OS MONSTROS E A SELEÇÃO
Sou de um tempo em que a Seleção Brasileira não ganhava nada – era um Sul-Americano aqui; outro ali, em meio século de futebol implantado em terras tapuias – se tanto. De resto, éramos fregueses contumazes de argentinos e uruguaios e carregávamos na alma o peso sombrio do Maracanazo, em 50.
E mesmo assim, o país se enrolava na bandeira da CBD (antiga CBF) a cada convocação do time nacional. E aguardava tenso pelo jogo que se aproximava, fosse um mero amistoso, fosse jogo de torneios continentais, fosse jogo de Copa do Mundo.
Vale observar que não era simplesmente por puro fanatismo nacionalista, essas fascistóides exibições de pretensas superioridades, não. Era, sobretudo, pelo prazer de ver reunidos num mesmo time os craques maiores que se espalhavam pelos clubes brasileiros, apesar de todas as desavenças geradas pelo regionalismo, o Rio-São Paulo eterno que dividia a opinião pública quanto à escolha desses jogadores.
Hoje, às vésperas de duas partidas importantíssimas, pelas Eliminatórias da Copa, há uma forte corrente contrária à Seleção, passando de boa parte da mídia para o torcedor – e vice-versa -, que despreza nosso time porque a elite dos jogadores brasileiros está além de nossas fronteiras.
Dizem que, ao cruzar o grande mar, o sujeito perde a alma verde-amarela, sugada, provavelmente, por um daqueles mitológicos monstros marinhos que tanto atrasaram a chegada de Colombo ao Novo Mundo. É mesmo?
Então, podemos dizer que Ronaldo Fenômeno e Rivaldo devem ser elevados à categoria de heróis míticos, verdadeiros Ulisses do século 21, pois fizeram a fatídica travessia e mesmo assim nos deram um título mundial, o quinto de nossa história, em terras do Japão.
Há os que sugerem, como receita para combater o mal da desalma dos nossos craques exportados, que a Seleção só abrigue, doravante, os que aqui estão. Haja seleções… Sim, porque basta o jogador ser chamado hoje para a Seleção que, no dia seguinte, já estará arrumando suas malas, espiando o outro lado do mar grande. Mesmo porque as sereias cantam sua sedução é aqui mesmo, em terra firme, emitindo sons muito semelhantes ao do tilintar de moedas.
Claro que a Seleção Brasileira não tem sido, nos últimos tempos, um exemplo de brio e técnica, embora levante mais Copas Américas do que no passado distante, e vença mais do que perde, nos últimos cinquenta anos de sua história. Claro que o negócio futebol, em que o jogador é a grande moeda de troca, ganhou vulto inconcebível nesta era, o que semeia dúvidas no coração e nas mentes do torcedor e de boa parte da mídia quanto aos reais motivos de possíveis deserções e maus desempenhos dos mais célebres dentre os convocados.
Toda dúvida, aliás, é sempre bem-vinda, no futebol ou na vida. Mas, quando se transforma em verdade absoluta, clichê, lugar-comum para explicar o inexplicável, vira fanatismo, o pior de todos os males de que sofre a raça humana. E a Internet, esse maravilhoso instrumento de comunicação entre as pessoas de todos os recantos do mundo, tem contribuido muito para disseminar essas dúvidas, obras sinistras dos monstros virtuais que substituem aqueles dos mares antigos.
De repente, um anônimo qualquer inventa uma conspiração aqui, uma desventura ali, e, pronto!, a patuléia engole e passa a expelir essa excrescência como a mais pura das verdades.
E o pior é que até mesmo prestigiosos membros da crônica esportiva embarcam nessa onda e são devorados por esses mesmos monstros.
A moda, agora, é dizer-se que Kaká é mais um desses zumbis sem alma, que vagam por entre o luxo e a riqueza, sem destino. Ou melhor: que se negam a cumprir seu destino patriótico, recusando-se a servir à Seleção.
Ora, o rapaz, que recusou outro dia proposta mirabolante do futebol inglês só para ficar no Milan, há um bom tempo não joga pelo seu clube, vítima de séria lesão. Voltou, semana passada, jogou vinte minutos e saiu mancando de campo, no exato momento em que o Milan precisa desesperadamente de seus préstimos.
O craque está machucado, gente! Por que é tão impossível acreditar nesse simples e trivial fato do futebol, inventando suposto desinteresse de Kaká em jogar pela Seleção Brasileira?
E veja o amigo que Kaká nem pediu dispensa, apenas tempo para ver se consegue se recuperar até os jogos pelas Eliminatórias. Por conta de tamanha pressão, nunca saberemos ao certo, caso Kaká jogue, se o estará fazendo no sacrifício ou numa boa.
Mesmo porque, se ele disser que foi no sacrifício, responderão que não passa de um fingido, que apenas está valorizando sua volta e desculpando-se de eventual mau desempenho. Se disser que havia se recuperado plenamente, a turma, então, plantará nos lábios aquele sorriso cínico e sentenciará: “Estão vendo? Não tinha nada, apenas queria tirar o corpo fora da Seleção”.
Pois é, e os monstros estão bem mansos e solidários lá no fundo do oceano primevo, onde o ser humano começou sua própria gestação.
Notas relacionadas:
19 comentários | Comentar
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19 Hugo L Mancin. 26/03/2009 11:31
Nem uma coisa nem outra.
Só posso lhe afirmar que com respeito a sua notável sabedoria…não me chamo “mauricio ramos”.
He he he.
18 mauricio ramos 25/03/2009 15:20
Para Hugo L Mancin :
Voce é um poeta ou um punheta ?
17 Leonel Pinto 25/03/2009 7:45
Parabéns, Helena Jr, pelo seu comentário. Poucos, e não são torcedores e, sim os próprios jornalistas, principalmente da televisão detestam a verdade, para eles o que interresa e importa é o clima de dúvida, incerteza… Aí vende-se mais. Helena é dinheiro. Se estou errado me corrijam, por favor, mas, se fosse levado à sério: “Neto”, “Godói”, “BAITA JORNALISTAS”, estariam trabalhando em uma empresa de rede nacional????????
16 Hugo L Mancin. 24/03/2009 11:48
É Helena falando estritamente sobre futebol você tem razão, porém de uma forma geral a sociedade da nossa época era diferente, não digo que fosse melhor e nem pior apenas diferente.
O homem ficou mais astuto.
O homem tem mais informação.
O homem passou a ‘se amar’ sem culpa.
O homem mede os argumentos e informações.
O homem tem mais informação.
Aprendeu a dizer não.
Não crê mais nos monstros que sugam a alma.
Não beija mais a mão.
Sabe o cardinalidade do mundo.
O homem conjetura julga e supõe.
O homem afere e almeja.
É uma metamorfose ambulante.
Já não crê no impalpável a não ser na brisa.
Pouco usa a razão.
É ser descartável.
Descarta a paixão.
É pura emoção.
Pouco houve rádio de pilha.
Muito menos a voz do Brasil.
Não faz mais sabão de cinza.
Nem clareia os lençóis.
Não brinca de roda à tardinha.
Não vê o clarão da lua.
Nem o asteróide que passa riscando o céu.
Joga vídeo game com habilidade.
Faz parte da tela intrinsecamente.
É hábil com as mãos.
O homem desconfia.
O homem projeta.
É lento ao calcular de memória.
Não carece…
Não é pior…
Não é melhor…
É diferente.
15 Marcelão - RJ 24/03/2009 11:15
caro raposão do jeito que vc fala até parece que o ramiro é o Pelé .
Ele é um bom jogador , sem duvidas , gostaria dele no meu time , mas é apenas um bom jogador .
Acho que faz mais falta ao cruzeiro que nesta seleção de “estrangeiros”
Tó torcendo pra vcs aí na libertadores .
14 Raposão 24/03/2009 10:24
Fernando,
Concordo e assino embaixo
” A Seleção não é do povo, é do Sr. Ricardo Teixeira, ele é dono dela”.
Vamos Vamos Cruzeiro
Sangue nos Olhos
13 Raposão 24/03/2009 10:21
Se a desculpa do Dunga em não convocar o Ramires era o Kaká, agora qual a desculpa pois o mesmo Kaká esta machucado.
Agora quem não quer a convocação do Ramires somos nós cruzeirenses, pois o time entrará ma fase do mata-mata na Libertadores e ele nos fará muita falta.
Dunga não convoque o Ramires e se vire com suas estrelinhas, porque eu não estou nem aí para esta Seleção de Marqueteiros.
Vamos Vamos Cruzeiro
Sangue nos Olhos
12 fernando 24/03/2009 10:07
Esse papo de nacionalismo é chato demais!
O Dunfga adora falar que ama seu país, que não deixa ninguem falar mal dele, etc..bláblá PORQUE é rico.Vai a hospital particular, manda a filha estudar no exterior, só anda de avião…
Queria ver se ele tivesse que pegar 2 onibus pra trabalhar…sua filha estudasse em escola publica e tivesse que marcar uma consulta no SUS….Aí queria vê-lo falar em patriotismo. Balela.
Jogador rala, rala…a maioria sobe na vida ascustas de ajuda da família(inicio de carreira) ai, depois do sucesso, vem a CBF e convoca o cara pra jogar na malásia e encher os bolsos dos dirigentes.
Não existe nacionalismo. Essa seleção não é do povo.É do Sr. Ricardo Teixeira. Ele é o dono dela.
11 Cristiano Santos 24/03/2009 9:36
Caríssimo, Pio Portella!
Também acho que na seleção brasileira de hoje, falta identidade com o torcedor e um pouco mais de demonstração de amor a camisa, desde o fim da copa do mundo de 2002 não se vê uma seleção que veste a amarelinha por amor, como Ronaldo e Rivaldo fizeram, só pensam em usar a seleção para se promover e valorizar o próprio passe…não são todos que pensam assim?? Sinceramente não sei!
10 Cristiano Santos 24/03/2009 9:27
Bom dia Carlos Marques.
Concordo em partes, pois precisamos de jogadores para compor elenco e não só para jogar, caso contrário não seria necessário 22 jogadores, certo?
Outra coisa usando o mesmo exemplo do Miranda, não se pode prever a situação em que o time de um selecionável estará na época da convocação, portanto, cabe aos times montarem equipes com peças de reposição, e neste caso estamos muito bem administrados pelo Professor Muricy “Gênio” Ramalho, fique tranquilo!
Abraço,
9 Pio Portella 24/03/2009 9:22
Ninguem pode impedir jogador de ir para europa ganhar muito mais , como tambem a torcida não é obrigada a ama-los como verdadeiros brasileiros como antigamente.
O sentimento dos jogadores em relação a seleção mudou , como tambem mudou o sentimento da torcida em relação a eles.
Acho que a ultima seleção que realmente era de “brasileiros ” natos foi a de 1994 , campeã no EUA.
Romario , bebeto e CIA
8 Cristiano Santos 24/03/2009 9:21
Falar do Dunga, a esta altura do campeonato, só se for bem…porque o cara está fazendo um trabalho em que não há muito o que contestar, afinal, qual equipe (incluindo clubes) no mundo está exibindo um futebol vistoso em 100% das partidas? Eu, paricularmente, não me lembro de nenhum! Imagine com uma seleção, onde os jogadores se conhecem mais por se enfrentar do que atuando lado a lado…então, meus amigos, acredito que o Dunga está fazendo a coisa certa, ele tem um planejamento pronto e não é porque a imprensa “GLOBO” quer que ele vai encher o time de Meio-campistas “de qualidade”. Os operários são tão importantes quanto as estrelas, porque se os operários não correrem, marcarem, destruirem e passarem com qualidade, as estrelas também não aparecerão e ponto.
Quando falamos de Hernanes e Ramires, pensamos em um meio campo forte no desarme e com qualidade no passe, já o Lucas, não sei se caberia neste quesito, até porque prefiro os dois já citados. E acho que eles entrariam facilmente nos lugares de Gilberto Silva e Julio Baptista, não que estes não tenham qualidade, o que é contestável, mas nesta competição a experiência pesa e muito, acho que deve ser a linha de trabalho do Dunga…não estou discutindo, só colocando a minha opinião, mas quem manda é o chefe. Também acho que em competições no continente Americano, deveria ser escalada uma equipe formada por jogadores que atuam no futebol nacional, algo possível de ser feito, mas é necessário coragem para executá-lo. Existe muito fator extra-campo que inviabiliza este projeto, mas eu gostaria de ver uma seleção nacional só com jogadores que atuam nos campos Tupiniquins.
Quem sabe, se alguém tomar conhecimento deste sentimento que não é só meu, e torna nosso sonho realidade.
Vamos fazer uma campanha para adequar a temporada do futebol brasileiro ao Europeu, assim podemos ter os nossos craques atuando em competições inteiras e mantemos nossos times fortes por toda temporada…fogo na bomba!!!!
Abraço,
7 Carlos Marques 24/03/2009 9:20
Seleção só atrapalha.
Em toda convocação, sempre alguns clubes são prejudicados.
Por exemplo: Miranda vai para a seleção do Dunga, para ficar no banco, desfalcando o SPFC que tem um zagueiro contundido e outro suspenso.
Se ao menos fosse convocado para jogar o clube, que arca com os salarios, se beneficiaria com uma possivel venda.
6 ALLAN IBRAHIM 24/03/2009 8:38
O DUNGA JA PROVOU POR A MAIS B QUE SABE DAR SEMPRE A VOLTA POR CIMA, NÃO TENHA ELE FEITO O QUE FEZ NA COPA DE 94, QUANDO COMANDAVA O TIME E ATÉ DAVA PASSES PRECISOS DE LONGA DISTÂNCIA. QUANTO AO JOGAR CA OU LA, ISTO NÃO INTERFERE EM NADA QUANDO O ASSUNTO É SELEÇÃO, SENÃO JA NÃO ESTARÍAMOS A GANHAR NADA DESDE 1970, QUANDO VOLTAMOS A SER CAMPEÕES JA COM VÁRIOS DOS NOSSOS CRAQUES JOGANDO NA EUROPA E EM OUTRAS PLAGAS, TANTO EM 94 QUANTO EM 2002.
5 Henry 23/03/2009 21:20
A imprensa tem mesmo que achar alguma coisa para falar ou escrever, se não vejamos:Gostaría de saber qual técnico “desses queridinhos da imprensa” tem melhores resultados que Dunga até agora?Quem disse que Hernani é volante?Ramires vai jogar no lugar de quem?Lucas joga lá de vez em quando no Liverpool.É muito fácil escalar a seleção de uma cadeira em um programa de tv, mas só quem está lá é que sabe o quanto deve ser difícil.Abraço!
4 Raimundo Guedes 23/03/2009 18:22
Pelo amor de Deus, parem com essa ladainha!!!!
Vocês ficaram séculos falando em profissionalizar o futebol e quando isso parece ser irreversível, lá vem vocês com papo de mercenarismo.
Ora, no mundo globalizado, corporativo, profissional, seja lá qual for o nome. Todo e qualquer profissional que queira mudar de emprego, o faz pela melhor oferta de salário, condição de trabalho etc. Ou quando um grande grupo empresarial busca um profissional competente em um concorrente não é assim que funciona? Por que deveria ser diferente com o futebol?
Pela útima vez, futebol é economia privada. Portanto cada um vai para onde quiser e ponto.
CHEGA DE PAIXÕES ULTRAPASSADAS!!!!
3 jorji 23/03/2009 17:43
O Brasil só começou a se tornar forte no futebol, quando os mulatos e negros começaram a fazer parte das equipes , e junto com a profissionalização, nos tornamos os melhores, Pelé, Garrincha, Didi, Nilton Santos, Jairzinho, Carlos Alberto, Everaldo, Clodoaldo, Roberto Carlos, Romário, Cafu, Ronaldo, Ronaldinho, Rivaldo, Roque Junior, Lucio, Zé Roberto, Robinho, etc, esse é o grande diferencial. Em relação ao amor do torcedor brasileiro em relação à seleção brasileira, atribuir ao fato de a maioria dos convocados atuarem fora do país o nosso desinteresse, é uma grande bobagem, dizer que os atletas são mercenários ou coisa parecida é balela.
2 Bira 23/03/2009 17:25
Antes os brasileiros perdiam para argentinos e uruguaios lá na terra deles porque não existia TV transmitindo e o pau comia solto naqueles campos com a torcida fungando no cangote dos adversarios e jogando todo tipo de objetos.
Mas em materia de futebol sempre fomos muito superiores.
Bastou a TV mostrar o jogo em todos os angulos para os argentinos virarem cavalheiros. É que a FIFA tá de olho e pune mesmo.
Quanto ao interesse hoje pela seleção é notorio o descaso dos brasileiros devido aos jogadores não terem mais identificação com a torcida e amor a camisa.
1 Serafim 23/03/2009 16:35
Não entendo muito disso, mas o que me impressiona, hoje, é a quantidade de centroavantes que poderiam estar ou estão na seleção ou em futuro próximo terão condições:
Ronaldo, Pato, Ricardo Oliveira, Keirrison, Fred, esse cara que jogou no São Paulo e agora está no Valencia, o Imperador brucutu de quem eu não gosto tanto, mas que é tão apreciado… O Guilherme ex-Cruzeiro era centroavante também?
Essa superprodução teria a ver com a saída e a necessidade de reposição de jogadores? Foi sempre assim? Não que eu me lembre.