Há muitos anos, o ex-técnico José Sarno, que, nos anos 50 foi zagueiro e lateral do Palmeiras, Santos, Botafogo, entre tantos outros, escreveu um dos raros livros sobre futebol na época: Futebol, a Dança do Diabo.
Falava, sobretudo, da vida cigana dos treinadores de futebol de sua geração, uma dança eterna da cadeira – esse entra e sai, essa troca de cadeiras constante nos clubes brasileiros. A única diferença está na conta corrente dos mais famosos – ganha-se muito mais hoje do que antigamente, claro.
Enfim, Papai Joel deixou o Botafogo chorando, enquanto a turma do Flu sorri com a possibilidade de levá-lo de imediato às Laranjeiras, sobretudo depois de ter sido recusado por uma pá de treinadores, até mesmo do iniciante Kleina, da Ponte.
E olhe que, com seu jeitão paterno e parceiro, bem que Joel pode dar um jeito no Flu.
Já Adílson, dispensado outro dia pelo Santos, um dos tantos que recusaram o Flu, pode desembarcar em General Severiano para sentar na cadeira de Joel, sem prancheta, óbvio.
Enquanto isso, o vizinho aqui do lado da minha caverna em Ibiúna, Muricy, de papo pro ar, uma Bohemia gelando no balde, só espera o tempo passar mais um pouco para assinar com o Santos.
Contudo, apressou-se em remover um eventual obstáculo, ao anunciar publicamente que pretende respeitar o DNA do Santos, como gosta de dizer o presidente Luís Álvaro. Ou seja: respeitará a vocação ofensiva do time.
Mas, todo esse cenário pode virar de cabeça pra baixo se Abel Braga, lá das arábias, enviar um e-mail do tipo “sim, quero voltar”. Aí, todos os clubes cairão sobre ele feito urubus esfomeados. Nem só os sem-técnicos. Que moral, hein?
O FLU, AGORA
Falando em Fluminense, se ainda não conseguiu um técnico efetivo, já contratou um interino. Trata-se de Enderson Moreira, ex-Inter B, aquele projeto abortado recentemente pelo Colorado.
Não sei dos dotes do moço. Mas, ao escalar o Flu para o confronto com o América do México, amanhã, pela Libertadores, pareceu-me bem focado, ao escalar o novo meio-campo e o velho ataque tão sonhado pelos tricolores: Valencia, Diguinho, Souza e Conca; Emerson e Fred, com Deco, ainda não refeito de todo de grave lesão, no banco.
Essa formação sugere um time mais articulado, capaz de, se todos jogarem o que sabem, passar sem grandes sustos pelos mexicanos. Mas, será preciso suar sangue para tanto. E, principalmente, ter cuca fresca.
LEANDRO DAMIÃO
Leandro Damião, centroavante do Inter badaladíssimo pela crônica gaúcha, extasiada por sua volúpia de gols, um atrás do outro, é chamado por Mano para ocupar o lugar de Pato, que por sua vez recupera-se de lesão nos braços da filha do Duce Berlusconi, dono do Milan e das noites de Milão.
Como me disse ainda ontem o meu querido Professor, Ruy Carlos Ostterman, o menino não é de prosopopeias com a bola. Mas, tem todas as técnicas de um artilheiro de respeito: bate bem com as duas, cabeceia como poucos, sabe fazer a parede lá na frente para os companheiros e tudo o mais do gênero.
Confesso que vi Leandro Damião em ação poucas vezes. Mas, do que vi, gostei.
PROTAGONISTAS & FIGURANTES
No Bem, Amigos de ontem, o Galvão Bueno, lá de Lisboa, levantou a bola que anda quicando por aí: há uma legião de excelentes jogadores brasileiros na Europa, mas nenhum deles é protagonista, uma dessas estrelas que brilharam por lá nos últimos anos, tipo Ronaldo Fenômeno, Romário, Rivaldo, Ronaldinho Gaúcho e Kaká, o último dos moicanos, todos eleitos o melhor do mundo pela Fifa, alguns deles, mais de uma vez.
E, pode-se transferir isso até para a Seleção de Mano, onde não temos um nome que carregue a bandeira do melhor futebol do mundo.
O que, afinal, está acontecendo com nossos craques?
Simples: estamos num processo de transição de gerações.
Ou melhor: mais do que mera transição, passagem natural, essas coisas, mas, sim, um salto sobre o vácuo formado pela abrupta queda de rendimento de Ronaldinho Gaúcho e de Kaká, que deveriam, pela idade e currículo, estar neste momento no auge de seus respectivos brilhos.
Kaká, pela séria lesão que o deixou praticamente um ano fora de cena. Lesão, aliás, que inclusive não lhe permitiu cumprir uma Copa do Mundo à altura das expectativas. Na verdade, duas. E, Ronaldinho, sei lá por que, não chega aos pés daquele Ronaldinho mágico do Barça.
O fato é que ambos deixaram a bola pingando no vazio, nesse campo dos sonhos.
E os que podem retomá-la em alto estilo não estão na Europa e sim aqui no Brasil, segundo as avaliações dos dois craques incomparáveis, convidados do programa, Rogério Ceni e Marcos, que logo listaram três nomes: Ganso, Neymar e Lucas.
Todos, porém, começaram ontem suas carreiras. E, apesar do evidente potencial de cada um, ainda não dá para prever com exatidão o alcance do êxito futuro, embora, particularmente, eu creia que chegarão lá, mais cedo ou mais tarde.
Pena, por exemplo, que nossa apressada e um tanto leviana mídia tenha estigmatizado Neymar, por algumas irresponsabilidades próprias de menino, como indisciplinado. A ponto de um jornal espanhol estampar o seguinte sobre o interesse do Barça pelo garoto: “Gênio, mas indisciplinado”.
Foi, em apenas um episódio. Não é, necessariamente. Aliás, Ney Franco que com ele conviveu durante dois meses, durante a campanha vitoriosa do Sul-Americano Sub-20, foi enfático – o quanto enfático pode ser um autêntico mineiro – que não constatou um traço sequer de indisciplina no caráter e no comportamento do jogador. Ao contrário: descreveu-o como parceiro e alegremente integrante do grupo, nos bons e maus momentos.
Mas, enfim, é o que temos: três meninos carregando o pendão da esperança, à espera de que o tempo cumpra seus desígnios.