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Arquivo da Categoria Ex-jogadores

25/09/2009 - 15:35

O SANGUE AZUL

Tivesse resistido mais uns quatro meses e poderia receber todas as homenagens em vida nas festas do Centenário do Corinthians, ele que foi o símbolo maior do coração corintiano.

Sim, porque se o Corinthians tem o coração como marca, sobretudo nos períodos das longas estiagens de títulos, nenhum outro jogador em sua história encarnou mais esse espírito de guerreiro sacrifício do que Idário Sanches Peinado, o Sangue Azul ou o Espanhol, como era carinhosamente chamado pela Fiel. Idário, Goiano e Roberto, não há quem não tenha na ponta da língua essa linha média, quando se refere ao Corinthians dos anos 50, digna sucessora de outra igualmente célebre, da década anterior – Jango, Brandão e Dino.

Roberto Belangero era o estilista, o craque, o volante de estirpe e técnica refinadas. Goiano, a sólida âncora do meio de campo, que vez por outra se projetava à frente para disparar seus chutes fortes e bem dirigidos.

Mas, Idário, esse era a paixão corintiana incorporada ao jogo, dentro da quatro linhas. Ou melhor: da linha lateral-direita, regada a sangue e suor.

De técnica reduzida, era, no entanto, um estóico. Podia levar cem dribles do ponta-esquerda, quase todos eméritos dribladores, na época, que não desistia.

E, se não acertasse a bola na centésima primeira tentativa, por certo, jogaria o adversário tinhoso no alambrado do Pacaembu, para delírio da Fiel, que dele só esperava mesmo isso.

Idário desembarcou no Parque São Jorge, em 1949, na leva de garotos forjados no Maria Zélia, clube de várzea histórico da Zona Leste paulistana, que contava ainda com o goleiro Cabeção, o lateral-esquerdo Diogo, o volante Roberto Belangero, o meia Luisinho, o Pequeno Polegar, o ponta-esquerda Nelsinho, todos integrantes do esquadrão bcampeão de 1951/52, quando o Timão quebrou o jejum de dez anos sem títulos. Feito repetido em 54, ano do Quarto Centenário de São Paulo, que, somado ao título de 1922, nos festejos do Centenário da Independência do Brasil, deu ao Corinthians o selo de Campeão dos Centenários.

Foi-se nosso Idário, mas seu nicho permanecerá iluminado para sempre na galeria dos imortais vestidos eternamente de preto e branco.

Autor: Alberto Helena jr. - Categoria(s): Ex-jogadores Tags: ,
04/09/2009 - 19:03

BRASIL E ARGENTINA, HOMEM A HOMEM

Se o amigo me permite, brinquemos um pouco, na sala de espera do grande confronto, de cotejarmos as duas equipes, jogador por jogador, pois no plano tático antevê-se uma inversão de valores: os brasileiros jogando mais ao estilo argentino e vice-versa, meu endereço, como diria o saudoso Adonirã Barbosa.

Bem, goleiro, nem se discute: Júlio César é hoje, reconhecido pela imensa maioria dos observadores mundiais, como um dos três melhores do planeta, ao lado de Buffon e de Van der Sar, embora tenhamos ainda Cech e Casillas beirando o trio, sem falar nos nossos Marcão e Rogério Ceni, que, por não servirem à Seleção, ficam meio de escanteio nessas comparações.

O certo é que Andújar nem de longe roça esse grupo de elite.

Claro, pode fechar o gol e Júlio César tomar três perus, tudo é possível, mas improvável.

Na lateral-direita, Zanetti é mais experiente e técnico do que Maicon, uma força da natureza. Diria que se trata, talvez, do melhor na posição dentre os argentinos que vi jogar nas últimas seis décadas. Mas, já está em suave declínio, sem energia para fazer a dupla função que lhe cabe. Por isso, a presença de Heinze, mais beque do que lateral (uma espécie de Marcão do Palmeiras), do lado esquerdo, o que confere a Zanetti segurança para atacar mais do que defender.

Como lateral-esquerdo, porém, André Santos, ainda que tenteando na Seleção, é mais ativo e habilidoso com a bola nos pés.

Quanto à dupla de área, nem pensar: Lúcio e Luisão formam um dueto muito mais seguro, por cima e por baixo, do que Otamendi e… creiam, Sebá.

Mascherano supera Gilberto Silva pela vitalidade e até pela técnica, embora nosso primeiro volante compense em parte pela experiência.

Já o inverso se dá quanto ao cotejo entre Maxi Rodrigues e Felipe Mello. O brasileiro só não o supera em velocidade. De resto, ganha em todos os quesitos: força, técnica e habilidade.

Comparar Verón com Elano seria covardia. Não por culpa de eventuais defeitos de Elano, nada disso. É que o gringo joga muito, apesar da idade avançada. É daqueles volantes com o dom da antevisão dos meias: toca de primeira, lança, bate na bola com veneno e potência, enfim, um maestro do meio-de-campo. Resta saber se as pernas complementarão a complexidade de seus pensamentos durante a partida.

Kaká e Dátolo? Incomparável, em todos os sentidos: afora a qualidade técnica e o status de cada um no mundo futebol, Kaká joga por dentro, é destro e combina na medida exata armação e chegada para conclusão; Dátolo, canhoto, joga mais aberto pela esquerda e, embora hábil, não tem a mesma técnica do brasileiro.

Na frente, Messi, que acabou de ganhar o prêmio de melhor jogador da temporada europeia conferido pela Uefa, está jogando há um bom tempo muito mais do que Robinho, que parece ter estagnado no seu processo evolutivo como jogador.

Por fim, Luís Fabiano e Tevez, de estilos opostos – um, mais fixo na área; outro, movimentando-se e mordendo o tempo todo. No cumprimento do que lhes destina a função, Luís Fabiano tem sido mais eficiente do que Tevez. Mas, tecnicamente, ambos se equivalem.

Assim, se fossemos montar hoje um combinado Brasil-Argentina, voto pelo seguinte: Júlio César, Zanetti, Lúcio, Luisão e André Santos; Mascherano, Felipe Mello, Kaká e Verón; Messi e Luís Fabiano. Quanto deu aí? Sete a quatro para o Brasil.

Isso tudo, porém, além de ser muito subjetivo, no fim das contas, nada terá a ver com o que se desenrolará no campo de Rosário, onde os últimos podem ser os primeiros, e, nós, profetas do passado, como diz mestre Armando Nogueira, corremos o sério risco de quebrar a cara ali na esquina.

Agora, me permita o amigo ir mais longe nesse exercício, e tentar montar aqui uma seleção dos que vi jogar nessas duas seleções tão poderosas. Lá vai (e me abaixo para receber as pedradas inevitáveis): Amedeo Carrizzo; Carlos Alberto Torres, Ramos Delgado, Passarela e Nilton Santos; Nestor Pipo Rossi, Zizinho, Pelé e Maradona; Garrincha e Di Stefano.

Mas, são tantos gênios que ficaram de fora…

Autor: Alberto Helena jr. - Categoria(s): Ex-jogadores, Seleção Brasileira Tags: ,
28/08/2009 - 15:04

LOVE E SANDRO

Finalmente, o Palmeiras fechou o negócio. E que negócio! Vágner Love, a grande revelação verde das últimas décadas, voltou ao ninho antigo. E voltou num momento de alta da equipe, que carecia justamente de um atacante de sua linhagem, desde a breve e polêmica passagem de Keirrison pelo Palestra Itália.

É verdade que Obina vem quebrando um galhaço ali no comando do ataque palestrino. Aliás, a chegada de Vágner não obrigatoriamente exclui a presença de Obina no mesmo ataque, embora mais judicioso seria colocar pelas beiradas alguém no estilo de Willians ou Marquinhos, se recuperado, tecnicamente, ao nível do que apresentava na temporada passada.

De qualquer forma, com Diego Souza e Cleiton Xavier criando jogadas para Love, o Palmeiras, já líder, ganha uma força extra para arrancar de vez em direção ao título.

A VEZ DE SANDRO

Confesso que não me surpreendo com a convocação do menino Sandro, do Inter, para o lugar de Josué na Seleção Brasileira que vai enfrentar a Argentina e o Chile, na sequência das Eliminatórias.

O rapaz joga muito bem e tem sólido currículo nas categorias de base da Seleção Brasileira. Sim, claro, Pierre, o maior ladrão de bola do futebol brasileiro há duas temporadas, mereceria também essa chamada. Aliás, Pierre tem um perfil técnico e físico mais semelhante ao de Josué do que Sandro: sai mais para o jogo, é veloz e erra poucos passes.

Hernanes também seria outra boa indicação, já que voltou a jogar bem. E não se iluda o amigo com esse papo de que Hernanes não poderia ser primeiro volante. Bobagem. Já foi, e com alto rendimento.

Mas, não considero isso um problema. O problema é que já temos um excesso de volantes na Seleção. E uma carência atroz de meias. Dunga, portanto, poderia reequilibrar um pouco esse setor com a convocação de um Diego Souza, m Cleiton Xavier, um Diego, que está jogando muito na Juventus, enfim, alguém com esse talhe técnico.

Autor: Alberto Helena jr. - Categoria(s): Campeonato Brasileiro, Clubes brasileiros, Ex-jogadores, Seleção Brasileira Tags: , ,
26/08/2009 - 17:12

À GALEGA

Conselheiro aconselha, pois não? Pelo menos, é o que sugere o nosso português. Mas, a última flor do Lácio, na casa portuguesa, recebe uma leitura inversa: conselheiro não aconselha – xinga, ameaça, e, por fim, provoca a saída do técnico Renê Simões, recém contratado, e coloca em xeque a permanência de seu melhor jogador, Edno.

Depois, reclamam que a Lusa é impedida de voltar aos seus dias de glória por culpa dos juízes, da imprensa, do diabo a quatro.

A propósito, até o Vasco, co-irmão de sangue e cruz, clama por justiça, por ter sido ameaçado pelos seguranças armados da Lusa.

Bem, sou de um tempo em que Lusa e Vasco eram unha e carne. Dois dos timaços mais poderosos e encantadores do futebol brasileiro, na década de 50. Tão íntimos, que viviam trocando craques de lá pra cá, de cá pra lá.

Só assim de cabeça, sem pesquisa, lembro-me de alguns famosos à época que trocaram de camisa: Pinga, Simão, Carlos Alberto Cavalheiro – único amador entre tantos profissionais, por ser oficial do Exército -, Ipojucã, Edmur, sei lá quantos mais.

Ah, sim, e houve o caso rocambolesco de Mário Américo, considerado então uma estrela do futebol, como massagista bicampeão do mundo pela Seleção. Tanto, que foi eleito vereador por São Paulo.

Numa certa noite sem lua, Mário Américo arrumou sua trouxa e escafedeu-se de São Januário em direção ao Canindé.

Ele era o único de quem o Vasco não abria mão. Então, fugiu para os braços da Lusa. Inevitável.

ESSE MEIAS…

Esses moços, pobres moços…, como dizia o gaúcho imortal Lupiscínio Rodrigues, no samba-canção célebre, pouco sabem sobre um passado sem imagens. Não é culpa deles, mas, sim, das gerações que os antecederam, num país que cultiva apenas a juventude e apaga a memória ao nascer de cada dia.

Os americanos e os europeus buscam, desde sempre, manter vivas as lembranças de épocas passadas, com registros que remontam até ao final do século 19. Nós, infelizmente, mal guardamos sequer os feitos prodigiosos de Pelé, cenas dos anos 60, o maior atleta do século 20.

Não temos à mão, uma imagem viva de Fried, raríssimas de Leônidas da Silva, de Zizinho, de Jair Rosa Pinto, de Didi, de Ademir da Guia, Gérson, enfim, os grandes meias armadores da nossa história. E aqui estou excluindo os outros meias, pontas-de-lança, os meias ofensivos, tipo Kaká, por exemplo.

Na verdade, eles funcionavam como segundos volantes, de acordo com a nomenclatura atual.
Marcavam e armavam. Marcavam como volantes ou médios, e armavam como meias, com as exceções de praxe, como Rivellino, Jair, Aílton Lira etc, que apenas armavam e não marcavam.

O que mudou de lá pra cá foi a cabeça dos nossos treinadores, que, por segurança excessiva, preferiram abdicar desse tipo de jogador por um segundo volante,  transformando-o num terceiro jogador de meio-de-campo.  O que já se revela, sobretudo nos principais times da Europa um retrocesso, não um avanço como querem nos fazer acreditar.

A FRESTA DA JANELA

A janela europeia já começa a fechar – faltam quatro dias -, e os clubes brasileiros estão praticamente incólumes. Houve algumas defecções, é verdade. Mas, nada traumático.

É que o cenário mundial mudou, com a crise econômica global. Os clubes europeus preferiram, pelo jeito, investir em contratações dentro de sua comunidade, o que lhes dá mais segurança. Isto é: se investirem em jogadores que já estejam em atividade na Europa, podem utilizá-los de imediato, pois esses já estarão habituados aos usos e costumes do continente.

Já um jogador que sai daqui pela primeira vez exige um tempo de adaptação, em geral, um ano. Casos como o de Kaká, que desembarcou no Milan e saiu jogando tudo o que sabe são raras exceções.

Contudo, antes de abrirmos o champanhe da celebração, é bom ficar com um pé atrás, até a o trinco da janela virar. Pois, esgotadas todas as possibilidades externas, os europeus virarão sua mira para este continente, em recurso extremo.

JOGO ISOLADO

Botafogo e Cruzeiro se enfrentam nesta quinta no Engenhão, ambos com um jogo a menos do que a maioria. O bota está lá embaixo; o Cruzeiro, quase. Jogo, portanto, decisivo para ambos: um, para sair do sufoco; outro, para encetar a reação que o poderá levar ao G-4. Desconfio que seja o ponto de inflexão dos azuis. Apenas desconfio.

Autor: Alberto Helena jr. - Categoria(s): Campeonato Brasileiro, Clubes brasileiros, Ex-jogadores Tags: , , , ,
03/08/2009 - 15:29

LEMBRANDO DR. RÚBIS

O saudoso jornalista e escritor Mário Filho, autor do melhor livro sobre futebol já publicado no Brasil – O Negro no Futebol Brasileiro – e que deu nome ao Maracanã, costumava dizer que havia um elástico virtual, invisível, ligando a bola à chuteira direita de Rubens, o Dr. Rúbis, assim chamado pela torcida do Flamengo, nos anos 50, quando ele regia em campo uma equipe espetacular, tricampeã carioca duas vezes, se não me falha a memória – aquela de Joel, Evaristo, Jadir, Dequinha e Jordan, Pavão, Zagallo, Índio, Dida, Babá etc.

Lembrei-me de falar de Rubens – a pedido de um dos nossos bloquistas -, diante dessa sombria ausência de meias talentosos no futebol brasileiro de hoje em dia, aqueles jogadores que sempre foram o sal do jogo.

Rúbens, até onde sei, segundo me informou certa vez seu xará Minelli, com quem bateu bola na várzea paulistana e, juntos, foram para o Ypiranga de grata memória, nasceu lá pelo Bom Retiro. Mas, foi no Sacomã que surgiu para o futebol, nos finais dos 40, formando naquele ataque inesquecível: Liminha, Rúbens, Silas, Bibe e Valter ou Minelli ou Paulo.

Rúbens era um negro de rosto de lua cheia, cujo domínio de bola era simplesmente magnético. A bola colava ao seu pé direito de onde só se despreendia quando o craque decidia enviá-la em exatos lançamentos ou em passes medidos. Antes disso, o amigo podia contar algumas fieiras de dribles que levavam a platéia (e aqui cabe bem a expressão platéia) ao delírio.

Mas, antes de chegar ao Flamengo, Rúbens teve breve passagem pela Portuguesa mais linda de se ver na história, aquela de Djalma Santos, Brandãozinho e Ceci; Julinho, Rúbens, Nininho, Pinga e Simão.

E, depois do Fla, ainda brilhou no imorredouro Vasco de 58, de Ecio, Orlando e Coronel; Sabará, Almir, Vavá, Rúbens e Pinga, time que encarou de frente o Real de Di Stefano, Puskas, Kopa e tantas outras estrelas internacionais.

Na Seleção, Rúbens teve poucas chances, entre outras coisas porque pegou a passagem de bastão de dois gênios da armação, de Zizinho para Didi, de quem foi reserva na Copa de 54, na Suécia.

Morreu, em 87, antes de completar 60 anos, pobre e esquecido, a não ser por uns poucos que se deslumbraram com seu jogo feito de encantos e glórias.

Autor: Alberto Helena jr. - Categoria(s): Ex-jogadores Tags: , , , , , ,
20/07/2009 - 16:12

OS TRÊS PARAÍBAS

Nem sei se os três vêm mesmo lá das terras machas de João Pessoa, Nicodemus Pessoa e Moacir Japiassu, ou se carregam o apodo pelo mau vezo carioca de chamar Paraíba o migrante nordestino em geral, como os paulistas o chamam de baiano.

Só sei que há três Paraíbas comendo a bola nestes campos brasílicos. Dois deles defendem a camisa do Coritiba, que enceta vívida reação, largando a lanterna e ascendendo já às posições intermediárias da tabela do Brasileirão: o eterno Marclinho e o novato Carlinhos.

Marcelinho, que ganhou projeção no São Paulo, fama e fortuna na Alemanha, jogou pela Seleção, passou de passagem pelo Flamengo antes de se firmar no Coritiba, é daqueles canhotos engenhosos, incisivos, que tanto pode jogar aqui atrás armando, quanto lá na frente, agredindo. Ainda outro dia, fez um golaço, metendo de esquerda, da meia direita, quase ponta, na gaveta oposta.

É a mola propulsora da recuperação do Coritiba, sem dúvida. Mas, conta, para tanto, com o empenho e o talento de outro Paraíba, o meia Carlinhos, também canhoto, desenvolto, múltiplo, que já se destacara no Brasileirão passado.

Por fim, o terceiro Paraíba: aquele cabeludo ao estilo Valderrama, que atende pelo nome de Nei e joga no Guarani de tão brilhante campanha na Série B.

Na teoria é o camisa 9 do líder da Segundona. Na prática, é um mutirão. O bicho está em todo o lugar do campo, incansável, hábil e contundente quando se aproxima da área inimiga.

Os três honram o estado que num dia longínquo ousou ser mais solidário do que os demais.

Autor: Alberto Helena jr. - Categoria(s): Campeonato Brasileiro, Ex-jogadores Tags: , , , ,
11/05/2009 - 15:07

O GOL DE NILMAR E PAGÃO

 

Nilmar, por Milton Trajano
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O gol de Nilmar contra o Corinthians sinaliza para além de uma jogada pontual, restrita àquele momento mágico de uma partida de futebol. Revela a luz no fundo do túnel desse jogo, que parece começar a reatar seu vínculo com o que de melhor nos ofereceu a história até aqui: o craque recebeu a bola na direita de seu ataque e, em sinuosa linha transversal, foi comendo um a um, os cinco defensores do Corinthians, até estancar na meia-esquerda, de onde disparou um tiro cruzado, colocado, no cantinho esquerdo de Felipe.

Gols desse tipo temos visto sairem dos pés de Messi, de Cristiano Ronaldo, de Kaká, os mais badalados craques da atualidade no mundo inteiro. Mas, Nilmar me faz lembrar mesmo é de Pagão, centroavante da era dourada do Santos, anterior um pouco a Pelé, com quem, depois, fez dupla infernal. Aliás, a tão celebrada tabelinha Pelé-Coutinho nasceu mesmo com Pagão-Pelé.

Detalhe esguio e um jogo veloz, hábil, fluido, leve, quase diáfano, Pagão, como Nilmar, era vítima de um preconceito que já fechou as portas da Seleção Brasileira a muitos jogadores geniais: era considerado frágil demais para enfrentar europeus, uruguaios e argentinos. E, a exemplo de Nilmar, era refém de contusões recorrentes, a partir de complicações nos joelhos, numa época em que isso era fatal.

Assim como Nilmar, que há tempos merece convocação, em toda a sua brilante carreira, Pagão só teve duas raras chances na vida de vestir a camisa canarinho, em dois amistosos com Portugal, onde o vemos posando ao lado de Garrincha, Didi, Del Vecchio e Canhoteiro, nas fotos históricas. Meu Deus!

Vi esses dois jogos. No primeiro, Pagão foi substituído por Moacir, meia do Flamengo. No segundo, por Mazzola, que estreava na Seleção. Ambos – Moacir e Mazzola – acabariam, no ano seguinte, se sagrando campeões do mundo. E Pagão, nunca mais. Mesmo porque, na convocação seguinte, contra a Argentina, Pelé, aos 17 anos, tomaria seu lugar para encantar o mundo por quase duas décadas.

Torço para que não seja esse o mesmo destino de Nilmar.

Autor: Alberto Helena jr. - Categoria(s): Campeonato Brasileiro, Ex-jogadores Tags: , , , , ,
23/04/2009 - 17:02

NA ARENA, O ÓBVIO

Maravilhoso esse Arena Sportv do Cleber Machado desta quinta-feira, com a participação de dois dos maiores laterais-direitos da história do nosso futebol – Carlos Alberto e Leandro – mais Casão, Bodão e Carsughi.

Durante o papo, houve um consesnso de que o futebol braisleiro, no geral, deve se reencontrar com a sua escola, sua história:: um espetáculo sem igual, combinação exata de arte e eficiência.

No confontro entre dois dos nosso maiores laterais, coisas diferentes. Por exemplo, quem foi melhor Carlos Alberto ou Leandro? Tecnicamente – isto é, os fundamentos do jogo, passe, cruzamento, domínio de bola etc  ambos se equivaleram, A diferança básica era que, se LeaNdro possuia mais habilidade, Carlos Alberto tinha muito maior imposição. Era, basicamente, um líder.

Antes deles, tivemos o eterno Djalma Santos, cujo estilo e perfil se assemelhavam muito ao do Cafu, que os procedeu, embora mais espetaculoso, cheio de jogadas pirotécnicas.

Mas, que disseram Carlos Alberto, Leandro, Bodão, Casão e cia,? Disseram que já passou da hora de o futebol brasileiro se reencontrar de vez com sua própria escola de jogar bola.

Temos que prIviegiar os jogadores de técnica e habilidade superiores, temos de abandonar o conceito do futebol de resultado, que conduz a um jogo excessivamente defensivo, como forma de os técnicos garantirem seus empregos, e vai aí vai.

Tudo o que tenho dito, aqui e alhiures. Será possível que a turma não entenda?

Autor: Alberto Helena jr. - Categoria(s): Ex-jogadores Tags: , ,
19/03/2009 - 18:57

MÁRIO E OS DEUSES DO FUTEBOL

Estava aqui, no meu doce auto-exílio da caverna de Ibiúna, relendo Os Filhos da Candinha, coletânea de crônicas de Mário de Andrade, Pai do Modernismo, para desgosto do magnífico escritor e cronista Carlos Heitor Cony, que, por força de seu carioquismo-anti-paulista, considera que a literatura brasileira só avançou depois de ter tomado o suco de caju, com garapa e água de coco, batido por Zé Lins do Rego, Rachel de Queiroz, Jorge Amado etc., quando deparo como suelto intitulado Brasil e Argentina.

Mário descreve, então, um jogo entre Brasil e Argentina. Pela Copa Roca, em 1939, em São  Januário, período em que o autor de Macunaíma, a eterna rapsódia sobre o caráter do brasileiro, viveu no Rio.

Eram tempos em que os argentinos viviam nos dando sovas homéricas. E não ficou por menos, nesse jogo: 5 a 1, com dois gols de Moreno, que, até o aparecimento de Maradona e o desaparecimento das testemunhas do meia do River, era considerado o maior jogador argentino de sempre.

E olhe que lá estavam, entre os brasileiros, alguns dos monstros sagrados do nosso futebol, como Domingos da Guia, o Divino, Leônidas, Tim, Romeu etc.

Mas, o que nos interessa é o seguinte. Mário, que na crônica havia sentido a fisgada de um amigo urugaio pró-Argentina, de repente, compara os dois times a um trator massacrando beija-flores. O trator eram os argentinos; os beja-flores, os brasileiros.

E encerra sua crônica assim:

Era Minerva dando palmada num Dionísio adolescente e já completamente embriagado. Mas, que razões Dionísio inventava para justificar sua bebedice, ninguém pode imaginar! Havia umas rasteiras sutis, uns jeitos sambísticos de enganar, tantas esperanças davam aqueles volteios rapidíssimos, uma coisa radiosa, pânica, cheia das mais sublimes promessas! E, até o fim, não parou de prometer… Minerva, porém, ia chegando com jeito, com uma segurança infalível, baça, vulgar, sem oratória nem lirismo, e, juque!, fazia gol.”

Minerva, a deusa da sabedoria, era o time argentino daqueles tempos; Dionísio, o deus da criatividade e da esbórinia, éramos nós.

Ah, sim, no jogo seguinte, o Brasil meteu 3 a 2 na Argentina, com aquele pênalti célebre de Perácio cobrado sem goleiro, pois os argentinos abandonaram o jogo.

O  certo é que, passados setenta anos desse evento, nem os argentinos não são mais Minerva, nem os brasileiros, Dionísio. Simplesmente, o Olimpo se dissipou na névoa do passado, e todos somos igualmente meros e insípidos mortais, com uma ou outra exceção.

Autor: Alberto Helena jr. - Categoria(s): Ex-jogadores, Seleção Brasileira Tags: , , , , , , , , ,
12/03/2009 - 18:23

BANGU, UM TRAVO AMARGO

Eu vi, meninos, Bangu e Resende. Creiam aqueles que me acusam de só dar atenção ao futebol paulista.

E o que vi me deixou um travo amargo: joguinho ruim, juiz, pior ainda, além de me remeter a um passado de glória do Bangu, onde se revelaram os Divinos Da Guia, Pai e Filho. O Espírito Santo, Zizinho, que se não foi uma revelação de Moça Bonita (nome tão idílico só se compara ao do Brinco de Ouro da Princesa, do Guarani), foi a maior transação até então da história do nosso futebol.

Foi mais ou menos assim. Silveirinha, dono da Fábrica de Tecidos Bangu, um portento da indústria têxtil do Brasil nos anos 40/50 e do clube que levava o nome de sua empresa, queria porque queria no Alvi-rubro a maior estrela do futebol brasileiro da época, cria e ídolo do Flamengo, o Leonardo da Vinci da Copa de 50, Mestre Ziza.

Então, fez uma oferta mirabolante pelo passe do craque: 1 milhão de cruzeiros, algo incapaz de ser traduzido para os valores atuais, devido às inúmeras mudanças cambiais e do valor da nossa moeda, de lá pra cá. Mas, era uma fortuna. Tamanha, que o presidente do Flamengo balançou o suficiente para chamar Zizinho à sua sala querendo saber como o craque reagiria diante de tal oferta.

Zizinho simplesmente olhou nos olhos do presidente e sentenciou, sem mesmo saber o que lhe caberia no negócio.:

- Se o Flamengo não me quer mais, não quero mais o Flamengo. A partir de agora, sou jogador do Bangu.

 E, durante cabalísticos sete anos, Zizinho fez história no Bangu, até se transferir para o São Paulo, onde comandou a conquista do título paulista de 57.

Nesse período, o Bangu, que já fizera furor décadas antes com seus célebres Mulatinhos Rosados, por ter sido, juntamente com o Vasco, um dos primeiros clubes do Brasil a abrir suas portas caiadas para negros e mulatos, montou timaços, ganhou títulos e encantou a todos com equipes em que desfilaram Rafagnelli, Sula, Zózimo (bicampeão mundial pelo Brasil), Vermelho, Décio Esteves, Calazans, irmão de Zózimo, e tantos outros.

Hoje, nem é pálida lembrança daquele Bangu, infelizmente.

Autor: Alberto Helena jr. - Categoria(s): Campeonatos Estaduais, Ex-jogadores Tags: , , , , , , , , , , , ,
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