Como bem lembrou o Braitner, leitor cativo, ainda não falei aqui sobre a (ao que parece iminente) venda da Roma para o especulador húngaro radicado nos Estados Unidos George Soros.
Preencho essa lacuna agora, reproduzindo abaixo um claro e didático texto do mesmo Braitner Moreira, publicado dia 12/4 no seu blog, o Quattrotratti.
O futuro do futebol italiano?
Seu patrimônio é calculado em 8,5 bilhões de dólares: segundo a Forbes, o 80º homem mais rico do mundo. George Soros, húngaro radicado nos Estados Unidos, fez fortuna com especulação cambial. Apóia Barack Obama na corrida pela Casa Branca. Tem 78 anos, cinco filhos e duas ex-mulheres. Já doou mais de quatro bilhões de euros em filantropia. E, possivelmente, já comandará a Roma a partir da próxima temporada.
John Fisher, milionário herdeiro da GAP, havia tornado público seu interesse na aquisação da sociedade, há algumas semanas. Tom Hicks, conhecido no Brasil graças a seus investimentos em Corinthians e Cruzeiro na década de 1990, também. Assim como os magnatas do petróleo Anatoli Kolotilin e Sulemain Kerimov. Desde que a direção romanista iniciou o projeto de recapitalização do clube através de Rosella Sensi (administradora delegada), Cristina Mazzoleni (diretora financeira) e Ciro Di Martino (vice-presidente administrativo), a Roma tornou-se pauta também nos cadernos de economia.
Para entender melhor a situação do clube, vale lembrar que a Roma não é independente. O balanço do último ano da Italpetroli, holding da A.S. Roma S.p.A., indicou que a venda do braço esportivo dos negócios da família Sensi pode ser essencial para salvar a empresa petrolífera. Assim, a Italpetroli voltaria a respirar. A empresa tem pressa. Soros também. O diário La Repubblica, na edição desta sexta-feira, apontou que o investidor teria dado um prazo de oito dias para a resposta final de Franco Sensi. O que balançou o mercado de ações: a Roma é um dos três times italianos cotados na bolsa (os outros são Lazio e Juventus), e suas ações subiram mais de 20% após as primeiras especulações relativas ao interesse da aquisição.
A possível proposta é bem cotada porque, pela primeira vez, mexe de verdade com os Sensi. Além de chegar em boa hora, os 250 milhões de euros que teriam sido ofertados cobririam boa parte do rombo da empresa petrolífera, que hoje chega a 360 milhões. Franco Sensi, que havia adquirido a Roma em 1993, apostou cegamente no sonho de chegar ao scudetto. Para cobrir as despesas, teve de se desfazer de seguidas empresas, e agora só lhe sobra sua holding. O projeto do time de 2001, a longo prazo, deu mais dívidas que alegrias. Apenas Montella, Batistuta, Emerson e Samuel custaram, juntos, perto de 100 milhões de euros (dados do site Transfermarkt).
George Soros não poupou elogios a Francesco Totti, prometeu reforços de ponta para o elenco, a construção de um estádio próprio e o cargo de presidente honorário a Franco Sensi. Seus emissários já se reuniram com Gian Roberto Di Giovanni, advogado designado por Rosella Sensi, primogênita do presidente, para gerir os contatos. Apesar da identificação da família com o clube e a torcida, seria arriscado aguardar a bancarrota da Italpetroli para ver uma negociação às pressas de forma a evitar um leilão. É certo que os Sensi não têm qualquer intenções de vender “sua” Roma. Mas nem só de boa vontade pode viver o futebol.
A provável venda romanista deve alavancar uma mudança de rumos em todo o futebol italiano logo que a figura de um megainvestidor aporte em Trigoria. Faria Moratti abrir os cofres para montar uma Inter mais confiável e imbatível. Berlusconi e a família Agnelli acelerarem o processo de reconstrução de Milan e Juventus, respectivamente. Lotito avaliar os riscos de apostar alto para que a Lazio não fique para trás no cenário local. E Della Valle lutar para segurar as peças-chave de sua Fiorentina. Clubes com maior fluxo de caixa, como Sampdoria, Udinese e Napoli também seriam obrigados a reforçar seus elencos para não se verem deixados para trás.
Tal conjunto de reações aumentaria a qualidade do campeonato, voltaria os olhos da imprensa internacional para a península e, invariavelmente, ampliaria o valor da Serie A como um produto – a partir daí, os clubes poderiam retomar as conversas por melhores direitos de transmissão. Se combinado com a reestruturação institucional prometida pelos dois principais candidatos ao cargo de premiê italiano (em especial Walter Veltroni, ex-prefeito da capital*), até mesmo a média de público nos estádios pode voltar a crescer. Outra medida, esta por conta da FIGC, já discutida e de boa aceitação, seria a diminuição da Serie A para apenas 18 times.
Pelo segundo ano consecutivo, a Inglaterra põe três times nas semifinais na Liga dos Campeões e conquista cada vez mais audiência – e dinheiro – ao redor do mundo. Clubes como Portsmouth possuem folhas salariais maiores que a de times tradicionais da Itália, como Lazio ou Torino. Soros, quem diria, pode ser o estopim para que a Itália mantenha seu orgulho internacional, antes de perdê-lo de vez.
* Como agora já sabemos, Berlusconi é quem foi eleito premiê italiano.