Durante décadas e décadas, sempre que a Seleção Brasileira se dava mal numa Copa do Mundo ou mesmo nos torneios continentais, a culpa do desastre estava implícita: falta de organização, pois craque temos de sobra.
Desta vez, porém, a situação foi inversa. Não faltou organização, até excessiva no tocante à disciplina interna do grupo de jogadores. Trancou-se a turma num quartel ou mosteiro, como queiram, fez-se uma lavagem cerebral completa nos jogadores, elegeu-se a imprensa como a grande inimiga da Seleção, e demos com os burros n’água, literalmente.
Faltou mesmo foi craque. Fruto dessa obsessão dos nossos treinadores em geral pelo tal futebol de resultados, desde as equipes de base dos clubes até o topo da pirâmide. Vezo que tomou conta do nosso futebol há, por baixo, duas décadas.
Não sou daqueles oportunistas, que, ao cabo de uma derrota, sai por aí clamando por mudanças radicais, como se o resultado de uma derrota num jogo de bola fosse o apocalipse.
Mas, há anos venho advertindo para os riscos desse distanciamento progressivo e letal das nossas origens futebolísticas, daquilo que o brasileiro soube desenvolver como nenhum outro no mundo – o jogo jogado com engenho e arte.
Portanto, sinto-me à vontade para botar a boca na vuvuzela e clamar por uma mudança radical nos rumos do nosso futebol.
Com o fracasso do nosso time na Copa da África e a perspectiva do próximo Mundial no Brasil, está mais do que na hora de cartolas, técnicos e mídia partirem para um mutirão em busca da nossa identidade perdida.
OS FINALISTAS
Enfim, teremos um novo campeão mundial. E, mais: o primeiro campeão mundial europeu a conquistar o título fora de seu continente, feito até agora reservado a dois sul-americanos – Brasil e Argentina.
A Holanda bem que merece, pois parte para a sua terceira final de Copa do Mundo. Em 74, assombrou o mundo com a já mítica Laranja Mecânica; e, em 78, deixou escapar o título naquela bola na trave da Argentina, de Resembrinck, no finalzinho da decisão. E sempre primou por um futebol técnico e ofensivo.
Houve, porém, outras duas gerações de ouro da Holanda que nem chegaram lá, embora também merecessem, talvez, mais do que a atual. Basta lembrar aquele time de Reijkaard, Gullit e Van Basteen. E a de Davids, Seedorf, Overmars, Kluivert e cia. bela.
Já a Espanha, que chega como uma Fúria e parte feito brisa de verão, tem na atual seleção sua melhor safra.
Aquela que pratica o futebol mais próximo do nosso glorioso passado, feito de toques, tramas inesperadas, muita movimentação e com o olho fixo no ataque. Pena que não tenha um goleador do porte de um Butragueño, por exemplo, para se esbaldar com aqueles passes e enfiadas magníficos de Xavi e Iniesta.
Aliás, se fosse aqui, de cabeça, correndo o risco de cometer graves injustiças, escalar uma Seleção da Espanha das que vi em ação, diria que, além de Butragueño, entrariam apenas, do passado, o goleiro Zubizarreta (Zamora é uma legenda de um tempo que não vivi) e Guardiola no lugar de Xabi Alonso ou Busquets.
Contudo, n Holanda, ah, quantos: Van der Sar; Suurbier, Reijkaard, Frank de Boer e Von Bronckhorst; Seedorf, Neskeens, Cruyjff e Gullit; Van Basteen e Robben. Como se vê, apenas dois do time que pode muito bem ser campeão do mundo neste fim de semana.
DESENCANTO JAMAICANO
Ao partir de volta de Johanesburgo, dividi o táxi até o aeroporto com um hóspede do hotel em que estávamos e seu filho, um garoto esperto de 11 anos de idade. Trevor é jamaicano, economista que presta serviços para o FMI e que aprendeu a falar português ao participar das negociações entre o governo brasileiro e aquele órgão internacional, anos atrás.
Deixou a mulher e a filha adolescente em casa, e partiu com seu menino para a África do Sul, repetindo o gesto de seu pai, nascido em Trinidad e Tobago, que, em 1970, levou o pequeno Trevor para ver o Brasil no México.
Tervor ficou tão encantado com a bola dos brasileiros que resolveu homenagear aquela seleção de ouro dando o nome de Jair ao garoto que o acompanha no banco de trás do táxi. Jair, de Jairzinho, o nosso Furacão.
Queria, de coração, que o filho tivesse o mesmo encantamento ao ver o Brasil em campo. Infelizmente, foi uma enorme decepção.
O que afinal aconteceu com o futebol brasileiro de tantos artistas da bola, como Pelé, Jairzinho, Gérson, Tostão, Rivellino, ou mesmo dos dois Ronaldos, de Rivaldo, de Romário ? – perguntava-me o economista jamaicano, com amargura na voz.
Se tivesse seu e-mail, mandaria a crônica de abertura desta coluna. Talvez, ele conseguisse chegar perto da resposta à sua pergunta.