tantas coisas mais, meu garoto…

Notas relacionadas:

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  2. INTER, COM AS MÃOS NA TAÇA
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domingo, 19 de setembro de 2010 Campeonato Brasileiro, Futebol internacional, História | 19:33

DIGNO FLA-FLU

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Esse, sim, foi um Fla-Flu digno de sua legenda.

Entre outras coisas, porque o Flamengo, que vem capengando neste Brasileirão, aprumou-se e enfrentou o Flu, de tão grata campanha, de igual pra igual, como reza a tradição, aliás.

Foi mesmo até melhor do que o adversário, no primeiro tempo, quando emplacou 2 a 1, de virada.

Mas, no segundo, sobretudo depois da troca do zagueiro André Luís pelo meio-campista Marquinho, o Flu teve força para buscar o empate pelos pés de Rodriguinho por duas vezes. Na primeira, diga-se, um corte em David que acabou por tirar o zagueiro rubro-negro não só da jogada, mas, do campo também.

Entre um e outro de Rodriguinho, uma cobrança de falta magistral de Renato Abreu, no ângulo.

Enfim, empate de 3 a 3 que se não eleva nenhum dos dois a um degrau acima da tabela, valeu para infundir ânimo na caminhada seguinte de ambos. Afinal, o Flamengo demonstrou que pode evoluir além da simples briga para não cair e o Flu provou mais uma vez que tem alma e técnica para superar as maiores adversidades.

Tricolor do menino Lucas

São Paulo e Palmeiras, sem riscos sérios de descenso nem grandes aspirações ao G-4, já entupido de candidatos mais bem postados, fizeram uma disputa paralela ao Brasileirão, no Pacaembu.

O primeiro tempo foi uma bobagem, uma longa reticência de faltas e passes errados. Mas, no segundo, o Tricolor, sob o comando do menino Lucas, ex-Marcelinho, disparou 2 a 0 e poderia até ter ampliado o placar caso o técnico não substituísse o garoto no fim do segundo tempo.

Sim, porque Lucas estava simplesmente infernizando a defesa verde com suas investidas em zigue-zague, cheio de fintas e manhas. Foi assim que fez o primeiro gol e foi assim que meteu a bola no jeitinho para Fernandão finalizar o segundo.

Já o Palmeiras, que teve um certo predomínio na etapa inicial, não conseguiu manter sequer o ritmo no segundo tempo e deixou-se abater sem reação diante de um Tricolor mais ágil e incisivo nos contragolpes.

Ambos, contudo, continuam ali, flertando com o meio da tabela.

Charge com Lucas, ex-Marcelinho, por Milton Trajano

Charge com Lucas, ex-Marcelinho, por Milton Trajano

Inter, disparando

Em outra disputa paralela, entre os grandes campeões do primeiro semestre, o Inter começa a disparar na frente do Santos, ainda perturbado pelos ecos da caso Neymar.

Com Neymar nas tribunas do Brinco de Ouro da Princesa, o Santos dominou o Guarani, mas não finalizou. Nem precisa explicar por que, não é mesmo?

Já o Inter, no Beira-Rio, não apenas somou mais três pontos, mantendo-se numa faixa de expectativa para ainda até disputar o título, como ainda por cima quebrou a longa invencibilidade do técnico vascaíno PC Gusmão. Mas, não foi fácil.

No primeiro tempo, o Vasco foi melhor e Renan acabou sendo a figura de destaque do Colorado. Mas, no segundo, o Inter se reaprumou e fez o placar com D’Alessandro servindo Edu no único gol da partida.

Esses gringos maravilhosos

O argentino Montillo deu uma aula de como um meia autêntico deve jogar, no empate por 2 a 2, dois gols dele, diga-se, com o Botafogo, sábado, no Engenhão. Assim como D’Alessandro segue esmerilhando no Inter, como no centro exato para Edu marcar o gol da vitória do Inter sobre o Vasco. E, Conca, alma e cérebro do Flu de tão brilhante campanha no Brasileirão?

O futebol argentino foi uma grande escola de goleiros e beques, no passado, que parece ter se perdido nas últimas décadas. Mas, a dos meias, ah, essa continua em plena atividade.

O amigo talvez não saiba que muito antes de Messi, que estraçalhou mais uma vez na vitória deste domingo sobre o Atlético de Madri. E de Maradona, vários outros, destros e canhotos, se notabilizaram por lá.

Juan Manuel Moreno, por exemplo, ainda é considerado pelos viejos porteños o maior jogador argentino de todos os tempos. Era, ao mesmo tempo, armador e finalizador, de altíssima categoria, dizem. E que dizer de Angel Labruna, com seu bigodão tanguero, canhoto, lúcido, arrebatador quando partia com a bola dominada. Esse eu vi e me deslumbrei.

Ah, sim, não nos esqueçamos de Sívori, que, jogando na Itália, era considerado pelos italianos superior até mesmo a Pelé. Foram muitos os meias argentinos que nos brindaram com sua arte de controlar a bola e tocá-la com exatidão, desde Sastre, Negri, Grillo, até os nossos  – podemos assim chamá-los, né? – Montillo e D’Alessandro.

O Brasil também foi uma escola espetacular de meias inexcedíveis de Tim e Romeu a Rivaldo e Ronaldinho Gaúcho, passando por Zizinho, Jair Rosa Pinto, Didi, Rubens, Gerson, Rivellino e tantos mais. A diferença é que preferimos trocá-la pela de goleiros e beques que inundam o mundo do futebol, nas últimas décadas.

Notas relacionadas:

  1. VERDÃO SOBE E FLU DESCE
  2. CLÁSSICOS SOBRE CLÁSSICOS
  3. FLU, PERDENDO DE VISTA
Autor: Alberto Helena jr. Tags: , , , , , , , , , , , ,

quarta-feira, 28 de abril de 2010 Futebol internacional, História | 15:11

PACAEMBU SETENTÃO

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A primeira vez nunca se esquece. Eu acabara de completar oito anos de idade e ele era um ano mais velho. Conhecê-lo, finalmente, era meu presente de aniversário, promessa cumprida com relutância por meu pai, que detestava futebol, segundo ele, uma usina de fanatismos, o pior de todos os sentimentos humanos, aquele que transformava gente em animais.

E o encontro deu-se numa luminosa tarde de verão, às vésperas das festas de fim de ano, numa época em que os verões paulistanos eram ensolarados e frescos, não essa triste massa cinzenta nos céus, sufocando a cidade sob um calor úmido e grávido da permanente expectativa de tempestades.

O impacto foi como uma revelação: a profusão de cores – o verde do gramado, com suas linhas brancas, as traves brancas sustentando redes escuras -, e o murmúrio incessante daquela multidão espalhada ao longo da ferradura de concreto que se fechava numa graciosa construção em forma de concha, escoltada à direita por uma réplica da estátua de Davi, nu, do mestre florentino.

O Pacaembu era, até aquele dia, um cenário traçado apenas na minha imaginação, através das descrições dos locutores de rádio ou em retatos em branco e preto expostos nos quiosques das padarias que vendiam cigarros, charutos e quinquilharias.

Sobre o tapete verde moviam-se figurinhas que eu ia tentando reconhecer pelas fotos que recortava dos jornais e colava num álbum velho e sujo de tanto manuseio. E, claro, meus olhos encantados buscaram de início o mais famoso brasileiro das duas últimas décadas: Leônidas da Silva, o Diamante Negro, o Homem de Borracha, artilheiro da Copa do Mundo de 38, e o mais caro jogador da história até então.

Lá estava ele, camisa tricolor listrada, número 9 às costas. Um tipo baixinho, já rechonchudo no ano derradeiro de sua gloriosa carreira, lustroso em sua plena negritude, já com uma calva pronunciada, mais ainda ágil e dono de acrobática técnica para marcar dois gols. Um deles flutua na minha memória como feito de bicicleta, sua marca registrada. Mas, desconfio que não passou, na verdade, de uma puxeta trivial.

Não disse que o jogo era um clássico Corinthians e São Paulo, que encerrava o campeonato paulista de 1949, com o Tricolor já campeão. Digo-o agora. E sigo em busca dos rostos e estilos. De camisas brancas, calções negros e meias zebradas, reconheço o número 7 do Corinthians: que não se perca pelos apelidos – Baixinho e Gerente -, Cláudio Cristóvam de Pinho, domínio de bola perfeito, dribles curtos e enxutos, o suficiente para limpar a jogada e disparar cruzamentos exatos na cabeça de Baltazar, aquele negro forte, carapinha farta, que tromba no alto com Mauro, a elegância em pessoa, com ou sem a bola.

Eis que Cláudio, de súbito, sai pela direita tabelando com Luisinho, o Pequeno Polegar, canhoto, irreverente, abusado nas séries de dribles e fintas, loirinho, veloz e letal. Bola recuperada por Noronha, o Cobrinha, lateral-esquerdo de fina técnica, vai para Rui Campos, centromédio de porte e passe exato, que serve a José Carlos Bauer, o apoiador incansável com o talhe de um mâitre atravessando o salão cintilante de uma casa de chá da moda, o Mappin, talvez.

E olhe ali aquele sarará de cabelos de fogo, que dispara em alta velocidade na direção do gol de Bino. Ponce de León, óbvio, de tão trágico fim anos mais tarde.

Friaça! Cadê Friaça, o artilheiro daquele campeonato? Lá está um fio de gente, bigodinho bem aparado, fronte devastada nos flancos, soltando um foguete que leva Bino e bola ás redes.

Despeço-me do Pacaembu com o placar anunciando o empate irremissível: 3 a 3, dois de Cláudio e um de Luisinho, para o Timão; dois de Friaça e um de Leõnidas, para o Tricolor, sem saber que ele nunca mais se despediria de mim.

E deu a retranca

Só o Barça jogou. A Inter apenas se defendeu, ao longo de toda a partida. Mas, se defendeu gloriosamente, heroicamente, não dando espaços para as finalizações dos catalães, que rondavam a área interista, sem conseguir se aprofundar.

Méritos da Inter? Claro. Saber se defender também é uma arte. E a Inter fechou sua área com tal precisão que merece aplausos.

Apesar disso, perdeu o jogo: 1 a 0 para o Barça, gol do zagueiro Piqué, um dos melhores do mundo, num giro em que ele tirou de cena o zagueiro Córdoba e o nosso goleiraço Júlio César, de uma só vez, embora me parecesse impedido na hora do lançamento de Messi.

E tomou também o segundo gol, este legítimo, que o juiz anulou, o que teria colocado o Barça e não a Inter na final da Liga dos Campeões (o juiz anotou toque em lance involuntário de bola na mão de Touré, que serviu Bojan para a fnalização fatal).

Mas, enfim, cai o Barça e segue a Inter, igualmente um grande time, que, normalmente joga ofensivamente, mas que, dadas as circunstâncias do jogo no Camp Nou, apelou para a mais feroz e clara retranca.

Desta vez, deu certo.

Notas relacionadas:

  1. TIMÃO, FLA, GRÊMIO E REI BARÇA
  2. O DOMINGÃO E OS DIABOS CAMPEÕES
  3. CRISE NA LIBERTADORES
Autor: Alberto Helena jr. Tags: , , , ,

segunda-feira, 29 de março de 2010 História, Jornalismo | 15:12

LÁ VAI ARMANDO, NO SEU AVIÃOZINHO INVISÍVEL

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A última vez que nos vimos foi pouco antes de o traiçoeiro mal o atingir, num Bem, Amigos em que o convidado especial era Nílton Santos, o Espírito Santo no altar da Santíssima Trindade de seu coração apaixonadamente botafoguense – os outros dois, Heleno de Freitas e Garrincha, embora esticasse um olhar cúmplice para Didi, o Folha Seca.

Nessa noite, no restaurante do Lellis, entre tantas rememorações, cometi a indelicadeza involuntária de perguntar à Enciclopédia do Futebol sobre Stanley Matthews, aquele velhinho genial que lhe dera um baile memorável em pleno estádio de Wembley, numa excursão brasileira longínqua.

O mestre Armando Nogueira interveio, com a elegância de sempre:

- As amargas, não, Helena…

Alusão clara ao livro de memórias de Álvaro Moreyra, o Alvinho, pai do inesquecível cronista esportivo Sandro Moreyra, em que o autor, de cara, abriu mão dos episódios amargos por ele vividos ou testemunhados.

Assim era Armando, enfim, o homem, o cronista e o poeta que sempre preferiu explorar o lado lúdico da vida aos sombrios descaminhos da alma humana.

Mestre de todos nós – o Pelé dos cronistas esportivos brasileiros, já que em seus textos conjugava elegância ímpar, rigor extremo disfarçado de coloquial simplicidade, e uma cadência tisnada de discreta malícia que muitos interpretavam apenas como fina ironia.

Por isso, seus admiradores mais letrados o aproximavam de Machado de Assis, o que, cá entre nós, lhe causava certo incômodo. Não por desprezar o Bruxo, que muito o influenciou, claro, como a todos nós. Mas, porque outros autores lhe falaram ao coração, como Chesterton, por exemplo.

E, como um Saint Exupéry caboclo, deliciava-se em buscar nas nuvens, a bordo de seu ultra-leve, inspiração para a sua poética, em prosa ou verso, pois o mestre batia nas duas com igual categoria.

Podia passar o dia aqui falando de suas proezas jornalísticas, como a de ter sido testemunha ocular do Crime da Rua Toneleros, estopim para o suicídio de Getúlio Vargas, ou a foto histórica que tirou por instinto ao flagrar o técnico Zezé Moreyra desferindo um golpe de chuteiras na cabeça do ministro dos Esportes e treinador da mágica Seleção Húngara de 54, Gustav Sebes, ou mesmo de seu engenho em construir o jornalismo da Globo que revolucionou o telejornalismo brasileiro.

Assim como relatar nossos sempre amáveis encontros, embora tão esparsos ao longo dos últimos quarenta anos.

Mas, prefiro abreviar esse último aceno ao mestre, bem ao seu estilo, sem o mesmo talento. Pois, lá vai Armando, no seu aviãozinho invisível, garimpar uma nuvem branca, com listras pretas, sua morada eterna, de onde ficará nos espiando com aquele sorriso contido na alma e nos textos imortais.

Autor: Alberto Helena jr. Tags: ,

terça-feira, 5 de janeiro de 2010 História | 16:32

O CHORO DE ERASMO

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Morreu Erasmo Dias, figura odiada por minha geração, já que coronel e secretário da Segurança Pública no período mais negro da história do Brasil, e que marcou sua passagem por esse cargo público pela tempestuosa invasão da PUC, defendida bravamente pela tia do Juca Kfouri, a reitora Nadir. A quem o Traquinas recomenda todo santo dia tomar o remédio de praxe.

Pois quero dizer que tive com ele um relacionamento ambíguo: absoluto desprezo, nojo até, pelo que ele representava naquele momento da vida brasileira, e um cordial relacionamento pela figura humana, com a qual cruzava quase diariamente (melhor seria dizer: noturnamente) no restaurante Giovanni Bruno, da  rua Avanhandava, onde assisti cenas deploráveis do coronel puxando revólver por motivos fúteis, como se dizia nos boletins de ocorrências policiais da época (ainda dizem?) contra este ou aquele desafeto de plantão.

Santista roxo, Erasmo me tratava com cortesia, coisa de leitor satisfeito. Mas, sempre procurei manter mais distância do que aproximação daquele representante bem acabado da ditadura militar, o que não é fácil nesse jogo da vida, em que tantos sentimentos se entrechocam.

Talvez porque visse, através daquela pose de sargentão implacável, o machão de revólver na mão, um ser humano com todas as suas complicações, inclusive um tom de docilidade, escondida a sete chaves.

Certa madrugada, ao deixar o restaurante, ao lado de Murilo Felisberto, diretor-de-redação do Jornal da Tarde, topei com o coronel Erasmo, na rua, chorando em prantos.

Não podíamos imaginar cena mais insólita. Murilo, então, aproximou-se e lhe sussurrou algum consolo. Erasmo, então, retomou a postura de coronel e bradou:

- Quem está chorando!? Eu nunca choro!

E limpou dos olhos as lágrimas, quem sabe, de arrependimento.

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