A escolha de Gaúcho
Primeiro, o vídeo:
Ao ser flagrado saindo de um restaurante de Milão às 2h30 da manhã de sexta-feira, a primeira reação de Ronaldinho Gaúcho foi se esconder. Ele tinha consciência, portanto, que a postura não era a mais adequada para um jogador cujo time entraria em campo no dia seguinte, sábado, pelo Campeonato Italiano.
Segundos depois de tentar ocultar o rosto, ao se dar conta que já tinha sido filmado, sua atitude foi louvável: o jogador impediu que um de seus amigos, um troglodita de apelido Gibão, intimidasse fisicamente o homem que os filmava. “Deixa ele, Gibão! Essa hora é cedo”, argumentou, para depois se dirigir ao autor do vídeo: “Você já fez o seu trabalho? Então, boa noite. Eu estou bem para ir pra casa e você está bem com o seu trabalho”.
A primeira reação de Ronaldinho, porém, deixou claro: ele sabia que já não era “cedo”. Sabia também que provavelmente seria repreendido por seu técnico, Massimiliano Allegri, como acabou sendo. Contudo, mesmo sabendo, preferiu deixar o restaurante (?) onde estava às 2h30 da manhã da véspera de um jogo importante.
Não se trata de julgar Ronaldinho. Mas o caso desta sexta é emblemático sobre suas escolhas — que são seu direito, diga-se. Com a idade (30) e o futebol que tem, o brasileiro provavelmente poderia ser, ainda, um dos melhores jogadores do mundo. Mas hoje está muito longe disso: é só um reserva do Milan.
Por que? Porque Ronaldinho Gaúcho ainda quer jogar futebol, mas não está disposto aos sacrifícios que seriam necessários para levá-lo, de novo, ao topo.




Esclareço desde já: não tenho simpatia política pelo primeiro ministro italiano Silvio Berlusconi. Pelo contrário. Mas é inegável que, como dono do Milan, Berlusconi é daqueles dirigentes que dão ao noticiário esportivo, muitas vezes monótono e cheio de clichês, um tempero especial — assim como José Mourinho na categoria dos técnicos. Ao contrário da justiça desportiva italiana, Berlusconi não achou ruim quando o zagueiro Materazzi comemorou a vitória da Inter sobre o Milan usando uma máscara de… Berlusconi! O cartola é indiscutivelmente querido por seus jogadores pela maneira informal como os trata. Até na hora de dar declarações sobre o clube, o político-dirigente não é de embromar. Disse sobre a recente contratação do brasileiro Mancini, ex-Internazionale: “Não entendi sua contratação. É mais um meio-campista, quando precisávamos de alguém que finalizasse. O Mancini está parado há dois anos! Não concordo com sua contratação e já falei ao [Adriano] Galliani [vice-presidente do Milan]“. O caso parece exagerado — um erro, até. Mas, num time vencedor como o Milan, mostra que dirigentes nem sempre precisam se esconder atrás de dissimulações e mentiras para ter sucesso. No caso específico de Berlusconi, talvez o futebol funcione para dar vazão aos seus arroubos de sinceridade: nos estádios, eles são bem menos nocivos do que em um parlamento.
Há cerca de seis meses, após ter sido ‘flagrado’ em uma boate de Barcelona num dia de folga, Ronaldinho Gaúcho foi alvo de duras críticas. Recentemente, após outra das ótimas partidas que tem feito pelo Italiano, foi fotografado tocando e cantando pagode em um restaurante: exaltou-se, neste caso, a alegria e a ginga tupiniquim. São os resultados dos jogos, como sempre, contaminando as opiniões.
