Mourinho, um fora da ordem
Achei que o bate-boca de José Mourinho com um jornalista italiano, ontem, na coletiva oficial da Liga dos Campeões, fosse ter mais repercussão por aqui. Não foi o caso, então vale contar a historinha.
A entrevista era, teoricamente, para falar de Inter x Werder pela Liga. Mas, como era de se esperar, as perguntas eram ‘contaminadas’ pelo resultado do derby de domingo. Mourinho não gostou, e o resultado disso você vê nos episódios abaixo. Todos de ontem.
1) Jornalista lhe pergunta sobre que time ele havia reencontrado após a derrota para o Milan.
Mourinho olha para os lados, onde só se vê cartazes sobre a Liga dos Campeões e responde: “Ué, mas já acabou a entrevista coletiva sobre a Liga dos Campeões?”
2) Jornalista contesta sua formação contra o Milan.
Mourinho critica quem “comenta depois dos jogos, não antes”. E, em seguida, solta essa: “Para os jornalistas é bem fácil julgar as coisas feitas. De qualquer forma, todos podem falar e escrever, mas quem decide sou eu. Aqui não há tempo para chorar, essa é uma vida para quem trabalha, não para quem escreve sobre o trabalho dos outros”.
3) Jornalista insiste em falar de tática. Aí, segue-se o diálogo:
— Para o amigo de ‘óclinhos’ talvez seja uma grande satisfação vir aqui e escalar o time, porque talvez o amigo seja um jornalista frustrado, talvez quisesse ser técnico e não tenha conseguido. É um belo desafio: você vem aqui e escreve o time, e eu prometo que o escalo amanhã.
— Se Você me der parte dos 9 milhões de euros do seu salário… — responde o jornalista.
— Não são 9. São 11. Com a publicidade, 14!
O final desse último trecho, você pode ver aqui:
Exageros desse espisódio específico à parte, repito: Mourinho bate boca, contesta, não é chegado a fazer médias, mas é muito diferente, por exemplo, de técnicos como Emerson Leão, que vêem nos jornalistas “inimigos por princípio”. Se Mourinho responde, é porque julgou necessário responder — o que não elimina a possibilidade de julgamentos errados, como, acho, ocorreu no caso relatado acima —, porque não estava de acordo, verdadeiramente, com aquilo que lhe foi dito.
Há quem diga, também, que a intenção do técnico é, nos momentos ruins, tirar o foco dos jogadores e deixá-lo todo sobre si. Pode ser e, se for essa sua intenção, até funciona.
Mas a única coisa da qual tenho certeza é que, patadas à parte, os jornalistas não podem reclamar de Mourinho. Porque, perto do português, Felipão, o nosso técnico “mais divertido”, fica parecendo um personagem tão interessante como, digamos, Waldemar Lemos. Se é que me entendem.
Pra finalizar, depois de maus exemplos, deixo um bom exemplo da coerência e dos discursos (no mínimo lógicos) de Mourinho: a entrevista que ele deu para justificar o fato de não ter dado entrevista coletiva após o 1 x 0 sobre o Lecce, quando mandou Giuseppe Baresi em seu lugar. O vídeo está abaixo, em italiano.
Entre outras partes, argumenta Mourinho, sem fazer média (vou resumir): “Estudar italiano como eu estudei para poder falar com vocês logo no primeiro dia de trabalho é desrespeito? Então, o que é respeito? É fazer como o Ranieri, que ficou cinco anos na Inglaterra e ainda tinha dificuldade de dizer good morning?”.
Enfim, eu confesso. Adoro o Mourinho.
Autor: Gian Oddi - Categoria(s): entrevistas, imprensa, inter, técnicos, vídeos Tags: discussão, jornalista, mourinho