A NOITE DOS MENINOS
A noite foi de dois meninos especiais.
Oscar, ameaçado até de ficar de fora do Inter contra o Juan Arich, pela Libertadores, não só entrou em campo como foi o dono do espetáculo. Fez o primeiro gol, em esperta tabela com Leandro Damião, e protagonizou os lances mais agudos de sua equipe, que poderia ter vencido com folga muito maior do que os 2 a 0 finais.
E Neymar? Bem, Neymar passou o primeiro tempo todo tentando articular uma jogada só ao seu estilo contra o Botafogo, em Ribeirão. Nada. A coisa seguia assim segundo tempo adentro, até que outro menino da Vila, Felipe Anderson, entrasse em campo para dividir com Ganso a armação do seu time, que perdia por 1 a 0, acrescente-se.
Resultado: 4 a 1 para o Santos, de virada. Três gols de Neymar, que ainda deu um passe açucarado para Felipe Anderson – um de cabeça, em cobrança de falta exata de Ganso, replay do gol contra o Palmeiras, outro de pênalti que ele mesmo sofreu, em jogada espetacular, e o terceiro, fruto de engenhosa trama entre Ganso, Felipe Anderson e Neymar, que deu um peteleco na bola sobre o goleiro.
Em três minutos, o menino virou o jogo de ponta-cabeça e nos ofereceu quatro momentos de pura magia. Isso, na noite em que tudo parecia dar errado para o menino.
AS ESTREIAS DO DIA
À tarde, Joel comandou o Flamengo pela primeira vez nesta última volta à Gávea, na vitória por 1 a 0 sobre o Madureira. Mas, não se pode dizer que o Flamengo, em campo, foi aquele time mais leve e solto que se imaginava quando se aninhou sob as asas do Papai Joel.
Na verdade, o jogo foi equilibrado, com certa predominância do Madureira, mais perigoso até que o Rubro-Negro.
À noite, Osvaldo estreou no São Paulo, que manteve a liderança do Paulistão, mesmo num magro empate por 1 a 1 com o Comercial de Ribeirão, no Morumbi.
Aliás, dois gols relâmpagos, um em cada início de tempo, antes do primeiro minuto.
É certo que o São Paulo merecia, pelas oportunidades criadas, sobretudo no segundo tempo, pelo menos, um golzinho a mais. Mas, Lucas, em três chances de ouro, não deu sorte.
E Osvaldo? Entrou, correu muito ali pela esquerda, fez duas ou três jogadas espertas, enfim, o que se pode esperar de um estreante em jogo complicado para seu time.
Vai melhorar, não tenho dúvidas.
O CASO OSCAR
Não vou me meter a besta de entrar nesses labirintos jurídicos, que nossa empolada e prolixa legislação faz dar-nos tantas voltas que, no fim, esquecemos já do ponto de partida.
Sem dúvida, o São Paulo tem lá suas razões legais para cobrar seus direitos contratuais sobre o menino Oscar. Caso contrário, a justiça não teria acolhido seu protesto, dando-lhe ganho de causa em primeira (ou será segunda?) instância.
Como cabe recurso e nossa justiça anda a passo de tartaruga, desconfio que esse assunto ficará em suspenso por muito tempo ainda. De qualquer forma, o bom senso sugere que o Inter poderá contar com Oscar no jogo desta noite e até que haja uma solução definitiva da questão.
Todo esse imbróglio, porém, deve ser debitado na conta da atual gestão do São Paulo, incapaz de impedir que seu mais badalado e promissor jogador das categorias de base chegasse ao extremo de romper com o clube, passar um bom tempo treinando em academias, e, só depois de autorização judicial, assinar contrato com o Inter.
Tudo isso por causa do vil metal? Nada disso, meu amigo. O que tirou Oscar do sério, na verdade, foi o fato de se sentir preterido pelo clube quando a hora de entrar no time titular e ali fincar raízes soou e, como eco, ouviu só palavras de preterição.
Enfim, mais uma trapalhada dos Trapalhões do Morumbi.
CIAO, BELLO!
O técnico Fabio Capello não hesitou, tempos atrás, em retirar a tarja de capitão de Terry porque o zagueirão da Seleção traiu um companheiro com sua mulher. Mas, acaba de pedir o boné porque a Federação Inglesa mandou-o repetir o gesto porque Terry teria lançado ofensas racistas sobre um adversário negro.
- Não aceito interferências no meu trabalho. Qui, mando io!
Quer dizer: pular o muro não pode; xingar o tizzone pode. E, dizem as más línguas, que Capello deixou a sede da federação assobiando baixinho aquele velho hino: “Faccetta nera, bella Abizzina… Noi te daremo um altro Duce, um altro Ré!”
SUPER BOOM!
Meu querido Trajaninho, amigo de mais de trinta anos, em seu blog e na rádio Estadão/Espn, convoca-nos a elucidar o súbito sucesso do futebol-americano, aquele confronto de mastodontes de capacetes de titãnio, ombreiras de aço e olhar assassino que se matam em torno de uma bola oval.
Arrisco-me a dizer, já ressalvando minhas desculpas em caso de exagero, que, se essa questão fosse levantada no tempo em que conheci o inquieto Trajaninho, sua resposta seria imediata e dogmática: isso é fruto da colonização americana, o Império.
Hoje em dia, porém, embora isso tenha lá seu significado, não diz tudo. O Império, claro, sempre impõe seus valores aos colonizados, e a presença da cultura americana no resto do mundo está evidente na música, no cinema, nos variados meios de comunicação, nos idiomas chamados pátrios, no comportamento dos cidadãos em sociedade e naturalmente no esporte, essa poderosa expressão coletiva do século 21.
Os gregos antigos, através dos feitos de Alexandre, plantaram as Olimpíadas no imaginário de todos os povos conquistados. Os romanos imortalizaram seus gladiadores. E assim vai, até que os ingleses vitorianos, na divisão entre a força bruta do rúgbi e as sutilezas do Dribbling (traduzindo: Drible), primeira denominação do que viria a ser em seguida o futebol que hoje conhecemos, espalhassem pelas fronteiras do Império e adjacências esse maravilhoso e enigmático em toda a sua simplicidade jogo da bola.
Mas, vamos ao que interessa, que a turma não tem muita paciência com essas voltas históricas.
E o que interessa é o seguinte: não deve ser mera coincidência esse súbito surto de interesse tanto pelo futebol americano como pelo rúgbi e o UFC e seus congêneres, sobretudo entre os jovens brasileiros de classe média – hoje, mais revigorada do que há alguns anos – e alta, ou pelo menos aqueles que dispõem de tv por assinatura, ainda mais em HD.
E aqui entram dois fatores, a meu ver, essenciais: o crescente culto à violência dos jovens, pela própria definição, cheios de energia cujo desgaste é poupado pela presença hipnótica diante da tv e do computador, enclausurados em seus apartamentos. Resta-lhes imaginarem-se dando porradas aqui e ali, nas imagens da tv.
Mesmo porque as sutilezas do nosso futebol também cederam ao poder da força. Quantas vezes, aqui mesmo, comparei o futebol praticado em geral no Brasil ao futebol-americano de tanto confronto físico?
Ora, no cotejo entre um e outro, o americano soa muito mais autêntico em seus propósitos. Isso sem falar nas profundas diferenças traduzidas pelas imagens no tocante a organização e beleza plástica do evento. Isso, sem falar na atração que o paramento típico de um super-herói dos jogadores exerce sobre as mentes infantis e juvenis, de hábito, feito filme de Homem-Aranha ou Batman.
Portanto, outro deles é o visual, a imagem cada vez mais nítida e até encantadora das transmissões em HD, se comparadas com os canais em digital. A diferença é tão mais brutal quando comparado um jogo de golfe, por exemplo, com uma partida do Campeonato Italiano, a pior de todas as imagens europeias que nos chegam.
É natural que um menino de 10 anos, por exemplo, prefira assistir em HD uma partida de futebol-americano do que um joguinho retrancado do nosso futebol, em campos mal engendrados e sem nenhum charme.
O mesmo raciocínio vale para o futebol universal, cujas transmissões do Campeonato Inglês, Espanhol e Alemão são muito mais atraentes do que os dos estaduais brasileiros. E, certamente, muito mais do que o campeonato em geral do futebol-americano, mesmo desconhecendo os números de audiência dos canais que os transmitem.
Mas, não tenho dúvidas: pelo andar do trem-bala, em pouco tempo, as novas gerações abraçarão a bola oval com a mesma sofreguidão com que chutam a esférica.
A não ser que outro Império se levante, cobrindo o sol, trazendo-nos novas referências – quem sabe, o xadrez – que logo virarão obsessão nacional. Faz parte.


