No mundo do futebol, se um time está “em crise”, invariavelmente algum de seus rivais estará em alta. Porque o estar mal, em geral, pressupõe que há uma outra equipe ocupando seu lugar e conseguindo as vitórias que você não consegue, certo? Errado. Pois cheguei à conclusão, depois da rodada do último fim de semana, que o Campeonato Italiano conseguiu o incrível feito de ter, de um jeito ou de outro, todos os seus principais times, aqueles que eram candidatos ao título no início da temporada, “em crise”. Isso inclui, incrivelmente, até a campeã. Vamos conferir:
* Comecemos pela mais óbvia das crises, a da Roma. Cuja torcida presente no estádio Olímpico no empate por 0 x 0 contra o Chievo (!) trocou as músicas de Antonello Venditti por sonoras vaias, protestou entrando só no fim do jogo e ainda gastou um monte de pano para levar faixas com a inscrição “vattene” (numa tradução livre, “se mandem”) não se sabe bem se para a presidente Rosela Sensi, se para o técnico Luciano Spalletti ou se para boa parte do elenco. Aliás, sabe-se: para todos eles, com exceção de Totti (claro..), De Rossi, Brighi e Vucinic.
* Também na linha das crises tradicionais está a da Juventus, onde o técnico Claudio Ranieri está tão sozinho que chega a dar dó – mas ao contrário do antecessor Deschamps, que passou pelo mesmo, o italiano garante que não vai pedir as contas. Capítulo curioso e novo foi o fato de Buffon, no intervalo, ter entrado em campo antes dos colegas, bufando (desculpem o trocadilho) e xingando muito. Diiiizem que teria ficado puto com Camoranesi e Del Piero, que teriam tido um sério bate-boca nos vestiários, quando a Juve ainda perdia do Lecce por 1 x 0. Coincidência ou não, ambos foram substituídos. E a Juve virou. Mas, como não podia deixar de acontecer com um time em Crise com cê maiúsculo, mesmo em Turim, levou o empate do poderoso vice-lanterna já nos acréscimos.
* E a campeã? Já escrevi na coluna do Jornal Placar da semana passada que a Inter é a campeã mais melancólica da Europa. Tivesse esperado uma semaninha para escrever o tal texto, poderia ter incluído o inacreditável episódio do último sábado, quando Ibrahimovic, o craque do time, fez o primeiro gol dos 2 x 0 sobre a Lazio e saiu fazendo gesto para a própria torcida, que o vaiava pelas recentes declarações de que pretende deixar o clube, calar a boca. Só pra lembrar, estamos falando da atual e futura campeã italiana. Campeã em crise, pra mim, é demais…
* Aí tem o Milan, que, alguns podem argumentar, até que voltou a jogar bem, ganhou a segunda colocação da Juventus e, bem o mal, está fechando o Italiano de um jeito melhor do que se esperava depois da eliminação na Copa da Uefa. Mas… com a palavra, o volante Seedorf, depois dos 2 x 0 sobre o Catania no domingo: “A gente tem que tomar cuidado para estas vitórias não esconderem as coisas e mudarem o que o clube estava planejando e precisa fazer para a próxima temporada”. Tem toda razão (e me parece que o próprio vice-presidente Galliani já havia dito algo nessa linha). Porque o Milan pode não estar vivendo uma crise nestes últimos jogos, mas vive, ainda, uma temporada de crise. E mascarar suas deficiências com bons (e inúteis) resultados nessa reta final pode ser bem prejudicial para a próxima temporada.
* E, por fim, até a Fiorentina (ou vocês não lembram que também ela era apontada como candidata ao título?). Que me perdoem os florentinos, como minha querida família materna, mas a crise da Fiorentina, hoje, é técnica. Porque o time pode até ter batido o Torino por 1 x 0 no domingo, mas, como em suas últimas partidas, não jogou absolutamente nada. Talvez a equipe não tenha, neste Italiano, jogado tão mal como nos últimos jogos. A diferença da Fiorentina para a Juve, hoje, é que ela não joga nada, mas, ao contrário do time de Turim, vence. Para tristeza do Genoa, que tem feito mais para merecer a quarta vaga na Liga dos Campeões. E que é o primeiro time da tabela do Italiano a não estar, de um jeito ou de outro, em crise.