Houve uma rodada do Campeonato Italiano no fim de semana. Sete jogos foram disputados; três, não. Deixarei os sete de lado.
O fato
Gabriele Sandri, um conhecido DJ italiano de 28 anos, foi assassinado quando viajava de Roma a Milão para assistir a um jogo do seu time, a Lazio, contra a Inter. Gabriele estava dentro do carro quando foi alvejado por um policial. Embora as especulações sejam infinitas (e como sempre irresponsáveis), ainda não se sabe bem porque o polícial atirou. Se mirou no carro de Sandri ou não. Sabe-se apenas que havia uma briga entre torcedores da Lazio e da Juventus nas proximidades da bela cidade de Arezzo, onde estavam Gabriele e seus amigos naquela hora.

Gabriele Sandri (AFP)
Pronto. Esse é o fato. E é tão lamentável quanto é desnecessário classificá-lo assim. Mas, como em geral acontece em casos similares (e infelizmente cada vez mais corriqueiros) na Itália, há motivos de sobra para crer que o culpado ainda que seja o policial será punido.
A “guerra civil”
Também lamentáveis, contudo, foram as consequências do episódio nos campos de futebol do país. Agora, ‘profetas do acontecido’ defendem naquelas inócuas e indignadas mesas-rendondas de futebol da TV italiana (trata-se de um mal mundial) que os demais jogos da rodada deveriam ter sido suspensos imediatamente.
Não quero parecer insensível, mas… por que? Porque alguém havia levado um tiro em uma estrada? No momento do início dos jogos, era só o que se sabia. As circunstâncias, as causas e os culpados do assassinato não eram conhecidos como não são, em boa parte, até agora.
Acontece que os Ultràs queriam o cancelamento dos jogos (os “Ultràs”, vale explicar, são a versão italiana das nossas torcidas organizadas). Tal como seus irmãos tupiniquins, não primam pelo bom senso nem pela inteligência. Prepotentes, violentos e em geral covardes, orgulham-se por julgar e executar suas próprias “leis” com tacos, pedras, bombas e bandanas cobrindo os rostos. Foi o que fizeram neste domingo. Decidiram que a polícia era culpada. E por isso, em algumas cidades, decidiram que os jogos não aconteceriam.

Torcida da Atalanta ‘exige’ fim do jogo (Reuters)
Atlatanta x Milan foi interrompido ainda no início, o que não impediu brigas fora do estádio de Bérgamo. Já na capital, onde a Roma jogaria com o Cagliari, a partida foi suspensa antecipadamente. Mas isso não bastou. Pelo contrário: foi justamente lá que torcedores de Roma e Lazio, eternos rivais, se uniram para quebrar carros e vespas (provavelmente, em alguma medida, um idiota quebrou o veículo do outro), invadir e incendiar ônibus, carros, postos policiais e até a sede Comitê Olímpico Italiano.
O cenário é de guerra civil. E não sou eu, mas a própria imprensa italiana a classificá-lo assim.

Roma, na noite de domingo (AP)
Seedorf e a RAI
Quando a morte do torcedor foi confirmada, ainda no início do domingo, a Federação Italiana decretou luto nas partidas do campeonato nacional. E todos os jogadores, exceto Clarence Seedorf, do Milan, entraram em campo com uma faixa no braço. Ainda não sei o motivo da atitude do holandês (se alguém souber, me diga), mas, no mínimo, ele mostrou personalidade. Porque, na Itália, não é raro jogadores aderirem a manifestações de todo tipo sem o mínimo conhecimento dos fatos, de suas causas e consequências.
Algo de bom? Criativa e sábia foi a edição de imagens da TV italiana depois da suspensão de Atalanta x Milan. Em vez de apenas repetir as imagens de violência ou de incitações, a TV mostrava crianças desapontadas com o desfecho da situação. Um garoto, de cabeça baixa, chutava alguns papéis na arquibancada já vazia; outro guardava, triste, o cachecol com o nome do time; um terceiro chorava desesperadamente (e pode até ser que chorasse por birra ou fome, mas as imagens assim não davam a entender). E assim, no meio de tanta estupidez, a edição nos lembrava o que move ou pelo menos deveria mover o futebol.
O passado e o futuro
Vale lembrar que, em fevereiro, um policial foi assassinado por torcedores antes de Catania x Palermo. As mesas-redondas indignadas eram infinitas, os culpados foram econtrados e estão sendo julgados, diversas medidas anti-violência (que pareciam eficientes) foram tomadas nos estádios, certas partidas passaram a ser “vetadas para torcedores visitantes” e, mesmo assim, a violência continua. Porque alguns idiotas, para serem violentos, precisam de um espaço mínimo. E um pretexto; não um motivo.
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