NOSSO TIME, NOSSA HISTÓRIA
Lamento, mas é preciso repetir essa ladainha, dia após dia, porque vivemos tempos em que apenas o resultado interessa, e boa parte da mídia e da opinião pública vai no embalo dessa onda sem olhar para os lados, pra trás, e, sobretudo, pra frente, onde, enfim, esse barco vai encalhar.
Futebol não é só isso. É, também, claro, pois o resultado está no cerne da competição. Mas é muito mais, esse jogo tão simples em toda a sua complexidade. Caso contrário, não seria tão devastadoramente apaixonante, único esporte de massa praticado em cada palmo de terreno deste mundão de Deus, e que circula como tema em todas as áreas da observação humana: desde tratados acadêmicos ao bate-boca nas padarias.
Seria o mesmo que resumir o ato de viver no saldo da conta bancária de cada um de nós. Parodiando o Príncipe da Viola, o futebol não é só isso que se vê; é um pouco mais… Pois, no fundo, no fundo, o segredo do êxito do futebol está no fato de que ele é a mais completa representação do cotidiano de todos nós numa praça esportiva.
Aceitar que resultado é tudo e se basta em si mesmo é a maneira mais simplista e tosca de ver e sentir o futebol, eis a grande verdade que precisa ser repetida à exaustão para que não se perca o encanto desse jogo feito de maravilhas.
Nesse contexto, a Seleção Brasileira passa a ser um paradigma, uma das raras reinvenções do brasileiro que o mundo todo venera e teme, desde aquele distante dia em que os jogadores do Paulistano de Friedenreich desembarcaram na França para ser aclamados, dois jogos após, como Les Rois du Footbal (Os Reis do Futebol).
De lá pra cá, perdemos e ganhamos, mas nunca deixamos de encantar com nosso jogo revestido de brilho incomum, inimitável.
Na verdade, não foram os resultados que nos colocaram no trono do futebol mundial, mas, sim, o brilho de nosso jogo, que precedeu de muito a tantas conquistas, como, por exemplo, o Penta Mundial.
Por isso, é dever do crítico, aquele que conhece um pouco de nossa história e que visa espiar um pouco além do mero placar final, exigir sempre da nossa Seleção muito mais do que o simples resultado, embora jamais possa descartar este, claro, óbvio, indiscutível.
Nosso time já beirou, ao longo da história, algumas vezes, a perfeição. Como dizia Gilberto Gil, a perfeição é uma meta defendida pelo goleiro… da Seleção. Nesse sentido, literalmente, Júlio César se encaixa nos versos do baiano ilustre.
Mas, dali pra frente, o que temos? Uma linha de defesa sensacional, um meio-campo desequilibrado, já que excessivamente defensivo, e um ataque fulminante. Isso basta para ganharmos de qualquer outra seleção do mundo que nos enfrente. Mas, não basta para cumprir aqueles nosso mais altos desígnios. Ou seja: vencer, brilhando.
Digo todas essas filosofices baratas para dar os parabéns a Dunga pelos incríveis resultados obtidos à frente da Seleção: as conquistas das Copas América e das Confederações e a classificação ao Mundial com antecipação inédita na história das Eliminatórias desde sua reformulação.
Mas, me reservo o direito de seguir exigindo do técnico brasileiro uma formação de time e um jeito de jogar mais compatível com nossa identidade. E olhe o amigo que ele está a um passo disso. Basta trocar um dos três volantes por um meia de ofício, ao lado de Kaká. Pronto, Fiat Lux!
E AGORA?
O amigo é testemunha que venho cobrando de Dunga a presença de, pelo menos, mais um meia nato para compor esse grupo vencedor. Alguém, no mínimo, capaz de revezar com Kaká, embora o ideal fosse que nosso elenco dispusesse de outros dois, além desse, com características mais de armação do que de chegada à área.
Não precisa ser um craque, um malabarista, nada disso. Apenas um sujeito do ramo, que saiba receber a bola de costas no meio-de-campo, girar e iniciar a trama de ataque. Mesmo porque no no setor de meio-de-campo do Brasil, com exceção de Kaká, não há craques, apenas bons ou excelentes volantes, de acordo com a visão de cada um. Basta listar: Gilberto Silva, Felipe Melo, Lucas, Elano, Ramires, Júlio Baptista, Sandro, sei lá quantos mais. Com disse, todos bons ou excelentes… volantes, mas nenhum craque-craque.
Agora, perdemos Kaká para o jogo com o Chile. Tudo bem: é festa no Pelourinho. Já estamos classificados e tal e cousa e lousa e maripousa. Mas, não podemos dar sopa pro azar, nunca!
Bem, temos lá Júlio Baptista, moço instruído, articulado, bom jogador, dono de vitalidade invejável, mas de técnica reduzida. Pode até entrar no lugar de Kaká e acabar com o jogo, isso faz parte de seu repertório, mas é jogar com a sorte, não com a razão.
Melhor seria ter por ali um Diego, que está matando a pau na Juve, depois de brilhante passagem pelo futebol alemão. Ou, se quiserem, o outro Diego, o Souza do Palmeiras, que vem sendo o melhor jogador do Brasileirão nesta temporada, não só pela força, mas, sobretudo, pela técnica.
Quanto a um eventual chamado para o ataque, onde só restaram Nilmar e Adriano (só?), bem que Dunga poderia chamar para o jogo com o Chile Diego Tardelli, cujo estilo é o que mais se aproxima do de Robinho: velocidade, movimentação e drible fácil, além de ser emérito goleador e estar em plena forma.
Mas, enfim…
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51 comentários | Comentar
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11 Daniel Manica 07/09/2009 19:55
Talvez o nobre comentarista queria a volta do badalado QUADRADO MAGICO, aonde se intupiam meias e atacantes.
Ninguem marcava ninguem, um meio campo como o senhor Helena gosta, muito refinado , técnico , bailarino,cujo os jogadores ficavam somente com a mao na cinturinha vendo o adversario jogar.Lembram o que o Zidane fez em 2006 com o nosso meio campo que jogava bonitinho?
Futebol é equilibrio!
10 Gabriel Becki 07/09/2009 19:43
Alberto Helena Junior
>Discordo quando diz que o sistema atual da seleção Brasileira é defensivo.Acho que como em 2002 , Dunga produz a mecânica de um meio campo sólido, justamente para liberar o que o time tem de melhor, que é o apoio dos alas, e principamente a chegada de kaka a frente , desprovido de preocupação execessiva com a marcação, o que faz o seu futebol crescer de forma substancial.Um time que chega a frente com Elano , Kaka, os dois alas , mais os atacantes nao pode ser chamado de defensivo! já ficou provado que a seleção nao tem a mesma proformance no seu meio campo quando joga com dois meias de oficio, muito pelo contrario, cai o rendimento da equipe, lembramos de Ronaldinho Gaucho e Kaka , Gaucho nao jogara nada e kaka via seu futebol diminuir ,vale o mesmo pro proprio Diego, questao de caracteristicas.
>O futebol moderno , a tendencia é cada vez mais diminuir a figura do meia preguiçoso , que joga parado so dando toquinhos de lado, e sinceramente nao acho isso um futebol bonito.Futebol bonito, é quando se tira o melhor de cada jogador , o melhor do crack, e o crack da seleção é kaka, ja ficou provado que o time joga bem e sim de forma agradavel, quando esse jogador joga bem adiantado na frente dos volantes que lhe dao o suporte para tanto, e com um passe qualificado, falo de Elano e Felipe Mello.
Em 2002 felipão fez o mesmo, recheou o seu meio campo ,ainda tendo o brihante Edmilson jogando na frente dos zagueiros,justamente para liberar Cafu e Roberto Carlos, alem dos genais 3 Rs da frente, Ronaldos e Rivaldo, tanto que a seleçao ficava defensiva so na teoria mas nao na pratica o mesmo que ocorre com a seleçao atual.
>Se o time tivesse com meias que nao marcassem no meio, é obvio que nao teria tal desempenho a equipe ficaria desiquilibrada.
>Futebol nao é so ficar com a bola, quando voce nao a tem,precisa de gente com CARACTERISTICA para tirala, e esse conceito me parece muito bem munido da mente da comissao tecnica brasileira.
9 Londero 07/09/2009 19:19
Helena,
Dunga ja tentou varias vezes jogar com dois meias e não deu certo.Porque com um meia a mais o Kaka tem que marcar, assim perdendo todo seu impeto e futebol.Kaka sempre rendeu bem quando esteve jogando como ultimo do meio campo livre de qualquer obrigação de marcação, sendo assim no Milan sendo assim na seleção.Com tres volantes dando o suporte tanto o time cresce de produção bem como as individualidades da frente.
Kaka solto , livre pra pogar tendo um Elano ou Ramires atras dele para marcar fica muito mais jogador.
8 wilson 07/09/2009 19:17
unica falha do dunga nesse jogo com a argentina foi ter mantido o robinho,jogardor mascarado vai ter o mesmo fim de ronaldinho gaucho. agora futebol e resultado, nos vimos uma selecao que jogava por musica em 1982, mas nao ganhou. somente quem ganha e lembrado. eu acho que o dunga ta certo. voces da imprensa nao engolem ele,porque ele peita voces
7 Beth 07/09/2009 19:05
Sempre que um jornalista escreve sobre a ausência de Diego na seleção brasileira há um subtexto de crítica a Dunga. Ora, o ex-jogador do Santos teve oportunidades excelente na seleção, desde a época de Carlos Alberto Parreira. Dunga o convocou várias vezes inclusive como titular da seleção olímpica. Alguém aí é capaz de citar alguma partida em que Diego acabou com o jogo?
6 Gustavo 07/09/2009 18:39
Concordo com Diego, mas a atuação do Brasil foi irretocável. Caro Helena, sou gremista, e lhe digo o Brasil também é fronteira, e depois do Dunga, primeiro como jogador e agora como treinador, o futebol brasileiro mudou…Vibração e aplicação tática! É assim que vi o Grêmio ganhar seus títulos, é assim que me acostumei ver o Brasil vencer. Não consigo visualizar melhor escalação no momento para jogar contra a Argentina em plena Rosário. Quanto a novas variações táticas, com meio de campo mais criativo (Diego e até mesmo Alex por que não ?), poderão ser lançadas em outras ocasiões, de acordo com a competição e o adversário. Infelizmente não temos mais Zico, Falcão, Sócrates ou Júnior á disposição…”Somos quem podemos ser…”
5 http://www.sobreofutebolcarioca.blogspot.com/ 07/09/2009 18:35
muito bom o texto A.Helena!
4 Neon 07/09/2009 18:04
Um meia para jogar com o Kaka , concordo ….mas onde ele está ?
Diego é pipoqueiro.
Alex é de lua …mas pra minguante.
Ronaldinho gaucho morreu e que fique por lá.
Maradona cairia bem , mas ele é argentino e já parou de jogar.
Não tem ninguem. A safra é das piores.
3 jose 07/09/2009 17:40
Ao João Renato Alves
Concordo plenamente com você, amigo.
E mais o que é futebol brasileiro?
O do Rio (com as suas firulas)?
ou Gaúcho (com raça e marcação)?
Nós temos muitas escolas diferentes no Brasil para dizer que existe “um” futebol brasileiro.
Sds
2 jose 07/09/2009 17:36
Com todo o respeito,
Mas hoje Nilmar e Alexandre Pato são muito mais jogadores que Robinho. E ao contrário do que alguns disseram por aí (besterias, óbvio), os dois são muito mas muito mais rápidos do que Robinho. Mas como ambos não vieram de algum time de São Paulo ou Rio…..
Sds
1 João Renato Alves 07/09/2009 17:31
Concordo em partes e discordo em outras. Sim, o futebol é mais que resultado. Mas os resultados também são importantíssimos, goste ou não. O Brasil tem a seleção mais respeitada do mundo pelo seu estilo de jogo, MAS TAMBÉM pelos seus cinco títulos mundiais. Caso contrário, seríamos mais uma Holanda da vida, que sempre apresenta um futebol encantador e fica pelo meio do caminho. Mesmo mal, diga-se de passagem, que acometeu o Brasil de 1971 a 1989 e vitima a Argentina nos tempos atuais, desde 1993, mais especificamente. Quantas vezes eles tiveram o melhor futebol de Copas Américas e do Mundo nos últimos tempos? E em todas essas ficou pelo meio do caminho. Eu, pelo menos, não gostaria de ver a volta do “perde bonito”.
Em relação a um suposto defensivismo exagerado do meio-campo brasileiro, na hora que li me veio à cabeça o famigerado “quadrado mágico”, essa inconsequência que, culminado a um desmande geral, fez com que a seleção naufragasse em 2006. A formação atual está colhendo ótimos frutos, tanto que o Brasil não perde há 18 jogos, tendo 10 vitórias seguidas. E na grande maioria desses êxitos, primando por atuações convincentes e eficientes.
E se a suposta identidade do futebol brasileiro que você prega é a de décadas atrás, Alberto, comemore. A “perda da identidade” nos deu as Copas de 94 e 2002, além de várias Copas Américas, Copas das Confederações e outras taças menores. Isso depois de duas décadas conservando a antiga identidade e perdendo tudo.
Abraço