“ROMA – O presidente da Itália, Giorgio Napolitano, dissolveu nesta quarta-feira o Parlamento, passo prévio para a convocação das eleições que buscam resolver a crise aberta após a queda do governo de Romano Prodi, em 24 de janeiro. As eleições foram marcadas para 13 e 14 de abril, segundo a imprensa local.” A notícia está publicada e destacada hoje, no Último Segundo.
Não é meu costume falar de política aqui, mas não resisti. E não quero ser chato. Então, vou tentar fazer um paralelo com futebol para explicar, mais ou menos, o que acontece na Itália.
Suponhamos, pra começar, que o Milan seja o Parlamento Italiano. O técnico Carlo Ancelotti é o primeiro ministro, mas depende do apoio da maioria dos jogadores para continuar no cargo. Kaká está com ele. Pato, Ronaldo, Maldini e Nesta também. Enfim, jogadores importantes são os jogadores da “situação”.
Outros atletas de peso, contudo, não vão muito com a cara do chefe. Suponhamos que sejam os casos de Pirlo, Gattuso e Seedorf, que batizaremos de “oposição do meio-campo”. Normal. Todo técnico costuma ter que encarar alguma oposição no seu trabalho. O número de opositores está próximo (mas abaixo) daquele dos admiradores de Ancelotti.
Até que, num belo dia, o volantão Brocchi se revolta por não ficar sequer no banco de reservas num jogo do Italiano (uma revolta, a gente sabe, injusta). A ira de Brocchi faz com que ele chame seus comparsas como Aubameyang, Favalli e Gourcuff. Gente que nem conta muito pro time, mas que, juntos, têm poder para derrubar Ancelotti caso se junte à oposição de meio-campistas.
Ancelotti cai. O presidente da Liga de Futebol percebe (já havia percebido, na verdade) o quão precário é o esquema que define se um técnico será ou não mantido no cargo. E propõe: “Vamos mudar essa regra? Vamos polarizar, desde o começo, o elenco entre os que gostam e os que não gostam do treinador? Vamos impedir esses volantes insignificantes como Brocchi de determinar o futuro de um time tão importante como o Milan?”
Em vão. Àquela altura, já com o cargo de técnico vago, Pirlo, que até considerava essa mudança havia alguns meses, não queria mais acordo nenhum para mudar as regras a favor do time. Queria só o lugar do treinador.
E, assim, estão convocadas as eleições na Itália.
*** Fim ***
Com participações de:
>> Carlo Ancelotti, como Romano Prodi
>> Kaká, Pato, Ronaldo e cia, base do governo Prodi
>> “Oposição do meio-campo”, como oposição do governo Prodi
>> Brocchi, como Clemente Mastella, que retirou o apoio de seu partido (Udeur) ao governo por ter sido acusado de corrupção
>> Aubameyang, Favalli e Gourcuff, como representantes dos partidos nanicos (mas decisivos)
>> Pirlo, como Silvio Berlusconi (o político, não o dono do Milan)