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Arquivo da Categoria Clubes brasileiros

terça-feira, 30 de dezembro de 2008 Clubes brasileiros, Sem categoria | 13:21

ENTRA ANO, SAI ANO… (2)

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Diante de alguns comentários dos amigos bloguistas, vale esclarecer alguns pontos a respeito dos campeonatos estaduais.

O primeiro é que não proponho a pura extinção desses torneios, que, diga-se, só são disputados no Brasil. No resto do mundo, não há campeonatos estaduais ou provinciais, como queiram. Há apenas os campeonatos nacionais, intercalados pelas copas, domésticas ou continentais. Imploro tão-somente pelo período de um mês de pré-temporada para todos os clubes, indistintamente.

Claro que cada estado, cada região, tem suas peculiaridades que merecem ser atendidas. Nos estados que eventualmente não haja nenhum representante no Brasileirão, em suas variadas séries, justifica-se plenamente um campeonato regional que ocupe a temporada inteira. Cada um deve avaliar o que mais lhe convém, óbvio.

No caso específico de São Paulo, que terá seis clubes disputando o Brasileirão do ano entrante, além dos dois na Libertadores, mais ainda se faz necessário dar-lhes esse prazo básico de preparação. Não só para benefício dos representantes desse estado nas competições mais importantes do nosso futebol. Mas, sobretudo, para o próprio campeonato paulista.

Sim, porque o São Paulo, por exemplo, campeão brasileiro, já anunciou que começará o torneio estadual com um time misto, pois, pensando na Libertadores, quer afiar devidamente sua equipe titular.

Palmeiras e Santos, que sofreram fundas reformulações de elenco, por certo, não conseguirão participar das rodadas iniciais em plena performance, óbvio. Dos grandes, só o Corinthians chega mais animado, porque teve mais tempo para descansar a tropa e reativá-la, ao conquistar o título da Segundona com muita antecedência.

Ora, o torcedor nem quer saber quem pintou a zebra. Se o time começar a vacilar nas primeiras rodadas do Paulistão – como, aliás, ocorreu no ano passado -, sobrevêm, inevitavelmente, as crises de várias dimensões, que podem até prejudicar o resto da temporada.

Portanto, melhor seria se o Paulistão começasse em fevereiro, num fomato de copa, mata-mata, e não nessa fórmula falida e esdrúxula de um turno corrido, seguido do mata-mata final. Sei lá, os vinte clubes divididos em cinco chaves de quatro participantes, em dois ou três turnos, de acordo com as datas disponíveis. Os campeões das chaves disputariam o título de um turno. E os campeões dos turnos, o título.

O certame todo estaria recheado de emoção (leia-se, rentável), além de tecnicamente mais conveniente para todos. E por que não é algo no gênero? Simplesmente, porque o presidente da FPF, para se eternizar no cargo, precisa dos votos dos pequenos, que representam a maioria. E os pequenos querem todos eles jogar contra todos os grandes, pelo menos uma vez, para salvar as receitas que eles são incapazes de produzir num nível alto pelas próprias pernas.

Quando o Brasileirão não tinha as dimensões que ganhou neste século, e a Libertadores era desprezada pelos brasileiros, tais esquemas se justificavam em parte. Mas, já nos anos 70 e 80, davam claros sinais de esgotamento. Mesmo porque a tendência à clobalização, cada vez mais forte, indica no sentido contrário à regionalização, ao paroquial.

E não me venham com aquela velha perguntinha: “E os coitadinhos dos pequenos, vão morrer de inanição?”.

Se for o caso, vão, sim. Pois futebol é um macro negócio na área do entretenimento e da alta competitividade, não um provedor de assistencalismo aos mais fracos. Ao contrário: é onde a lei do mais forte, do mais apto, se torna mais feroz, quer gostemos ou não.

Nem se o ano tivesse mil meses, caberiam todos os clubes brasileiros numa só série durante toda a temporada. Sempre, a imensa maioria ficará à margem da mesa do banquete real. Isso é inevitável. Cabe a cada um deles, no seu patamar, ajeitar-se, não apenas para sobreviver, mas, também, ascender por suas próprias forças.

Sei que não é nem um pouco cristão dizer-se isso em plena celebração das festas natalinas. Mas, nas arenas de disputa, desde o circo romano, o cristão é sempre a primeira vítima.

Notas relacionadas:

  1. JOGO DE CONTRADIÇÕES
  2. CADA RODADA, UMA ENXADADA
  3. UM RIO-SÃO PAULO DE MERCADO
Autor: Alberto Helena jr. Tags: , , ,

sábado, 27 de dezembro de 2008 Clubes brasileiros | 09:44

ENTRA ANO, SAI ANO…

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Leio que o Galo, depois de dez anos, volta a cantar em outros terreiros. Desta vez, ao lado do rival Cruzeiro, no Uruguai, disputando um torneio de verão.

Sim, sei bem que é ali na esquina, mas sempre é alguma coisa além das fronteiras.

Esse, aliás, era um hábito fecundo em passado um tanto remoto, pois mantinha  nosso futebol em contato com as demais escolas, antes da era da globolização. 

Todos os anos, desde a metade do século passado, pelo menos, os clubes brasileiros participavam de torneios internacionais em todos os cantos do mundo no início da nossa temporada – janeiro, fevereiro, por aí. Isso, quando não promoviam por aqui certames desse tipo, importando times famosos do resto do planeta. Sem contar as longas peregrinações dos times brasileiros fosse pelas Américas, fosse pela Europa.

Eram tempos em que os campeonatos estaduais tomavam conta do nosso calendário, com todos os arranjos domésticos possíveis para que os grandes clubes brasileiros pudessem cumprir tais agendas sem grandes prejuízos. Ao contrário: enchiam os cofres com dinheiro forte.

A partir da década de 70, com o advento do Campeonato Nacional e seu inchaço absurdo, cevado pelo slogan da ditadura – Onde a Arena vai mal, um time no nacional -, essas práticas passaram a diminuir, até praticamente a extinção.

O Nacional, que virou Brasileirão, desde que se estruturou há poucos anos no formato de turno e returno, pontos corridos, sem quebra de regras – sobe quem sobe, cai quem cai etc. -, com datas rígidas, essas coisas mínimas mas essenciais, deixou de ser o empecilho para tais contatos internacionais.

O nó é o estadual, que retira dos clubes o tempo necessário para uma pré-temporada decente, fôlego para toda a longa caminhada até as férias de fim-de-ano, impedindo-os de testar suas equipes justamente nesses torneios de tiro curto e diversão garantida.

Resultado: os grandes começam a perceber que não dá para abarcar o mundo com as mãos. É preciso dar prioridade a esta ou àquela competição, se quiser sobreviver dignamente nas mais importantes. E, para o futebol brasileiro de hoje em dia, as mais importantes são o Brasileirão e a Libertadores, ponto final.

Pegue-se esse esdrúxulo e anacrônico campeonato paulista, que terá uma maratona de jogos para que se escolha aquele octeto que, aí, sim, num mata-mata, decidirá o título.

A turma volta de férias, espreguiçando-se ainda, digerindo os comes e bebes das festas de fim-de-ano e do sagrado ócio, e já cai na disputa assim, direto. Não só corre o risco de ir mal no estadual, gerando crises, às vezes, fatais, como pagará lá na frente – na Libertadores e no Brasileirão – a falta de energia que não foi acumulada quando deveria, aqui no começo de tudo.

Não há nutricionista no mundo que deixe de recomendar o óbvio: um sólido desjejum e um frugal e leve jantar. A pré-temporada é o desjejum de um time de futebol. Pois, é esse pão que as federações estaduais tiram da boca dos times, só para atender seus mesquinhos interesses eleitorais.

Autor: Alberto Helena jr. Tags:

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008 Clubes brasileiros | 13:48

BASTA UM!

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Alguns bloguistas civilizados vivem me pedindo para bloquear essa enxurrada de comentários chulos e primários. Digo que não, por uma razão básica: se bloquear a expressão dessa turma, ela simplesmente se transferirá para outro espaço, onde encontrará recíproca do seu nível. Isto é: cortejando o sucesso, refletido na audiência, no número de comentários enviados, o blogueiro da hora haverá de insistir nos temas e na linguagem mais acessíveis a esse pessoal.

Decididamente, não é esse meu propósito de vida. Se fosse, há muito tempo, com os conhecimentos que tenho de comunicação em todos os veículos, teria saído por aí  feito aquele personagem de Rede de Intrigas que passou a incitar o telespectador a gritar qualquer bobagem nas janelas e, no ocaso de sua carreira, atingiu o auge da audiência, antes de se matar.

Ao contrário, entre tantos capítulos de minha carreira, um me é muito caro e paradgmático.

Lá pelos anos 80, comandava um programa jornalístico na TV Gazeta, chamado Nosso Jornal, que ia ao ar das 9 da manhã à 1 da tarde. Nesse tempo, ainda não havia Internet, e a interatividade com o telespectador era feita pelo telefone.

Pois, bem. Havia um telespectador assíduo – desempregado, pai solteiro de filhinha que o acompanhava diante da tv todo dia. Num certo dia, surgiu a mensagem sombria desse telespectador. Coisa do tipo: “Vocês são os únicos companheiros que tenho na vida. Mas, agora, tenho de me despedir de vocês, eu e minha filhinha”.

Bateu-me escura premonição. E, a partir daí, todos os dias pedia a esse cara que ele mandasse uma mensagem. Não sabia quem era, qual se telefone, seu nome por inteiro, nada. Diante do silêncio de sua parte, os demais telespectadores passaram a mandar mensagens de alento para ele. Alguns sugeriam um terapeuta; outros ofereciam emprego, mas todos clamavam por uma manifestação dele que comprovasse não ter cometido nenhum desatino.

Por fim, depois de mais de uma semana de apelos e apreensões, ele mandou outra mensagem: seu desejo era matar-se e à filhinha, mas, diante da repercussão tão solidária dos demais telespectadores, não só arrumara um emprego como voltou a ter fé na vida.

Parece coisa de pastor eletrônico, de telenovela barata, de filminho de Natal, enfim…

Mas, foi a mais pura verdade. Um fato, que ainda mais reforçou minha convicção de que este ofício bobo de escrever em jornais, revistas, na Internet, e falar na tv, no rádio, possui uma magia que escapa ao nosso alcance. E, para mim, com meio século de trabalho nessa área, foi a mais gratificante de todas as experiências vividas. Contribuir para salvar uma única vida não tem preço ou dimensão.

Transportando para nosso blog. Basta que um, entre tantos malcriados e insanos bloguistas, passe a refletir com clareza e ganhe gosto pela expressão ordenada, já valeu!  

Autor: Alberto Helena jr. Tags: , ,

Clubes brasileiros | 12:54

UM RIO-SÃO PAULO DE MERCADO

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Lá pelos entornos da década de 30, como gosta de dizer meu querido Lança, instalou-se o profissionalismo no futebol brasileiro. O Fluminense, clube mais rico do país, entre outras coisas porque dono do estádio mais importante do Brasil – as Laranjeiras -, baixou em São Paulo e fez um rapa geral. Levou praticamente toda a Seleção Paulista da época.

A investida foi tão poderosa que a diretoria do Palestra Itália (hoje, Palmeiras) resolveu esconder seus jogadores numa chácara em Atibaia (à época, o fim do mundo), cercando-os de jagunços armados instruídos a botar pra correr os possíveis emissários cariocas.

Inútil medida, pois Romeu, Gabardo, Sandro, Tim, Hércules, Orozimbo, quase toda a elite do futebol paulista, se transferiram para as Laranjeiras. Era o poder da grana, que fala mais alto, que fala primeiro, como no samba do saudoso e genial Ataulpho.

Quase um século depois, dá-se o troco. Os clubes paulistas, neste período de contratações, foram ao Rio e fizeram a festa. Quase dá para escalar uma seleção de cariocas ilustres que, duas semanas, trocaram a Cidade Maravilhosa pela Paulicéia Desvairada. Vejamos: Wagner Diniz, Renato Silva, Triguinho, Júnior César, Arouca, Lúcio Flávio, Washington, Jorge Henrique, seu lá quantos mais.

Dos paulistas, o mais guloso foi o São Paulo, que trouxe do Botafogo o zagueiro Renato Silva, do Botafogo, o lateral-direito Wagner Diniz, e do Fluminense, numa feira, Washington, Júnior César e Arouca, que só deve se apresentar em abril, caso não haja negociação entre os dois Tricolores para abreviar esse prazo.

O que isso quer dizer? Que a grana segue sendo, como sempre, o valor que fala mais alto e que fala primeiro?

É muito provável. Mas, no caso do Flu, me parece que há uma predisposição para desmontar de vez aquele timaço que tantas esperanças deu aos tricolores e que acabou a temporada simplesmente escapando do rebaixamento.

Quem sabe, no âmago do inconsciente tricolor, pulse a lembrança do Timinho, uma equipe modesta mas briosa, que, sob o comando do saudoso Zezé Moreira, conquistou títulos impossíveis.  

Há clubes que viram reféns desta ou daquela tradição. O Flu, por exemplo, foi uma equipe estrelada nos anos 30. Nos 50, um time competitivo, apenas, embora lá estivesse um dos maiores craques da história do nosso futebol – Didi. Foi vencedor nos dois períodos, como o foi nos anos 70, com Flávio, e, mais tarde, com o casal 10 – Assis e Washington.

Vivo me perguntando por que será que a massa dos torcedores (não só a do Flu) e a mídia esportiva em geral preferem ressaltar e cultuar justamente aquela última imagem, a do time guerreiro, o out-side, o que sai do limbo para levantar a taça? 

Suponho por que sejamos todos – a imensa maioria dos brasileiros – uns perdedores de véspera. Nunca vai dar certo. Quando dá, êia!, eis o prodígio que sobrevive a tudo e a todos.

Notas relacionadas:

  1. VAIVÉM NO SÃO PAULO E PALMEIRAS
  2. BAMBI, SALTANDO À CENA
Autor: Alberto Helena jr. Tags: , , , , , , , , , ,

terça-feira, 23 de dezembro de 2008 Clubes brasileiros | 16:38

BAMBI, SALTANDO À CENA

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A propósito de comentário de um bloguista aqui, rementendo-nos ao blog do Juca, Juquinha, o Traquinas, onde o meu jovem e respeitável companheiro da CBN, Fernando Gallo, imprimiu um texto sugerindo que o a torcida são-pauliana adote o bambi como símbolo, mascote, ou coisa do gênero, tenho pouco a dizer.

Mesmo porque não cabe orientar as preferências deste ou daquele torcedor. Cada um aceite ou assuma o símbolo que quiser, sem que nem uma, nem outra escolha, represente desdouro algum.

Ah, mas se você não quer que o apelido pegue, o melhor é aceitá-lo, diz o senso comum. Não é bem assim. Há casos e casos. 

Por exemplo: meu querido e genial amigo Fernando Faro, o Baixinho, é baixinho mesmo. E seria chamado de Baixinho, quisesse ou não, vida afora. Placidamente, Faro adotou o apelido. E fez mais: passou a chamar todo mundo, amigo, desafeto (se é que haja um) ou desconhecido de Baixo ou Baixinho.

Feito o Tio Chico Helena, meu saudoso tio-avô, que lá no seu pequenino Tanque era chamado pelos nativos de Italiano. Em resposta, ele se dirigia ao caboclo mais próximo assim: “Ô Brasileiro, vem cá!”. Se para os outros ele não era simplesmente Seu Chico, para ele, todos os demais também não tinham nome, eram simplesmente Brasileiros.

De qualquer forma, esse negócio de botar apelido nos outros é coisa de adolescente. Na escola, Fulano é orelhudo, Beltrano é narigudo; o outro, Baixinho, aquele ali é o Gordo e assim vai. Aí, a turma acha a maior graça, se escangalha de rir, aquele riso maldoso próprio da idade de quem está ainda construindo sua personalidade em meio a tantos temores e inseguranças.

Pelo visto, num tempo em que a adolescência se estende até muito além da maturidade, como o atual — o que se expressa no cinema, na música, nos hábitos cotidianos, nas vestimentas, na compulsão pelo consumo exacerbado por tantas quinquilharias eletrônicas etc. —, nada mais natural que marmanjos de todas as idades ainda se dediquem a essa prática, sobretudo, nos campos de futebol e em suas cercanias.

Outra característica da infância e da adolescência, é o mimetismo. Como a personalidade não se definiu ainda, o sujeito busca imitar seus parâmetros imediatos — o pai, o tio, o avô, o vizinho, o colega mais bem sucedido na escola, o ator da telenovela, o roqueiro da hora e tal e cousa e lousa.

E é esse mimetismo que nos leva à questão em pauta.

Conta Mário Filho, que deu o nome ao Maracanã, irmão do dramaturgo e cronista Nélson Rodrigues, em seu antológico livro O Negro no Futebol Brasileiro, que, lá no início do século passado, um jogador chamado Geraldo trocou o América do Rio pelo Fluminense. 

No América, Geraldo exibia sua cara ao natural — mulato de cabelo pixaim. No Flu, clube de elite, brancófilo como o Brasil daquela época, escondeu a carapinha sob um gorro tricolor e passou pó-de-arroz no rosto, para disfarçar a mulatice.

Num clássico entre América e Flu, a torcida americana, que é sempre assim, a começar por mim, como reza seu hino incomparável, obra de Lamartine Babo, então caiu no pêlo do craque: “Pó-de-Arroz! Pó-de-Arroz!”.

E o Flu, para evitar que apelido pegasse pejorativamente, assumiu-o, passando a jogar pó-de-arroz nos estádios e até se autodefinindo como tal.

Pois não é que o São Paulo, meio-século depois, apenas por ser conhecido como Tricolor a exemplo do Flu, resolve, em má-hora adotar o mesmo hábito? Durou pouco, é verdade. Simplesmente, porque não era autêntico, era apenas uma imitação barata de algo que nada tinha a ver com sua história. Além do que, a imensa nuvem de talco despejada das arquibancadas sufocava todo mundo — tricolinos ou não.

Lá pelos anos 40/50, o político paulista Adhemar de Barros, várias vezes prefeito da Capital e governador do Estado, tinha em sua imagem impregnada a palavra ladrão. Uma das primeiras visões que tive fora da janela de casa, no velho Brás, era uma inscrição em cal no muro da estação de bondes da Light: Para Governador, Adhemar. Logo abaixo, alguém pixou: Ladrão.

Eis que daí nasce o slogan que Adhemar usou até o fim de sua longa carreira política: “Rouba, mas faz”.

Adhemar, espertamente, apelava para a vocação de São Paulo de crescer, construir, fazer, ser pragmático, progressista, andar pra frente sem olhar para os lados — “Fé em Deus e pé na tábua”, outro de seus dísticos históricos. Ele sabia que a ética, nesse contexto, era um tanto marginal em relação ao progresso.

E o Corvo? Alguém aí se lembra do Corvo, uma genial charge do jornal Última Hora de Samuel Wainer reproduzindo o político carioca Carlos Lacerda como um corvo de óculos de aros negros, numa referência ao corvo de Poe, que anunciava repetidamente os piores agouros?

Pois, Lacerda simplesmente adotou o símbolo, anunciando que era o corvo capaz de eliminar a carniça de um regime em deterioração, referindo-se aos últimos dias da era Vargas no Brasil.

Lá pelos anos 70, num acirrado clássico entre River Plate e Boca Juniors, a torcida millonaria soltou em campo um porco vivo. Tremenda ofensa aos tantos torcedores do Boca de origem italiana. O porco significava que os boquenses, como os italianos imigrantes, era sujos, feios e malditos como a pequena obra-prima cinematográfica de Ettore Scola, em que Nino Manfredi dá uma aula de interpretação.

O Boca assumiu o simbolo, embora não me conste que continue a berrar “Porco! Porco!”, como o faz a torcida do Palmeiras até hoje desde quando o jornal O Coração Corinthiano, de breve e brilhante existência, soltou um desses espécimes no Morumbi, em clássico com o Timão.

Ora, o símbolo do Palmeiras, até então, era o Periquito, um bicho malandro, profético, pois andava pelas gaiolas dos realejos desvendando o futuro das moças e dos rapazes namoradores,  de penas verdes, bem brasileiro, como interessava ao clube, que, na época da Segunda Guerra, teve de mudar de nome — Palestra Itália para Palmeiras.

E não é que a turma alviverde preferiu trocar o simpático Periquito pelo ofensivo Porco?

Vá entender a massa. Os poucos que entenderam viraram ditadores execráveis.

O fato é que o futebol é um universo tensamente machista. E que a figura do Bambi remete imediatamente à  homessualidade, característica abominada, imagino, pela imensa maioria dos torcedores de futebol neste país. Tanto, que, quando o torcedor pretende xingar o juiz que se equivoca, o jogador que erra, o técnico que não substitui de acordo com seus desejos, logo crescem dois clamores na galera: “Burro!” ou “Bicha!”.

Na cabeça do torcedor, são os dois estratos mais baixos da humanidade.

Diante disso, se o amigo tricolino preferir optar pelo lugar-comum, segundo o qual apelido não pega se assumido, ou se para saltar na vanguarda da luta contra a homofobia,  adote o Bambi; se não aceitar a pecha imposta por ninguém, sobretudo os adversários, repudie. A escolha é só da torcida tricolor, nem minha, nem do Fernando Gallo, muito menos do meu querido Traquinas, o Juquinha, em mais uma de suas traquinagens.

Notas relacionadas:

  1. VAIVÉM NO SÃO PAULO E PALMEIRAS
Autor: Alberto Helena jr. Tags: , , , ,

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008 Campeonato Brasileiro, Clubes brasileiros, Sem categoria | 14:31

MÁRCIO LEMBRANDO ANTONINHO

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O Santos, pelo visto, começa a se mexer, e vai reforçando seu time, com o excelente meia-atacante Madson, o armador Lúcio Flávio, talvez, Triguinho, e, dizem até que de olho em Verón, que já cogitado pelo Corinthians.

Mas, desconfio que o melhor negócio para o Santos foi a manutenção do eterno interino Márcio Fernandes, cria da Vila, como jogador e, depois, técnico das categorias de base.

Sobretudo se Márcio seguir o legado que lhe deixou seu ilustre tio: Antoninho Fernandes.

Os mais jovens, por certo, sequer ouviram falar de Antoninho, um tipo discreto e divertido, que passou a vida na Vila. As últimas imagens de Antoninho, que nos deixou há bom tempo, eram a do gorducho bonachão, sucessor de Lula, dirigindo por muitos anos aquele timaço do Santos – o melhor de todos os tempos e quadrantes -, de Pelé e cia.

Mas, a primeira imagem que tenho dele é daquele meia-direita hábil, cerebral, de passes medidos, dribles enxutos, e muito participativo, apesar do perfil já roliço, formando no ataque da virada dos 40 para os 50: Cento e Nove, Antoninho, Nicácio, Odair Titica e Pinhegas. 

Do final dos anos 30 à metade dos anos 50, Antoninho comandou o time santista dentro do campo de forma tão eficiente que, nas Seleções Paulistas da época, várias vezes, deixou no banco estrelas muito mais cintilantes, como Jair Rosa Pinto, por exemplo, que, por sinal, o substituiu no Santos, na conquista do bicampeonato de 55/56, antes mesmo de Pelé.

Márcio me faz lembrar de Antoninho não apenas pelo elo familiar, mas, principalmente, pela forma clara e simples com que vê o futebol. 

Nestes tempos de tantas estratégias, tecnologias sofisticadas, marketing exacerbado, talvez precisemos muito desses dois atributos: clareza e simplicidade. 

Notas relacionadas:

  1. BELÊ, PEIXE!
  2. O BOTAFOGO E O DESTINO
  3. GRÊMIO, NO RASTRO DO TÍTULO
Autor: Alberto Helena jr. Tags: , ,

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008 Clubes brasileiros | 13:46

A DANÇA DO DIABO

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Dorival Júnior assumiu o Vasco, enquanto Cuca foi para a Gávea. Júnior me parece o nome certo para dar estrutura a um time fragmentado, moral, tática e tecnicamente. Quanto a Cuca, nenhuma restrição à competência técnica. Apenas uma dúvida: será que, pelo desenho de sua personalidade propensa ao baixo astral, agüentará a pressão que virá com a perda até da vaga na Libertadores neste ano?

outro que está de volta ao futebol brasileiro é Leão, no Atlético Mineiro, onde já se deu bem, no passado. mas, terá que se virar com o que tem, pois o Galo está com os cofres vazios. E o que tem, sobretudo, é esse menino Renan Oliveira, bom de bola, além de poder contar de novo com Eder Luís, que não teve espaço no São Paulo.

É a eterna dança dos técnicos, que o ex-jogador e ex-treinador José Sarno perpetrou em livro como A Dança do Diabo.

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Clubes brasileiros | 13:32

VAIVÉM NO SÃO PAULO E PALMEIRAS

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O São Paulo, que iniciou o ano passado errando a mão nas contratações, repete a dose com Eduardo Costa, um volante à antiga – lento e dedicado apenas á marcação. E a justificativa não poderia ser mais surrada ainda: o time vai precisar de garra na disputa da Libertadores. Precisa mesmo é de meias de habilidade e inteligência, isso, sim. Mas, enfim, torçamos para que dê certo.

É verdade que levou para o Morumbi o lateral-direito Wagner Diniz, um dos poucos talentos do Vasco atual. E mantém na alça de mira o meia Conca – esse, sim – e Washington, ambos do Fluminense.

Já o Palmeiras, abriu a porta de saída para uma legião de jogadores que sustentaram a boa campanha do time na temporada: Elder Granja, Leandro, Léo Lima, Denílson, Martinez e, muito possivelmente, a dupla de ataque – Kleber e Alex mineiro.

De certo, até agora, chegaram apenas Marquinhos e Clayton Xavier. Dois excelentes reforços, mas pouco para a remontagem do time necessária já para a disputa da Libertadores. Mesmo porque, como se comprovou no Brasileirão, o Palmeiras carece desesperadamente de dois zagueiros de porte.

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sexta-feira, 12 de dezembro de 2008 Clubes brasileiros | 14:25

O FENÔMENO E O DIAMANTE NEGRO

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No exato momento em que Ronaldo abraçava a Fiel na Fazendinha lotada de loucos de todos os perfis, toca o celular. É Plínio Mello, intransigente defensor dos caranguejos do litoral sul paulista e fino pesquisador das coisas do futebol, para me lembrar da história do Bonde de 200 Contos.

Logo em seguida, ouço, naquela adorável zorra comandada pelo Wanderley Nogueira na Jovem Pan, o meu gurú para assuntos platinos, Roberto Petri, relembrando o mesmo episódio de dimensões inconcebíveis: a contratação de Leônidas da Silva pelo São Paulo, em 1942.

Para meu jovem amigo bloguista ter uma vaga noção da magnitude do evento, basta dizer que 200 contos, naquela época, era uma fortuna, sei lá, comparável a cerca de 100 milhões de reais hoje. Leônidas foi recebido pela torcida tricolor na estação do Norte (Roosevelt), no Largo da Concórida, no Brás, e carregado nos ombros até a sede do clube, na Avenida Ipiranga, centro novo da cidade.

Leônidas, o Homem de Borracha, o Diamante Negro, que deu esse título ao chocolate até hoje exposto em qualquer supermercado ou padaria, era um portento. Propagador da bicicleta, aquele lance acrobático em que o sujeito fica pedalando no ar até meter a bola na meta adversária, já disputara duas Copas do Mundo (34/38), e, na segunda, fora o artilheiro da competição, com oito gols, em quatro jogos disputados.

Mas, em 42, com um joelho baleado, crônica lesão, gordo, afastado dos campos, aproximando-se dos 30 anos, data limite, na época, para qualquer jogador de futebol, era considerado um ex-craque, um bonde, como se dizia então.

Pois, Leônidas foi o comandante da primeira fase áurea do São Paulo, nos oito anos seguintes, ganhando cinco títulos paulistas, num tempo em que não havia Brasileirões, um deles, invicto.

Para o amigo ter uma idéia, Leônidas foi, depois de Friedenreich  e antes de Ronaldo, o futebolista brasileiro mais reverenciado no resto do planeta, sobretudo a Europa..

O que quero dizer é que o mundo gira, a Lusitana roda, e a história se repete em espiral, feita a imagem do DNA, quando não em farsa, e os Leônidas como os Ronaldos serão sempre recebidos como uma esperança para o torcedor, seja de que camisa for. Uns dão certo; outros não.

Mas, afinal, o que é o futebol senão a representação do cotidiano, em que às esperanças se sucedem as decepções, a cada ano, a cada mês, a cada rodada, a cada dia?

Notas relacionadas:

  1. RONALDO-TIMÃO, ABRINDO CAMINHOS
  2. RONALDO E O VELHO RÍPOLI
Autor: Alberto Helena jr. Tags: ,

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008 Clubes brasileiros | 21:09

RONALDO E O VELHO RÍPOLI

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Alguém aí na platéia se lembra do Rípoli? Um coroa magro, de bigodes tintos de preto, calva escondida sob irrequieta peruca, presidente eterno do XV de Piracicaba, divertidíssíma personagem do futebol, com suas tiradas de humor tisnadas pelo forte sotaque de sua cidade, intraduzível na letra escrita.

Pois, o Rípoli, lá pelos anos 60/70, não me lembro bem, cansado de ver seu Nhô Quim passar o tempo todo lutando para não voltar à Segunda Divisão do Paulistão, deu a nota: nenhum jogador de seu time receberia mais salário – só bicho. Se ganhasse, tanto; se empatasse, um tantinho menos; se perdesse, ficasse chupando o dedo, pois não recebia um tostão.

Resultado: naquele ano, o XV foi vice-campeão, ou algo no gênero.

Guardadas todas as proporções, é mais ou menos o que o Corinthians está fazendo com Ronaldo, que, nesta quinta, no Arena do Cleber Machado, foi muito explícito: “Pra que esse negócio todo funcione, eu preciso jogar”.

Em última análise, é o contrato por produtividade. Ronaldo tem uma marca poderosa, talvez a maior entre todos os craques mundialmente famosos. Mas, ela só se sustentará ao longo do tempo se o craque entrar em campo e responder à expectativa.

Claro, n caso de Ronaldo não depende só da vontade do jogador. É preciso que seu corpo não o traia como tem traído em grande parte de sua carreira.

Mas, o princípio é o mesmo: chi non lavora più, non mangia più. Quem não trabalha não come, meu.

Notas relacionadas:

  1. RONALDO-TIMÃO, ABRINDO CAMINHOS
Autor: Alberto Helena jr. Tags: , , , ,

  1. Primeira
  2. 10
  3. 20
  4. 22
  5. 23
  6. 24
  7. 25
  8. 26
  9. Última